Ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Queiroga, vacina uma mulher contra a covid-19 em Paquetá, no Rio de Janeiro, em 20 de junho de 2021 ( AFP / Andre Borges)

Por que é enganoso dizer que a imunidade natural contra a covid-19 é melhor do que a das vacinas

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Após a viagem do presidente Jair Bolsonaro a Nova York para a Assembleia Geral da ONU em setembro de 2021 e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que o acompanhava, ter testado positivo para a covid-19, usuários alegaram nas redes sociais que a “imunidade natural é melhor” do que a gerada pelas vacinas. No entanto, especialistas consultados pela AFP explicaram que a imunidade natural “é boa, mas incerta”, e que a vacinação é a melhor estratégia a ser adotada, por produzir resposta imune sem envolver os riscos da infecção pelo SARS-CoV-2.

“A viagem do Bolsonaro e comitiva aos EUA provou três coisas: - Vacina não funciona; - Imunidade natural é a melhor; - Passaporte sanitário é só questão de controle social nazista. Fim.”, diz uma das publicações compartilhadas no Twitter (1).

Afirmações no mesmo sentido têm circulado no Facebook (1) e em espanhol.

Captura de tela feita em 30 de setembro de 2021 de um tuíte ( . / )

As publicações fazem referência à viagem do presidente Bolsonaro e sua comitiva para Nova York. Enquanto o mandatário, que anuncia não ter tomado o imunizante contra a covid-19, testou negativo após a viagem, seu ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, testou positivo depois de ter tomado as duas doses da vacina.

Segundo os usuários isso provaria que a “vacina não funciona” e que a “imunidade natural é a melhor”.

No entanto, embora não haja consenso sobre qual imunidade pode ser mais robusta, especialistas consultados pela AFP concordam que a vacinação é a melhor estratégia a ser adotada para conter a pandemia, já que produz imunidade sem envolver os riscos associados à infecção.

Natural versus vacinal?

A Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos indica que há três tipos de imunidade: inata, ativa e passiva. A primeira abrange o sistema de defesa com o qual se nasce; a segunda é a desenvolvida quando se expõe a um agente biológico (como um vírus), seja por meio da infecção ou de uma vacina; e a última é quando se recebe anticorpos, em vez de gerá-los por meio do próprio sistema imune, como no caso de um bebê que os recebe da mãe, ou no caso de uma transfusão de sangue.

Em relação à imunidade natural adquirida após a infecção pelo vírus, a virologista chilena Vivian Luchsinger explicou à AFP que ela é “mais completa, porque o vírus expõe todos os seus antígenos ao se replicar no infectado, gerando uma resposta imune frente a eles. Já com as vacinas, a exposição de antígenos é limitada”.

Mas isso não significa que se expor à infecção seja melhor do que se vacinar, já que os efeitos da covid-19 são imprevisíveis.

“Não é possível saber se a infecção natural vai ser grave, leve, moderada etc. O risco é altíssimo (...). A ausência de fatores de risco não significa que uma pessoa necessariamente vai ter uma infecção leve. É muito arriscado”, acrescentou.

Ligia Kerr, epidemiologista e professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade Federal do Ceará, concordou: “Quem tem a doença pode desenvolver formas extremamente graves e ir a óbito. Então o que nós queremos é não desenvolver a doença”.

Além do risco de morte associado à infecção, Evaldo Stanislau, médico infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), apontou que a imunidade natural funciona como uma loteria. “Nem todas as pessoas respondem bem, nem todas formam anticorpos e a duração pode ser fugaz.”

Mas isso pode mudar com a vacina. Ele resumiu:

Anticorpos

Não há certeza, até o momento, sobre quanto tempo duram os anticorpos gerados tanto pela infecção natural quanto pela vacinal. Contudo, Ricardo Rabagliati, infectologista do Hospital Clínico da Universidade Católica do Chile, ressaltou que a administração de várias doses permite prolongar o período de imunização.

“A infecção natural se apresenta em uma oportunidade e a vacina é aplicada em várias doses, fazendo com que seu efeito possa ser prolongado”, disse.

Nesse sentido, Rabagliati apontou: “É preciso considerar vários fatores ao fazer essa extrapolação de que a infecção natural poderia gerar melhores anticorpos”.

Quem desenvolve a forma leve da doença, por exemplo, “pode gerar menos anticorpos”, aponta Kerr. Ela sinaliza que a imunidade na covid-19 também depende da resposta celular, mas que a queda de anticorpos neutralizantes “é acompanhada de uma maior chance de se infectar de novo”.

Este estudo, que analisa níveis de anticorpos de pacientes previamente infectados pela covid-19, tem conclusão no mesmo sentido: “A severidade da doença foi associada a uma maior concentração de anticorpos neutralizantes”.

Profissional da saúde aplica a segunda dose da vacina contra a covid-19 em habitante de São José III, do rio Maró, no Pará ( AFP / Tarso Sarraf)

Os especialistas consultados concordaram sobre a vacina ser imunogênica - quando induz resposta imune - e ressaltaram que ela diminui muito a chance de a doença evoluir com gravidade.

O caso do ministro Queiroga seria um exemplo. Ele cumpriu os 14 dias de isolamento em um hotel, sem necessidade de hospital e sem que a doença se desenvolvesse com gravidade ou provocasse risco de vida, apontou Stanislau. Em 3 de outubro, o ministro divulgou em sua conta no Twitter que testou negativo, e assim, retornou ao Brasil.

Estratégia

Comparadas as duas formas de adquirir imunidade, a via da vacinação destaca-se pela eficácia e segurança, apontou Kerr. “Ambas podem produzir imunidade, só que a doença tem uma relação com gravidade extremamente elevada, e a da vacina é muito baixa.”

Além da maior segurança, a epidemiologista destacou que a resposta imune produzida pela vacina é excelente. Considerando todos esses fatores, Kerr concluiu que a vacinação faz “parte de uma estratégia de saúde pública de salvar vidas”.

Rabagliati concordou que, na comparação entre a imunidade natural e a vacinal, “não é uma melhor que a outra”, mas “é possível controlar melhor a situação por meio das vacinas com a possibilidade de dar doses repetidas”.

Em seu site, o Ministério da Saúde destaca que vacinar toda a população é uma prioridade: “Para vencer o coronavírus a premissa é uma só: Brasil unido por uma pátria vacinada”.

Outros órgãos governamentais e organizações internacionais recomendam a vacinação como estratégia para conter a pandemia. Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos destacam que a população deve tomar a vacina contra a covid-19, mesmo os que já se infectaram, pois “pesquisas ainda não mostraram por quanto tempo você está protegido depois de se recuperar da covid-19” e “a vacinação ajuda a te proteger mesmo que você já tenha tido a doença”.

Eles acrescentam que “estão surgindo evidências de que as pessoas desenvolvem melhor proteção com o esquema vacinal completo em comparação à proteção gerada pela covid-19”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) vê o acesso equitativo a vacinas seguras e eficazes como fundamental para acabar com a pandemia de covid-19.

A organização diz que “não são vacinas que vão parar a pandemia, é a vacinação”. Por isso, defende “que todos os países as recebam e possam implementá-las para proteger seu povo, começando pelos mais vulneráveis”.

O Instituto Pasteur de Montevidéu insistiu: “Para reduzir a circulação do vírus e de suas variantes, é essencial vacinar-se rapidamente”.

Estudo em Israel

Algumas mensagens compartilhadas nas redes sociais fazem referência a uma suposta vantagem da imunidade natural sob a vacinal. Usando dois estudos israelenses não revisados por pares como base, as postagens alegam que a primeira protegeria entre 6 e 13 vezes mais da covid-19 que a segunda (1, 2, 3). A afirmação também circulou em espanhol (1, 2, 3).

Ao buscar em inglês no Google os termos “Israel estudo imunidade natural”, foi possível chegar a este estudo preliminar, sem revisão de pares, divulgado em 25 de agosto de 2021 e realizado em Israel. Nele, conclui-se que “a imunidade natural confere uma proteção mais duradoura e mais forte contra a infecção, a doença sintomática e a hospitalização causada pela variante delta do SARS-CoV-2” em comparação à imunidade adquirida após as duas doses da vacina Pfizer.

Contudo, o estudo acrescenta: “As pessoas que estavam previamente infectadas pelo SARS-CoV-2 e receberam uma dose da vacina obtiveram proteção adicional contra a variante delta”.

Uma das postagens difundidas no Facebook também cita este estudo, sem revisão de pares, divulgado em 24 de abril de 2021. Ele ressalta que a resposta imune de pessoas previamente contagiadas pela covid-19 em comparação com a daquelas que se vacinaram foi similar.

“Este estudo sugere que tanto a vacina BNT162b2 [Pfizer] como a infecção prévia por SARS-CoV-2 são efetivas tanto contra a infecção posterior por SARS-CoV-2 como contra outros resultados relacionados à covid-19. Isso põe em questão a necessidade de vacinar pessoas previamente infectadas recentemente (até seis meses)”, destaca-se no final do artigo.

*Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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