Não é possível afirmar que a ivermectina teria salvado 500 mil pessoas da morte por covid-19

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A “ivermectina poderia ter salvo meio milhão de vidas”, indicam publicações nas redes sociais que somam mais de 16 mil compartilhamentos desde o último 31 de maio. Essa afirmação foi feita pelo médico norte-americano Pierre Kory, presidente da Front Line Covid-19 Critical Care Alliance, em uma videoconferência da organização publicada em 16 de maio de 2021. Na ocasião, ele mencionou o México e a Índia como supostos exemplos de sucesso na aplicação do remédio. No entanto, especialistas explicaram à AFP que a afirmação de Kory carece de fundamento científico: até agora não há dados suficientes que comprovem a eficácia do uso do antiparasitário para o tratamento ou a prevenção do novo coronavírus.

“O Dr. Pierre Kory, um proeminente médico e cientista norte-americano integrante da Front Line Covid-19 Critical Care Alliance denunciou que a supressão do uso de ivermectina pela Organização Mundial da Saúde para o tratamento de covid causou a perda de cerca de cerca de meio milhão de vidas. (...) ‘É literalmente criminoso. A droga poderia ter salvado meio milhão de vidas este ano se tivesse sido aprovada’.”, diz uma das publicações, compartilhadas no Facebook (1, 2), no Instagram (1, 2), no Twitter (1, 2) e em sites (1, 2).

A afirmação também circulou em espanhol (1, 2, 3), em francês (1, 2) e em inglês.

Captura de tela feita em 10 de agosto de 2021 de uma publicação no Facebook

As publicações têm como base textos publicados pelos sites Terra Brasil Notícias, em 31 de maio, e Aliados Brasil, em 1º de junho, que trazem informações originalmente noticiadas pelo portal norte-americano World Tribune em 26 de maio de 2021.

O texto original em inglês trata de afirmações feitas pelo médico Pierre Kory em uma videoconferência no mesmo mês de maio, sobre o uso da ivermectina para tratamento e prevenção da covid-19.

Aos 37 minutos do vídeo, o médico ⎼ sem citar dados ⎼ diz: “A OMS, basicamente, cometeu uma ação criminosa”, referindo-se ao fato de a Organização Mundial da Saúde não recomendar o uso do medicamento contra o novo coronavírus. Posteriormente, ele indica que a droga “poderia ter salvado meio milhão de vidas este ano se tivesse sido aprovada”.

Kory é presidente da Front Line Covid-19 Critical Care Alliance (FLCCC), uma organização sem fins lucrativos composta por especialistas em cuidados intensivos, segundo a descrição contida em seu site, “dedicada ao desenvolvimento de protocolos de tratamento altamente eficazes para prevenir a transmissão da covid-19 e melhorar os resultados para pacientes com a doença”. Ele é também o coordenador de uma revisão científica de diversos estudos sobre a ivermectina realizados ao redor do mundo.

A ivermectina é um medicamento barato para uso veterinário e humano contra parasitas como a sarna, a oncocercose e os piolhos. Em abril de 2020 um estudo concluiu que esse antiparasitário inibiu a replicação do vírus da covid-19 in vitro, ou seja, em laboratório, não em um organismo vivo. Desde então não houve análises que confirmassem a eficácia do medicamento em humanos.

“Nenhum dado científico até o momento comprova a eficácia da ivermectina contra a covid-19”, destacou Gustavo Trossini, pesquisador e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP).

Sobre o trabalho publicado por Kory, ele disse que “é uma metanálise que juntou resultados de 30 trabalhos, sendo que nenhum deles sugere o número [meio milhão] citado na publicação”.

Para Sandra Farsky, chefe do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e presidente da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas, é igualmente inviável afirmar que a ivermectina teria salvado 500 mil vidas.

“A publicação dele é uma revisão. Ele afirma categoricamente, mas os trabalhos que estão publicados na literatura com ivermectina tiveram início com os estudos in vitro em células de laboratório, mas os estudos in vitro não representam o que pode acontecer in vivo, quer seja de animais de experimentação, quer seja no tratamento”, explicou à AFP.

Ponderação semelhante foi feita por Marcelo Molento, doutor em Parasitologia, professor associado da Universidade Federal do Paraná e coordenador do Laboratório de Parasitologia Clínica Veterinária: “Ele não traz dados dele, traz uma revisão sistemática, e não é uma revisão sistemática onde todos os resultados estão computados”.

Sem eficácia comprovada contra a covid-19

Desde o início da pandemia da covid-19 circulam rumores sobre a suposta eficácia da ivermectina na prevenção e no tratamento da doença causada pelo novo coronavírus, alguns deles já verificados (1, 2, 3) pela AFP.

Por conta da falta de dados que comprovem a sua eficácia contra a covid-19, a OMS mantém seu posicionamento desde março de 2021, desaconselhando o uso da ivermectina e recomendando “utilizar este medicamento apenas em ensaios clínicos”.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta o uso da ivermectina de acordo com as indicações “constantes da bula do medicamento”, que não incluem a covid-19.

Também em março de 2021, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) informou ter analisado as informações mais recentes sobre o uso da ivermectina no tratamento e prevenção do novo coronavírus, mas “concluiu que os dados disponíveis não respaldam a sua utilização para a covid-19 fora de ensaios clínicos bem concebidos”.

Profissional da saúde segura embalagem de ivermectina em Cali, na Colômbia, em 21 de julho de 2020 ( AFP / Luis Robayo)

A Agência de Medicamentos e Alimentos (FDA) dos Estados Unidos reafirmou em maio de 2021 - e reiterou em agosto - que o medicamento não é indicado para combater vírus e que “não aprovou a ivermectina para uso em tratamento ou prevenção da covid-19 em humanos”. A agência ainda alerta que doses excessivas do antiparasitário podem ser perigosas e causar sérios danos à saúde.

Segundo Farsky, os estudos realizados a partir de 2020 com o medicamento contam com uma amostra pequena de pacientes e, por isso, “não refletem o que acontece na verdade, porque os seres humanos são extremamente complexos”. A especialista ainda explicou que é necessário um número grande de pessoas “para chegar a alguma conclusão, e isso não foi feito com a ivermectina. Então os resultados ainda não trazem uma certeza”.

Molento acrescentou que alguns médicos alegam que “não existe comprovação de que não faz efeito, então não existe uma comprovação que ivermectina faça mal”. Mas, argumentou ele, estão sendo observados “casos de hepatite medicamentosa e intoxicações hospitalares agudas, hepáticas, pulmonares, digestivas e de sistema nervoso central” por conta do uso da ivermectina. “Esse medicamento não deveria ser prescrito nem recomendado como paliativo para a covid-19”, ressaltou.

Em fevereiro de 2021, o Conselho Federal de Farmácia publicou um texto sobre o aumento de vendas de medicamentos no contexto da pandemia de covid-19, ainda que esses fármacos não tivessem eficácia comprovada. No caso da ivermectina, o crescimento foi de 557,26%.

No último 11 de agosto, Jailton Batista, diretor-executivo da farmacêutica Vitamedic, fabricante de ivermectina, prestou depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura a gestão da pandemia por parte do governo federal brasileiro. Batista foi questionado sobre as vendas do medicamento. Durante a sessão, indagado sobre se a farmacêutica teria conduzido estudos para avaliar a eficácia da ivermectina contra a covid-19, admitiu: “Não (...), ainda não produzimos”.

O que dizem os governos citados

Em sua apresentação, Pierre Kory citou o México e a Índia como exemplos de países que, segundo ele, teriam reduzido o número de casos e intervenções hospitalares a partir do uso da ivermectina.

Ele alega que no México foi adotada uma estratégia de testagem em massa e distribuição de ivermectina para pacientes positivos. Essa distribuição, entretanto, não foi feita em todo o país, e sim na capital, Cidade do México.

O governo mexicano, por sua vez, recomenda que “se evite o uso de medicamentos anti-covid-19 sem comprovação científica sobre segurança e eficácia” e cita especificamente a ivermectina.

Já na Índia, como apontou Kory, o medicamento passou a ser recomendado pelo Ministério da Saúde e Bem-Estar Familiar em 28 de abril de 2021 para o tratamento de pacientes assintomáticos ou com sintomas leves.

Dois meses depois, em 28 de junho de 2021, o secretário de Saúde do país, Rajesh Bhushan, enviou uma carta aos estados, orientando sobre o controle da pandemia, e atribuiu a diminuição de casos e mortes às medidas de contenção adotadas: “Como resultado, a curva da pandemia de covid-19 no país está apresentando atualmente um declínio constante”.

O cientista de dados e coordenador da Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt, explicou ao Checamos, em julho de 2021, que a restrição na circulação pode ter causado, efetivamente, a queda no número de casos e de mortes na Índia. O comportamento das pessoas com o colapso do sistema de saúde passou a ser mais cuidadoso e de maior distanciamento.

Pessoas caminham em um mercado em Siliguri, na Índia, em 3 de junho de 2021 ( AFP / Diptendu Dutta)

Além dos Estados citados por Kory, o texto do site Aliados Brasil menciona um terceiro país com supostos resultados positivos: o Equador.

De acordo com o artigo, o país sul-americano “também obteve resultados positivos” com o uso da ivermectina e menciona uma reportagem do portal El Universo. No texto há uma metanálise feita pela FLCCC cuja conclusão é de que a ivermectina demonstra um “forte sinal de eficácia terapêutica” e em que se recomenda a adoção do medicamento globalmente como profilaxia e tratamento da covid-19.

O Ministério da Saúde Pública do Equador, contudo, publicou um documento com indicações para o tratamento hospitalar da covid-19 em que especificou que “não se recomenda o uso da ivermectina para o tratamento da infecção pelo SARS‐CoV‐2 em nenhuma de suas fases por não existir evidência metodologicamente comprovada que justifique seu uso em seres humanos para essa enfermidade”.

No mesmo sentido, a Agência Nacional de Regulação, Controle e Vigilância Sanitária do país definiu que os “estabelecimentos farmacêuticos devem solicitar a receita médica OBRIGATÓRIA para a venda ao público de medicamentos que contenham IVERMECTINA”.

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