Uma pessoa é vacinada contra a covid-19 em uma rua de São Paulo, em 30 de março de 2021 ( AFP / Miguel SCHINCARIOL)

A baixa de óbitos por covid no Brasil, Uruguai e Argentina se deve à vacinação, dizem especialistas

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Publicações que afirmam que a diminuição do número de mortes por covid-19 no Brasil, na Argentina e no Uruguai teria relação com o “ciclo natural” do vírus e não com a vacinação, foram compartilhadas mais de 800 vezes nas redes sociais desde 7 de julho de 2021. Dados e especialistas consultados pela AFP, porém, indicam que a vacinação é uma das principais responsáveis pela diminuição de óbitos desde junho. No mesmo sentido, cientistas explicaram que somente a imunidade coletiva gerada pela infecção natural do coronavírus não é capaz de controlar a pandemia.

“Então as mortes finalmente caíram no Brasil, com a pandemia arrefecendo? E isso de forma parecida no Uruguai, ou seja, sem muita ligação com a taxa de vacinação? O vírus segue um ciclo natural? E é por isso que a oposição só fala agora de ‘corrupção’, mesmo sem saída de recursos?”, diz uma das publicações no Twitter, compartilhada também no Facebook.

Captura de tela feita em 8 de julho de 2021 de uma publicação no Twitter

“Ciclo natural” do vírus?

A imunidade coletiva ou de rebanho é atingida quando uma parcela da população está imune à doença, de modo que restam poucas possibilidades de o vírus circular e ser transmitido. Logo depois de um paciente se recuperar da doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, ele pode adquirir uma imunidade natural, por conta dos anticorpos produzidos durante o período de infecção.

No entanto, uma contaminação generalizada da população para conseguir a imunidade de rebanho não é reconhecida como uma estratégia eficaz de combate à pandemia de covid-19, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com a entidade, a imunidade coletiva deve ser alcançada “pela vacinação, e não por permitir que a doença se espalhe entre qualquer segmento da população, uma vez que isso resultaria em casos e mortes desnecessários”.

Tedros Adhanom, diretor da OMS, afirmou em uma coletiva de imprensa em outubro de 2020 que “nunca na história da saúde pública a imunidade coletiva [por infecção natural] foi usada como estratégia para responder a um surto, muito menos a uma pandemia. É científico e eticamente problemático”.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, em uma coletiva de imprensa, na sede da OMS em Genebra, em 11 de março de 2020 ( AFP / Fabrice COFFRINI)

A professora Akiko Iwasaki, especialista em imunidade da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, disse à AFP em outubro que “as reinfecções mostram que não podemos confiar na imunidade adquirida mediante a infecção natural para alcançar a imunidade coletiva”.

Por essa razão “a imunidade coletiva deve ser baseada em vacinas seguras e eficazes”, concluiu. Esse tema também foi verificado em dezembro de 2020 (1, 2) pela equipe de checagem da AFP.

Além disso, a doutora em imunologia María Moreno, do Departamento de Desenvolvimento Biotecnológico da Universidade da República do Uruguai, afirmou à AFP em abril de 2021 que, para alcançar a imunidade coletiva de maneira natural, “70 ou 80% de nós deveríamos contrair o coronavírus de forma assintomática ou sintomática”.

Ela também esclareceu que os números da soroprevalência, ou seja, o percentual de pessoas com imunidade, pode variar muito entre os países.

Os dados do Brasil

As publicações que circulam nas redes sociais usam como referência um gráfico do projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford, que indica o número de mortes por milhão de habitantes, de acordo com a média móvel dos últimos sete dias, no período de 2 de março de 2020 a 6 de julho de 2021.

De acordo com os dados do projeto, o Brasil atingiu um pico de mortes em 12 abril, com mais de 3 mil óbitos. Desde então, o número esteve em queda, mas houve um novo aumento em junho, quando atingiu, no dia 19, a marca de 2.075 mortes. Em 11 de julho, o número era de 1.295 e seguia em queda.

A tendência de queda, segundo divulgou a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em seu Boletim Observatório Covid-19 de 30 de junho de 2021, pode ser atribuída à vacinação.

“A diferenciação entre as tendências de incidência de casos novos e da mortalidade pode ser reflexo da campanha de vacinação, que atualmente atinge uma grande parcela da população idosa e grupos de maior risco ou mais expostos, como portadores de doenças crônicas e profissionais de saúde, transporte e segurança”, assinalou a instituição.

Ainda segundo o boletim, “foi verificada uma pequena redução da taxa de letalidade, dada pela proporção de casos que resultaram em óbitos por Covid-19, que apresenta valor atual de 2,4 %”. Em 25 de junho, essa taxa correspondia a 2,8%.

Um homem é vacinado contra a covid-19 em Moju, no Pará, em 16 de abril de 2021 ( AFP / Joao Paulo Guimaraes)

Para Mellanie Fontes-Dutra, neurocientista, biomédica e coordenadora da Rede Análise Covid-19, “é bastante claro que a vacinação tem impactado, principalmente no Brasil. De junho a abril, a taxa de mortalidade em idosos caiu, justamente o grupo que foi prioritário na vacinação. Atingimos já uma boa porcentagem dessa faixa etária imunizada”. A rede é formada por pesquisadores voluntários que coletam dados sobre a pandemia do novo coronavírus.

Segundo os números do Our World in Data, até 11 de julho, 40,83% da população brasileira já havia tomado uma dose da vacina contra a covid-19, e 14,37% estava completamente vacinada. Segundo os dados do Ministério da Saúde, 39,37% da população havia tomado a primeira dose até 12 de julho e 14,35% estava completamente imunizada, considerando uma população brasileira de cerca de 213 milhões de habitantes.

Imunização acelerada

O número de mortes no Uruguai também começou a diminuir quando uma maior parcela da população foi vacinada.

O país se manteve por várias semanas de abril e maio no topo do ranking de óbitos, com um alto número de mortes diárias, atingindo o recorde de 79 óbitos em 15 de abril.

Isaac Schrarstzhaupt, cientista de dados e coordenador da Rede Análise Covid-19, explicou ao AFP Checamos por que o Uruguai enfrentou na época uma alta no número de óbitos, apesar de ter uma campanha de vacinação em andamento desde o dia 1 de março: “A mobilidade no Uruguai aumentou bastante de janeiro de 2021 em diante. E o aumento de mobilidade significa mais pessoas ativas em possível contato com pessoas suscetíveis. (...) Aí, enquanto o Uruguai aumentava a vacinação, colhia os óbitos do período anterior”.

“Como primeiro efeito da vacinação, observou-se uma queda drástica na admissão de pessoas totalmente vacinadas nas UTIs. E isso agora está se refletindo em uma queda no número de mortes”, acrescentou María Moreno ao AFP Checamos.

A demora para ser observado o impacto da vacinação no número de mortes ocorre, segundo Moreno, porque a imunidade completa contra o vírus é adquirida em até duas semanas após tomar a segunda dose da vacina. “No Uruguai os grupos de maior risco (maiores de 80 anos) começaram a se vacinar no final de março, portanto, o impacto sobre essa população que ingressa na UTI só pôde ser observado a partir de meados de maio”.

A doutora em imunologia também explicou que o grupo com idade entre 70 e 80 anos começou a ser imunizado em meados de abril, então somente em meados de junho estava completamente imunizado. “Portanto, embora estejamos experimentando uma queda de internações em UTI desde meados de junho, só agora estamos vendo uma queda significativa nas mortes”, afirmou.

As mortes em decorrência do novo coronavírus, de acordo com a média móvel dos últimos sete dias, passaram de 60,29 no dia 9 de junho de 2021 para 18 em 11 de julho.

“Esses efeitos presentes têm influência da vacinação. Especialmente no caso do Uruguai, que já está em um nível mais avançado do que a Argentina e o próprio Brasil”, disse Fontes-Dutra ao AFP Checamos.

Segundo os números do Our World in Data, até 11 de julho, 67,79% da população uruguaia já havia tomado uma dose da vacina contra a covid-19 e 55,25% estava completamente vacinada. De acordo com o Ministério da Saúde do Uruguai, até 12 de julho 66,95% da população havia tomado uma e 54,65% havia tomado as duas doses.

Desde o início da pandemia, o governo uruguaio não implementou medidas de isolamento social da população. E “há alguns meses vem possibilitando atividades, apesar da situação epidemiológica. Por esse motivo, a queda de casos não pode ser explicada de outra forma que não seja a vacinação. E as poucas admissões em UTI de pessoas totalmente imunizadas é a evidência”, afirmou María Moreno.

Novas restrições

Na Argentina, tem se aplicado medidas restritivas além da campanha de vacinação, iniciada em 29 de dezembro de 2020.

Por conta da segunda onda da pandemia enfrentada pelo país, o presidente, Alberto Fernández, anunciou restrições em 14 de abril para a capital Buenos Aires e região metropolitana. Em maio de 2021, a Argentina registrou recordes de registros de covid-19, atingindo mais de 41 mil casos no dia 27 do mesmo mês.

Em 9 junho de 2021, com cerca de 29 mil novos casos, a ministra da Saúde do país, Carla Vizzotti, afirmou que a diminuição naquele mês se explicou pelas medidas que foram tomadas. "Mas estamos em um patamar ainda muito elevado e, à medida que se aproxima o inverno, estamos preocupados com a situação”, completou. Por conta dos resultados obtidos, a capital diminuiu as restrições no dia 14 de junho.

Desde o dia 11 de junho, quando a Argentina atingiu a marca de 602 mortes diárias, o país tem assistido a uma queda na taxa de óbitos por covid-19. Em 11 de julho, o número foi de 411, com base na média móvel dos últimos sete dias:

Além das medidas sanitárias, o país tem avançado na vacinação, embora o ritmo ainda esteja lento. Até o dia 11 de julho, a Argentina registrava 43,35% da população vacinada com uma dose e 11,11% com a segunda dose. De acordo com os dados do Ministério da Saúde do país, 43,27% haviam tomado uma dose e 11% estava completamente imunizada, considerando uma população de cerca de 45 milhões.

30 de julho de 2021 Corrige a informação sobre o número de mortes no Uruguai em 15 de abril.
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