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Dois dos cinco jovens falecidos citados nesse vídeo não tinham sido imunizados contra a covid-19

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O vídeo de uma comentarista desencorajando a vacinação de adolescentes contra a covid-19, alegando que cinco morreram após receber o imunizante da Pfizer, viralizou nas redes sociais desde 27 de setembro de 2021. Entretanto, dois dos jovens citados não tinham sido vacinados contra a doença. No caso dos outros três, não foi estabelecido vínculo causal entre a imunização e os óbitos até o momento, segundo secretarias estaduais e a Anvisa.

“Quer dizer que o próprio fabricante informa que a vacina da PFIZER não está indicada para aplicação em adolescentes e mesmo assim tem governador impondo que seja aplicada? Muitos relatos de adolescentes que morreram… Pais, muito cuidado”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2) e no Twitter junto ao vídeo em que Cristina Graeml comenta sobre a vacinação de adolescentes no programa Os Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan.

No vídeo viralizado, que não está mais disponível nas redes sociais da emissora, Graeml faz um alerta sobre a aplicação do imunizante da Pfizer, afirmando que “o fabricante não recomenda para menores de 16”.

Captura de tela feita em 31 de setembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / )

Entretanto, em uma busca no Google foi possível localizar a bula do imunizante, com data de setembro de 2021, na qual consta que o medicamento é indicado “para prevenir a doença covid-19 provocada pelo vírus SARS-CoV-2 em indivíduos com idade igual ou superior a 12 anos”.

A mesma recomendação etária consta na bula do paciente, disponibilizada no site da Anvisa e com data de registro em 23 de fevereiro.

Graeml também afirma que “a bula da vacina sequer menciona os casos de miocardite”, uma inflamação no músculo cardíaco. Isso tampouco é verdadeiro, já que o texto informa, na página 2, na seção “O que devo saber antes de usar este medicamento?”, que “casos muito raros de miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e pericardite (inflamação do revestimento exterior do coração) foram relatados após vacinação”.

A Anvisa também apontou para o risco de miocardite e pericardite após a aplicação de imunizantes usando tecnologia de RNA mensageiro em uma nota de 9 de julho de 2021, na qual ressaltou que mantinha sua recomendação de “continuidade da vacinação com a vacina da Pfizer, dentro das indicações descritas em bula, uma vez que, até o momento, os benefícios superam os riscos”.

Mortes de adolescentes

A comentarista acrescenta no vídeo viralizado: “E querem saber do pior? Os casos que estão em investigação aqui de adolescentes que morreram. Isso nas últimas duas, três semanas aqui. Isabelle tinha 16 anos, João Pedro Bordino Frazão, de Marília, no interior de São Paulo, tinha 16 anos. O Samuel Veríssimo da Silva, de Jaú, no interior de São Paulo, tinha 13 anos, infartou e morreu. Julia Sani de Blumenau, Santa Catarina, tinha 15 anos, teve parada cardíaca e morreu. A Isabelle Valentim, como eu disse, tinha 16. E tem mais um nome que eu não consegui identificar de onde, mas já está nas redes sociais, Nilmar Moreira de Jesus, 15 anos, infartou e morreu”.

No entanto, Julia Sani, que faleceu em 14 de setembro de 2021 em Blumenau, Santa Catarina, aos 15 anos, ainda não havia sido imunizada contra a covid-19. Os adolescentes sem comorbidades de sua faixa etária foram vacinados na cidade nos dias 16 e 17 de setembro, de acordo com o anúncio da prefeitura da cidade em sua conta no Twitter.

À AFP, a Secretaria de Saúde de Santa Catarina informou que a causa da morte da jovem foi uma parada cardíaca sem relação com qualquer imunizante, já que "ela não recebeu a dose da vacina".

Esse também foi o caso de Nilmar Moreira de Jesus, que faleceu em Camaçari, na Bahia, aos 15 anos, em 16 de setembro de 2021. Segundo um jornal local, o adolescente passou mal na escola onde estudava e faleceu após atendimento médico. A família do rapaz informou ao veículo que ele não havia sido imunizado contra a covid-19.

A Secretaria de Saúde da Bahia confirmou a informação à AFP: "O adolescente teve morte súbita, não tendo qualquer relação com a vacina da Pfizer, visto que ele não havia se vacinado".

A prefeitura de Camaçari havia anunciado em seu perfil no Instagram no dia 15 de setembro que a vacinação dos jovens de 15 anos seria feita a partir do dia seguinte. Mas, no dia do óbito do adolescente, a vacinação estava suspensa em razão de uma nota técnica emitida pelo Ministério da Saúde que excluía os indivíduos entre 12 e 17 anos sem comorbidades de sua campanha nacional de imunização. A decisão foi revertida dias depois.

Outra jovem mencionada no vídeo, Isabelle Borges Valentim, de São Bernardo do Campo, faleceu em 2 de setembro de 2021, aos 16 anos, após a aplicação da primeira dose do imunizante da Pfizer.

Em nota divulgada em 17 de setembro de 2021, o Centro de Vigilância Epidemiológica do estado de São Paulo afirmou que uma investigação hospitalar e domiciliar sobre o caso levou à conclusão de que “a paciente não apresentou qualquer doença cardiológica”. De acordo com o órgão, o quadro clínico da jovem e os exames complementares da adolescente sugerem que ela tinha Púrpura Trombótica Trombocitopênica (PTT), uma doença autoimune.

“Apesar da relação temporal com a vacinação, não há como atribuir relação causal entre PTT e a vacina covid-19 de RNAm”, conclui a nota.

Quanto aos outros dois adolescentes que faleceram em outras cidades de São Paulo - João Pedro Bordino Frazão, de Marília, e Samuel Veríssimo da Silva, de Jaú -, a secretaria de saúde do estado informou à AFP que “não há comprovação de relação da vacina com os óbitos dos jovens” e que “qualquer afirmação [sobre a vacinação] é precoce e temerária”.

Consultada pela AFP, a Anvisa afirmou que “até o momento, não há óbitos de menores de 18 anos no Brasil com relação causal estabelecida com as vacinas contra covid-19” e que “entre as 255 milhões de doses de vacinas aplicadas até o momento, as notificações de suspeita de reação adversa não alteram o perfil de segurança conhecido para a vacina”.

A aplicação do imunizante da Pfizer em adolescentes foi aprovada em 11 de junho de 2021 pela Anvisa. Na época, a mesma autorização já havia sido concedida pelas agências regulatórias de saúde dos Estados Unidos e da União Europeia.

Uma jovem recebe sua primeira dose da vacina Pfizer contra a covid-19, em 14 de maio de 2021, em Los Angeles, Califórnia ( AFP / Patrick T. Fallon)

Vacinação suspensa?

No vídeo, a comentarista diz, ainda, que “o Reino Unido suspendeu vacinação de adolescentes saudáveis” assim como a Rússia e a Noruega, “porque começaram a aparecer relatos de adolescentes que infartaram”. Mas a afirmação tampouco é verdadeira.

As principais autoridades de saúde do Reino Unido recomendaram em 13 de setembro de 2021 a administração de duas doses da vacina contra covid-19 para adolescentes saudáveis entre 12 e 15 anos. Na Noruega, as indicações de imunização variam de acordo com a situação de saúde dos adolescentes, mas as duas doses de vacinação estão disponíveis para essa faixa etária, de acordo com o Instituto de Saúde Pública do país. Em nenhum dos dois casos a AFP encontrou registros de que tenha havido uma suspensão.

Na Rússia, a vacina é indicada, até o momento, para pessoas a partir de 18 anos, segundo informações disponíveis no site do Ministério da Saúde russo. A AFP não encontrou registro de que a vacinação de adolescentes tenha sido iniciada no país e posteriormente suspensa.

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