Uma adolescente é vacinada contra a covid-19 em Quito, no Equador, em 13 de setembro de 2021 ( AFP / Rodrigo Buendia)

É falso que uma menina de Santiago del Estero, Argentina, morreu após ser vacinada contra a covid

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No último 14 de outubro começou a circular nas redes sociais a alegação de que uma menina de seis anos faleceu após ser vacinada contra a covid-19 na província argentina de Santiago del Estero. Para ilustrar, as postagens utilizavam a foto de uma criança segurando um cartão de vacinação. Mas as afirmações foram desmentidas por autoridades de saúde e de educação da localidade, assim como pela própria mãe da menor de idade vista na foto.

“Menina de 6 anos, em Santiago na Argentina morreu depois que tomou a vacina” e “Primeira vitima das crianças vacinadas na Argentina. 6 anos”, foram algumas das legendas das postagens compartilhadas no Facebook (1, 2) e no Twitter (1, 2, 3).

No aplicativo de envio de mensagens Telegram (1) o conteúdo foi visualizado por mais de 3,4 mil usuários.

Junto com as postagens há a foto de uma menina e o seguinte texto, escrito em espanhol: “Ela era Valen. Tinha 6 anos e era SAUDÁVEL ontem de manhã quando foi inoculada com o imunizante transgênico experimental mortal. Na escola Thelma Roca. De La Banda. Santiago del Estero. Chegou em casa se sentindo mal e deitou. Sua mãe saiu para comprar ibupirac [um analgésico]. Quando voltou Valen já havia falecido”.

Captura de tela feita em 19 de outubro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

Em espanhol o mesmo conteúdo viralizou em diferentes formatos (1, 2), inclusive sem a fotografia da criança (1).

Vacinação em Santiago del Estero

Não há nenhuma escola cujo nome seja “Thelma Roca” nessa localidade. Existe o colégio Telma Reca que, por meio de sua página no Facebook, desmentiu na manhã de 14 de outubro que uma criança vacinada ali tivesse falecido.

De fato, a campanha de vacinação contra a covid-19 nessa escola começou em 15 de outubro, como apontou o Ministério da Saúde da província em sua conta no Twitter, ao desmentir a versão da criança falecida:

O meio de comunicação local Nuevo Diario noticiou o primeiro dia de vacinação das crianças menores de 12 anos na escola Telma Reca. No artigo, a diretora da instituição fez referência à informação falsa que circula nas redes sociais, descrevendo a situação como “desagradável”.

“A única coisa que conseguiram foi gerar medo e incerteza nas famílias. Esse caso foi produzido por pessoas muito mal intencionadas e não se sabe os motivos pelos quais começaram”, disse. “Por sorte os pais nos acompanharam e souberam entender que essa notícia era totalmente falsa”, destacou.

Assim como para outras faixas etárias da Argentina, a vacinação contra a covid-19 não é obrigatória para as crianças. Para poderem imunizá-las, os pais ou responsáveis devem assinar um termo de consentimento como esse, da província de Santiago del Estero.

Além disso, o certificado emitido pelas autoridades de saúde dessa província é diferente do que é visto na imagem viralizada, como se pode constatar nessa galeria de fotos do Ministério da Saúde local. O certificado de vacinação segurado pela criança na fotografia compartilhada nas redes corresponde ao que é distribuído na província de Buenos Aires.

A menina da fotografia

Por meio de buscas nos comentários das postagens nas redes, a equipe de checagem da AFP encontrou Vanesa, a mãe da menina da fotografia, que, em sua conta no Facebook, pediu que denunciassem as publicações que afirmavam que a sua filha havia morrido depois de ser vacinada.

A mulher explicou que soube que a imagem de sua filha circulava no Facebook através de sua irmã, que, por sua vez, havia sido alertada por outro familiar.

A foto foi tirada por mim quando saímos após ela ser vacinada”, assinalou Vanesa à AFP. “Publiquei no meu status do WhatsApp e no meu Facebook, mas a minha conta no Facebook é privada”, assinalou.

A AFP teve acesso à conta, na qual está a fotografia original que circulou nas redes, assim como outras imagens da criança.

A mãe de Vanesa também publicou a foto de sua neta em seu status no WhatsApp, e em várias das postagens virais é possível ver, ao fundo, o seu nome de usuário, o que leva à conclusão de que a imagem foi capturada do aplicativo por algum contato de seu telefone e depois viralizada.

A filha de Vanesa não tem seis anos, como indicam as publicações, mas sim nove. Ela tampouco foi vacinada em La Banda, Santiago del Estero, mas na localidade de Rafael Calzada, distrito de Almirante Brown, Buenos Aires, em 13 de outubro.

A mãe acrescentou que sua filha mais nova, que também foi imunizada, igualmente não teve efeitos colaterais.

As duas crianças receberam o imunizante de vírus inativado Sinopharm, fabricado pelo Sinopharm/China National Pharmaceutical Group. Essa é a única vacina aprovada para pessoas de três a 11 anos na Argentina.

Vanesa se manifestou a favor das vacinas: “Sou 100% pró-vacina”, declarou. “Para mim, as vacinas em geral são a base da erradicação de toda doença [viral].

No entanto, indicou ter tido dúvidas antes de vacinar suas filhas contra a covid-19. “Sou sincera: tinha medo de vaciná-las. Mas li muito, e o que iam inoculá-las, em termos de composição, era o vírus morto, como outras vacinas que já tomaram. Isso me convenceu”, disse à AFP.

De fato, diferentes vacinas que compõem o calendário são feitas à base de vírus inativado, como a da poliomielite e a da hepatite A.

Vanesa lamentou ver uma médica compartilhando a desinformação sobre a sua filha. Karina Sarno, que já publicou alegações falsas sobre a covid-19 e as vacinas e que foram verificadas pela AFP em espanhol (1, 2), divulgou o rosto da menina em sua conta no Facebook. Mais tarde apagou a publicação.

De acordo com o plano de vacinação estabelecido no país, espera-se que cerca de 5,5 milhões de crianças sejam vacinadas com o imunizante Sinopharm.

Outros países da região que aprovaram a imunização de crianças contra a covid-19 são Chile e Equador, com a vacina Sinovac.

No Brasil, o Ministério da Saúde autorizou que adolescentes de 12 a 17 anos fossem imunizados com a vacina da Pfizer/BioNTech e estuda a inclusão de crianças no Plano Nacional de Imunização em 2022 caso a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprove.

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