Queda sustentada de mortes por covid-19 no Brasil está ligada à vacinação, segundo especialistas

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Um gráfico sobre a queda de óbitos por covid-19 no Brasil e a evolução da vacinação em massa foi compartilhado mais de mil vezes nas redes sociais desde 3 de novembro de 2021, junto à alegação de que a redução de mortes pela doença seria resultado da imunidade natural adquirida pela população. Mas isso é enganoso. Especialistas explicaram à AFP que quedas de óbitos podem ocorrer antes da aplicação massiva dos imunizantes porque a epidemia naturalmente tem um comportamento em ondas e que, além disso, a queda sustentada nos óbitos vista no país a partir de junho de 2021 está, sim, ligada aos imunizantes.

“A queda de casos na pandemia da Covid no Brasil tem como causa o progresso da vacinação? Ou já ocorria antes disso? Um gráfico revelador de Bruno Campelo,da UFPE, usando o Datasus,revela que a queda inicia bem antes, provavelmente pelo enorme peso da imunidade natural dos curados”, diz a mensagem compartilhada no Twitter. O conteúdo também circulou no Facebook (1, 2, 3).

Captura de tela feita em 4 de novembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

Os dados do gráfico

O gráfico viralizado é composto por duas curvas que se estendem de janeiro a outubro de 2021. Em preto, a linha representaria a média móvel de 14 dias das mortes por covid-19 no Brasil. Outra linha, em verde, representaria a média móvel da quantidade de segundas doses ou de vacina de dose única administradas na população. Segundo as publicações, ambas as linhas têm como fonte dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), vinculado ao Ministério da Saúde.

Os dados do Ministério da Saúde mostram uma linha de média móvel de 14 dias dos óbitos por covid-19 com um pico acentuado em 19 de abril seguido por um pico menor em 20 de junho e, depois, uma queda constante a partir do final desse mês. Embora a evolução seja semelhante, o gráfico compartilhado nas redes sociais situa o principal pico em março.

Com relação à aplicação de segundas doses ou de imunizantes de doses únicas, um gráfico publicado pela Fiocruz, com dados provenientes do projeto @CoronavirusBra1, mostra um cenário semelhante ao do gráfico viralizado. Em ambas as representações, por exemplo, há um pico em 23 de abril e, a partir de junho, a aplicação cresceu sem que houvesse quedas significativas.

De acordo com a mensagem viralizada, o fato de as mortes por covid-19 terem começado a cair antes de a aplicação da segunda dose ou da dose única dos imunizantes mostraria que a redução de óbitos por covid-19 no Brasil teria ocorrido pelo “enorme peso da imunidade natural dos curados”. Duas quedas na curva de óbitos, em particular, teriam acontecido antes de picos de aplicação dos imunizantes: a primeira antes de 23 abril, quando o Brasil registrou uma alta na quantidade de segundas doses aplicadas, e a segunda a partir de junho, antes de a aplicação dos imunizantes crescer de maneira mais constante.

No entanto, gráficos do Ministério da Saúde e do projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford, mostram que, desde o início da pandemia, o país já atravessou outros picos nos quais também se observaram quedas no número de óbitos seguidas por novas escaladas:

“Muitas quedas [de óbitos] foram observadas antes [de iniciada a aplicação] da vacina, pois a epidemia funciona em ondas (na maioria dos lugares, bem marcadas)”, afirmou ao Checamos Pedro Hallal, epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas e professor visitante da Universidade da Califórnia em San Diego.

Esse comportamento em ondas da epidemia “acontece porque o contágio tem um ciclo, que normalmente é cortado por ações humanas”, explicou ao Hallal e exemplificou com a adoção de lockdowns ou “a simples decisão de uma pessoa gripada de não sair de casa”. “Isso faz com que o vírus deixe de contaminar depois de algum tempo, por ação humana de combate a ele”, acrescentou o epidemiologista.

Quedas de óbitos anteriores

Para Wallace Casaca, coordenador do projeto InfoTracker, plataforma online de monitoramento em tempo real de dados da covid-19 no Brasil, existem outros fatores que explicam a queda de óbitos no país antes da vacinação.

O segundo pico no país, registrado em março e abril passados, foi ocasionado pela disseminação da variante gamma, o que acabou levando muitas pessoas a óbito. “Depois da disseminação dela, naturalmente, (...) isso começa a declinar. Lembrando também que foi nesse período que várias medidas foram implementadas, como restrição de mobilidade, distanciamento social, fiscalização”, disse ao Checamos.

E acrescentou que a teoria da imunidade rebanho considerada no conteúdo viralizado “infelizmente não se mostrou válida para a covid-19. (...) Por conta do surgimento de variantes, houve reinfecção. Isso é fato e está na literatura científica. A reinfecção existe no caso da covid-19 e é comum”, afirmou Casaca.

Um dos estudos realizados pela USP a respeito do tema sugere que até 31% dos indivíduos que contraíram a COVID-19 em Manaus após janeiro de 2021 correspondem a casos de reinfecção da variante gamma.

Ela foi detectada pela primeira vez no Brasil em novembro de 2020. Com o aumento de casos e óbitos por covid-19, principalmente de janeiro a março de 2021, de fato, governos estaduais e municipais adotaram medidas mais restritivas de circulação da população para conter a disseminação do vírus.

Alexandre Naime, chefe do departamento de infectologia da Unesp, também ressaltou ao Checamos a importância das medidas restritivas em quedas de óbitos vistas no país antes da vacinação. “Quedas anteriores nos óbitos se devem a medidas restritivas de circulação. Agora, vemos uma redução promovida pelas vacinas. As pessoas adoecem menos, transmitem menos e morrem menos”, disse.

Profissional de saúde prepara uma dose de vacina contra a covid-19 em 28 de outubro de 2021 no Rio de Janeiro ( AFP / Mauro Pimentel)

A vacina e redução sustentada de óbitos

Segundo o epidemiologista Hallal, apesar de o país já ter registrado quedas de óbitos anteriormente, um dos efeitos da vacinação é que a redução de mortes decorrente da vacina é uma “queda sustentável que, no longo prazo, evita novas subidas. A queda decorrente da imunidade natural, no caso da covid19, simplesmente não existe”.

Uma das evidências desse efeito, de acordo com Wallace Casaca, seria justamente o fato de o Brasil não ter registrado uma nova explosão de mortes, mesmo diante da chegada da variante delta, detectada pela primeira vez no país em maio de 2021:

“Pelo menos até agora, mesmo com o surgimento de variantes como a delta, os casos de covid-19 aumentaram de forma significativa; no entanto, os óbitos e as internações não explodiram no mesmo ritmo. Ou seja, os aumentos foram muito pequenos perto da explosão de casos confirmados”, afirmou Casaca ao comparar com a Rússia, onde ele observa “que a delta não apenas aumenta o número de casos confirmados, mas também faz aumentar de maneira explosiva os óbitos”.

Segundo o Ministério da Saúde, comparado ao pico de óbitos por covid-19 registrado em abril de 2021, o Brasil observa em outubro deste ano uma redução de mortes de 87,3%. O ministro da pasta, Marcelo Queiroga, atribuiu o cenário à campanha de vacinação contra a doença.

Em um Boletim Epidemiológico de 4 de novembro, a Fiocruz também destaca que “a campanha de vacinação está atingindo um dos seus principais objetivos, qual seja, a redução do impacto da doença, produzindo menos óbitos e casos graves, no entanto, sem o bloqueio completo da transmissão da doença”. Na análise, a instituição destaca que os gráficos são claros ao mostrar “que a queda de óbitos acompanha o crescimento da cobertura vacinal na população”.

O infectologista Naime acrescenta, ainda, que essa redução constante no número de óbitos observada no Brasil desde o final de junho de 2021 não poderia ser explicada somente pela imunidade natural adquirida do contato com o vírus:

A imunidade natural contra a covid-19

Embora não haja consenso sobre qual imunidade pode ser mais robusta ⎼ natural ou vacinal ⎼, especialistas consultados pela AFP em outubro de 2021 concordam que a vacinação é a melhor estratégia a ser adotada pelas autoridades para conter a pandemia, já que produz imunidade sem envolver os riscos associados à infecção, além da possibilidade de prolongar o período de proteção contra o vírus com os reforços.

Não há certeza, até o momento, sobre quanto tempo duram os anticorpos gerados pelas duas formas de imunização, mas Ricardo Rabagliati, infectologista do Hospital Clínico da Universidade Católica do Chile, declarou que “é possível controlar melhor a situação por meio das vacinas com a possibilidade de dar doses repetidas”.

Eduardo Martins Netto, epidemiologista do Hospital Universitário Professor Edgard Santos da UFBA e médico pesquisador da Fundação José Silveira, explicou ao Checamos que a imunidade natural também pode desempenhar um grande papel, “só que a um custo altíssimo de morbidade (doença clínica aguda e grave e pós-covid grave) e mortalidade”.

“Para muitas doenças e situações, a imunidade natural não é suficiente. A doença leve tem uma resposta fraca, a resposta vacinal neste caso é muito mais forte”, disse o epidemiologista. Ele concluiu que para desenvolver uma resposta imunológica semelhante à vacina, é preciso geralmente que seja desenvolvido um quadro grave: “No caso da doença covid-19 aguda grave, a resposta vacinal é semelhante (em geral, pois varia de acordo com o estado de imunodeficiência do indivíduo)”, disse.

Homem é vacinado contra a covid-19 em Nossa Senhora do Livramento, comunidade nas margens do Rio Negro, próximo a Manaus, Amazonas em 9 de fevereiro de 2021 ( AFP / Michael Dantas)

Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos recomendam a vacinação como estratégia para conter a pandemia, mesmo para os que já se infectaram. Segundo os Centros, “pesquisas ainda não mostraram por quanto tempo você está protegido depois de se recuperar da covid-19” e “a vacinação ajuda a te proteger mesmo que você já tenha tido a doença”.

Um estudo publicado pelos CDCs em 29 de outubro de 2021 observou que as vacinas à base de RNA mensageiro (Moderna e Pfizer) foram capazes de oferecer cinco vezes mais proteção contra um teste positivo para a doença do que a infecção pelo coronavírus.

De acordo com a OMS, a imunidade coletiva deve ser alcançada “pela vacinação, e não por permitir que a doença se espalhe entre qualquer segmento da população, uma vez que isso resultaria em casos e mortes desnecessários”.

Tedros Adhanom, diretor da OMS, afirmou em uma coletiva de imprensa em outubro de 2020 que “nunca na história da saúde pública a imunidade coletiva [por infecção natural] foi usada como estratégia para responder a um surto, muito menos a uma pandemia. É científico e eticamente problemático”.

*Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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