Funcionário checa temperatura de visitante em casino em Macau, na China, durante epidemia de coronavírus, em 22 de janeiro de 2020 (AFP / Anthony Wallace)

Médicos não recomendam chá de erva-doce para combater o novo coronavírus

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Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais afirmam que médicos recomendam o consumo de chá de erva-doce para combater o novo coronavírus, identificado na China no final de 2019. A indicação se deve, segundo as postagens, ao fato da infusão possuir a mesma substância do remédio Tamiflu. Especialistas negam, no entanto, essa relação entre a erva-doce e o medicamento, que, por sua vez, não é indicado para o tratamento do coronavírus.

As publicações circulam amplamente no Facebook (1, 2, 3) e no Twitter (1, 2, 3), ao menos desde 23 de janeiro deste ano. Algumas fazem referência direta ao coronavírus, enquanto outras mencionam “a nova gripe que vai matar muita gente”.

Captura de tela feita em 30 de janeiro de 2020 mostra mensagem publicada no Facebook

Em comum, os textos afirmam que o diretor de uma instituição identificada apenas como “Hospital das Clínicas” recomenda, para prevenir contaminação pelo coronavírus, “tomar chá de erva-doce duas vezes por dia”.

“Esta erva tem a mesma substância que o medicamento Tamiflu, o remédio usado para tratar a gripe A - H1N1. E aconselha-se tomar o chá como se fosse café, após as refeições”, diz a mensagem viralizada. 

O texto continua dizendo que um infectologista do Hospital São Domingos também recomenda tomar o chá de 12 em 12 horas, “pois ele mata o vírus da influenza”.

O Ministério da Saúde desmentiu, no entanto, a alegação de que o chá de erva-doce tenha a mesma substância do Tamiflu, indicado para tratar casos de síndrome respiratória aguda grave e de síndrome gripal. 

“As orientações de que o chá de erva-doce tem a mesma substância do medicamento Tamiflu são falsas! O chá de erva-doce não possui o princípio ativo do Tamiflu (fosfato de oseltamivir)”, afirmou a pasta em seu site.

A informação foi reiterada pela farmacêutica Roche, responsável pelo desenvolvimento do Tamiflu, em nota enviada à AFP.

“O medicamento Tamiflu, desenvolvido pela Roche, é composto por fosfato de oseltamivir (...) além de alguns excipientes, que são substâncias que complementam a massa ou volume nos medicamentos produtos farmacêuticos. Deste modo, não há, na composição de Tamiflu, o anis estrelado ou a erva doce”.

A alegação também foi negada, em nota, pelo Hospital São Domingos, de São Luís (MA), citado na mensagem viralizada.

Além disso, não é verdade que o Tamiflu seja recomendado para tratar o coronavírus, como explica a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Segundo a SBI, o remédio é indicado somente para o tratamento e prevenção do vírus Influenza.

Captura de tela feita em 30 de janeiro de 2020 mostra recomendações da Sociedade Brasileira de Infectologia para o novo coronavírus

À equipe de checagem da AFP, a Roche reforçou que o Tamiflu é indicado para “o tratamento e profilaxia da gripe”.

Por ter sido descoberto recentemente, ainda não há vacina ou medicamento específico para o novo coronavírus, conhecido também como 2019-nCoV. Segundo a SBI, indica-se repouso e ingestão de líquidos, “além de medidas para aliviar os sintomas, como analgésicos e antitérmicos”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reitera que ainda não há um tratamento para a doença causada por esse coronavírus e recomenda, como precaução, manter a higiene das mãos, práticas alimentares seguras e evitar contato próximo com qualquer pessoa que mostre sintomas como tosse e espirros.

A associação entre a erva-doce - conhecida popularmente no Brasil como anis - e o Tamiflu pode ter origem no fato do anis estrelado chinês possuir um ácido que é utilizado na produção do oseltamivir, o princípio ativo do remédio, como explica o Conselho Regional de Farmácia do Estado do Paraná.

O CRF-PR esclarece, no entanto, que apenas o ácido do anis estrelado não tem o mesmo efeito do medicamento, uma vez que são necessárias várias reações químicas complexas para transformá-lo em oseltamivir. A erva-doce não é, ainda, botanicamente relacionada ao anis estrelado chinês.

Gráfico da AFP mostra a evolução diária da quantidade de infectados pelo novo coronavírus na China e pelo mundo

Detectado na China no final do ano passado, a nova variedade do coronavírus já deixou mais de 200 mortos e cerca de 10.000 pessoas infectadas. Desde então, a região chinesa de Hubei, epicentro da epidemia, foi isolada e a OMS declarou emergência internacional. Atualmente, o Brasil possui nove casos suspeitos de contaminação. 

Em resumo, é falso que médicos recomendem o consumo de chá de erva-doce para combater o coronavírus porque a bebida possui a mesma substância do remédio Tamiflu. Segundo especialistas, além da erva-doce não conter o princípio ativo do medicamento, este não é indicado para tratamento do novo coronavírus.

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