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A Universidade de Almería não endossou um estudo sobre presença de grafeno nas vacinas

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Publicações em redes sociais e sites, compartilhadas mais de 80 vezes desde pelo menos julho de 2021, afirmam que um estudo da Universidade de Almería, na Espanha, teria detectado a presença de óxido de grafeno e grafeno nas vacinas contra o novo coronavírus. No entanto, especialistas ouvidos pela AFP dizem que não há evidências da presença dessas substâncias nos imunizantes. Além disso, a universidade não corrobora o documento, que também não foi revisado por pares.

“Pesquisadores da Universidade de Almeria, na Espanha, relataram a descoberta de que a vacina covid-19 da Pfizer contém principalmente grafeno. Segue o documento com o resultado das pesquisas e experimentos. Todas as vacinas são fabricadas com a mesma nanotecnologia”, diz uma publicação no Twitter. O conteúdo circulou também no Facebook (1, 2, 3). Algumas das publicações sugerem também que o elemento tornaria algumas pessoas magnéticas.

Alegações similares foram publicadas também em espanhol, francês, alemão e holandês.

Captura de tela feita em 3 de setembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

Estudo não revisado por pares

As publicações se referem a um estudo espanhol publicado por Pablo Campra, doutor em ciências químicas, ao final de junho de 2021, sem o respaldo de outros cientistas. No documento, Campra examina uma amostra da vacina da Pfizer, chamada Comirnaty, com um microscópio óptico e um microscópio eletrônico de transmissão, e conclui que a observação “não permite descartar a presença de grafeno na amostra”.

O texto de Campra afirma que a investigação foi solicitada por Ricardo Delgado Martín, fundador de um grupo crítico e cético sobre o coronavírus e as vacinas, e autor de afirmações que já foram verificadas em espanhol pela AFP sobre máscaras e testes PCR, e também sobre presença de grafeno em imunizantes.

O que é grafeno?

O grafeno é um nanomaterial à base de carbono, com propriedades antibacterianas e antivirais. Entre outras possibilidades, ainda em exploração, é flexível, eletricamente condutivo, leve, resistente e é considerado o material mais fino do mundo, o que o torna objeto de pesquisas. O material foi isolado pela primeira vez em 2004.

Um exemplo do interesse gerado pelo grafeno é a Graphene Flagship, uma iniciativa financiada pela Comissão Europeia que reúne “cerca de 170 parceiros acadêmicos e industriais de 22 países”.

Maurizio Prato, responsável pelas áreas de saúde e meio ambiente na plataforma, explicou à AFP: "Existem muitos tipos de grafeno. O grafeno que todos conhecem é uma camada de átomos de carbono com excelentes propriedades para eletrônica, fotônica e muito mais".

O pesquisador Diego Peña, do Centro de Pesquisa Singular para Química Biológica e Materiais Moleculares (CiQUS) da Espanha, explicou à AFP que “o grafeno não é solúvel, portanto, um dispositivo de grafeno não pode ser injetado em solução". E acrescentou: "Se houvesse grafeno, as vacinas seriam soluções de cor escura”.

Ele converge com Matthew Diasio, autor de uma tese de doutorado sobre a decomposição do grafite em grafeno em diferentes líquidos. Ele abordou o grafeno neste fio do Twitter.

Já em relação ao óxido de grafeno, Yoni Hillen, do Conselho de Avaliação de Medicamentos da Holanda (CBG-MEB), disse à AFP que se trata de uma substância diferente. “O óxido de grafeno é um derivado do grafeno e é uma forma mais solúvel. Atualmente, a aplicação do óxido de grafeno na medicina está sendo investigada com diversos objetivos”.

Prato, da Graphene Flagship, também destacou que se trata de algo diferente: “O óxido de grafeno é uma substância distinta, que pode ter até 50-60% de oxigênio. A presença de átomos de oxigênio leva a uma estrutura muito diferente do grafeno, que tem sido usado em baterias, sensores, tinta, entre outras coisas".

Estudo provisório

O texto assinado por Campra, no qual se baseiam as falsas alegações, também não é conclusivo. Ele foi publicado pelo próprio médico, e não em uma revista científica, o que significa que não foi verificado ou endossado por outros cientistas na chamadarevisão por pares.

Em sua análise, Campra investigou a presença de grafeno e óxido de grafeno usando um microscópio óptico e um microscópio eletrônico de transmissão (MET), para posteriormente comparar as imagens com outras da literatura científica, conforme mostrado a seguir:

Captura de tela da página 12 do estudo de Campra, realizada em 20 de julho de 2021 ( . / )



Nas conclusões de seu estudo (página 22), Campra afirma que o material “fornece evidências sólidas da provável presença de derivados de grafeno, embora a microscopia não forneça provas conclusivas”.

À equipe de verificação da AFP Campra afirmou: “Nossa descoberta é que 99% da absorção de UV não vem do RNA, e o sinal é compatível com grafeno, mas muitas outras substâncias mostram o mesmo sinal. Encontramos evidências microscópicas de partículas de grafeno, mas mais testes espectroscópicos são necessários para confirmar essa estrutura".

O departamento científico da Graphenano, empresa dedicada à fabricação de grafeno na Espanha, destacou à AFP que “as conclusões do estudo de Pablo Campra baseiam-se em evidências muito fracas (...). Os autores usam ‘sugerir’, ‘parecer’ porque estão cientes das limitações de seus resultados”.

A professora Ester Vázquez, especialista em segurança e saúde da Graphene Flagship e pesquisadora da Universidade de Castilla-La Mancha, na Espanha, definiu o estudo como "bastante inconclusivo", em declarações à AFP após a leitura do texto científico. "O próprio autor reconhece que não há evidências suficientes para apoiar as alegações de que as vacinas contêm grafeno, mas essa parte nunca é citada nas histórias e vídeos sobre isso".

Vázquez também explicou que o microscópio não é o método apropriado para avaliar a presença de grafeno ou de óxido de grafeno. “Os testes realizados são insuficientes para identificar o grafeno, eles mostram apenas algumas imagens microscópicas que se parecem com imagens de grafeno e óxido de grafeno na literatura [científica]. De qualquer forma, isso está longe de ser uma comprovação científica, a identificação do grafeno exigiria uma análise que vai além, usando outras técnicas”.

Pablo Campra admite no texto viral (página 23): “Os resultados e conclusões deste relatório não implicam nenhuma posição institucional da Universidade de Almería”.

Em 2 de julho, a universidade negou pelo Twitter qualquer colaboração com o estudo, em resposta à “falsa informação divulgada em algumas redes sociais e blogs sobre um relatório provisório de um professor da Universidade de Almería, que parece questionar vacinas contra a covid -19”.

No Brasil, o conteúdo foi checado pela Agência Lupa e pelo Fato ou Fake.

Composição da vacina

Meses antes da aprovação das primeiras vacinas contra o coronavírus, já haviam surgido teorias sobre possíveis “ingredientes” suspeitos ou secretos dos imunizantes. Mas os componentes das vacinas não são secretos: no Brasil, os da Pfizer, AstraZeneca, CoronaVac ou Janssen, por exemplo, foram publicados pela Anvisa. Dervila Keane, porta-voz da Pfizer, ressaltou à AFP: “O óxido de grafeno não é utilizado na fabricação da vacina Pfizer-BioNTech Covid-19”.

Em outra verificação, sobre os supostos efeitos magnéticos dos imunizantes, Thomas Hope, pesquisador de vacinas e professor de Biologia Celular e do Desenvolvimento na Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, disse à AFP: “Não há nada nas vacinas com o que um ímã possa interagir; há proteínas, lipídios, sais, água e substâncias químicas que mantêm o pH. Isso é basicamente tudo”.

Saúde e óxido de grafeno

Até o momento, “não existem indícios” da presença de grafeno ou de óxido de grafeno em nenhuma das vacinas utilizadas na Europa, segundo Yoni Hillen, do CBG-MEB.

O vice-decano da Faculdade de Ciências Químicas de Córdoba, na Argentina, Marcelo Mariscal, explicou à AFP em junho: “Só há alguns relatos na bibliografia onde foi utilizado óxido de grafeno (um material muito diferente do grafeno) como potencial adjuvante nas vacinas. Os adjuvantes são usados para melhorar a imunogenicidade ou capacidade para desencadear uma resposta imunológica. Tratam-se de estudos modelo em fases de ciência básica, os quais encontram-se ainda longe de uma aplicação”.

O grafeno foi utilizado em algumas máscaras por suas propriedades antibacterianas e antivirais. No entanto, os efeitos para a saúde ainda não são conclusivos. Existe preocupação, por exemplo, com a possibilidade de o material “fibroso” poder danificar os pulmões quando inalado, algo que investigam estudos científicos. Na Espanha, França e Canadá, foram retiradas as máscaras FFP2 porque continham grafeno, ainda que o Canadá tenha revogado a decisão porque as autoridades sanitárias “não encontraram riscos para a saúde preocupantes”.

Em 2 de abril de 2021, o Ministério da Saúde do Canadá havia publicado uma avaliação preliminar na qual “identificou que as partículas de grafeno tinham potencial para causar toxicidade pulmonar precoce em animais”. “O risco para a saúde das pessoas de qualquer idade não está claro”, indicava o texto. A AFP verificou alegações de que essas máscaras seriam cancerígenas.

Passageiros no metrô de Viena com máscaras, em 25 de janeiro de 2021 (AFP / Alex Halada) ( AFP / ALEX HALADA)

Os benefícios para a saúde no uso de materiais baseados em grafeno ainda não são bem conhecidos, segundo os cientistas consultados pela AFP. Maurizio Prato explicou que na iniciativa de pesquisa científica Graphene Flagship“vários grupos de especialistas estudando os efeitos de todos esses produtos (grafeno, óxido de grafeno e outros) sobre a saúde humana e o meio ambiente”. A página da iniciativa indica que “estudos iniciais sugerem que o grafeno é seguro para uma exposição ocupacional a longo prazo, mas se deve evitar a inalação do óxido de grafeno, dependendo do tamanho das partículas”.

O vice-diretor de Saúde e Meio Ambiente da Graphene Flagship, Alberto Bianco, assinalou: “A evidência nos mostra que o grafeno e o óxido de grafeno são biodegradáveis e podem ser eliminados do corpo. De todo modo, estão sendo realizados mais estudos para avaliar se os fragmentos da decomposição podem ter efeitos não desejados”.

O grafeno não é magnético por si

O departamento científico da Graphenano destacou que os lápis “contêm grafite”, elemento muito semelhante ao grafeno, “e não são magnéticos”.

O pesquisador Diego Peña, que estuda o potencial magnético do nanomaterial, descartou que o grafeno possa gerar magnetismo com uma vacina: “Ele é magnético somente em condições laboratoriais muito específicas (ultra-alto vácuo e padrão-ouro). É muito instável, motivo pelo qual perde as suas propriedades magnéticas em condições ambientais”. Ele acrescentou que o magnetismo "se perderia assim que tentássemos dissolvê-lo" em uma vacina.

Por sua vez, Mariscal, vice-decano da Faculdade de Ciências Químicas de Córdoba, na Argentina, observou que é impossível ao grafeno atrair metais por meio de um fenômeno de magnetização. “As propriedades magnéticas não existem naturalmente no grafeno”, disse. “O grafeno não poderia gerar esse fenômeno devido à pequena quantidade de material. É preciso lembrar que é um material com a espessura de apenas uma lâmina de átomos”.

A AFP já verificou como falsas, em outras ocasiões, declarações sobre o grafeno e sua suposta capacidade magnética, sobre sua relação com o vírus SARS-CoV-2 causador do covid-19, e com as vacinas e os vacinados contra o coronavírus.

*Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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