A frase sobre “o pior da peste” não faz parte da obra de Albert Camus, nem foi escrita por ele

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Em um momento em que a população mundial está confinada e enfrentando a pandemia do novo coronavírus, começou a circular nas redes sociais uma imagem com uma frase atribuída a Albert Camus: “O pior da peste não é que mata os corpos, mas que desnuda as almas, e esse espetáculo costuma ser horroroso”. Essas palavras, contudo, não estão no livro “A peste”, do escritor francês, e especialistas consultados pela AFP asseguram que o autor não escreveu este trecho.

No Facebook (1, 2) e no Twitter (1, 2, 3) são várias as publicações que assinalam que a frase é um fragmento do livro “A peste”. Também circulam outras postagens com a mesma frase tanto no Facebook (1, 2, 3, 4), quanto no Twitter (1, 2), compartilhadas mais de 4,6 mil vezes desde o início de abril deste ano, que não mencionam diretamente esta obra específica, mas atribuem-na a Camus.

Em espanhol (1, 2), a frase também viralizou como se fosse de Albert Camus e, por vezes, tivesse sido retirada de sua obra (1, 2) “A peste”.

O romance “A peste”, publicado em 1947, é ambientando em meados do século XX e seus protagonistas vivem em uma cidade que sofre um surto de peste bubônica. Entretanto, a busca pelo trecho viralizado no livro de Camus, disponível no site de armazenamento de arquivos na Internet archive.org, neste caso em espanhol, não fornece nenhum resultado. Tampouco ele aparece em outras versões digitalizadas da obra, em português (1, 2, 3).

Captura de tela feita em 7 de maio de 2020 de publicação no Facebook

Uma busca pelos termos separados como “as almas” e “o pior da peste” nas versões digitais também não encontram esta frase, ou alguma similar.

Uma pesquisa desta citação completa no Google, limitando os resultados a publicações anteriores ao mês de abril, quando apareceram as primeiras postagens em português, igualmente não mostra nenhum resultado.

Em uma das publicações, a frase viralizada foi acompanhada de uma imagem que, segundo uma busca reversa* no Google Imagens, mostrou que se trata de um retrato de Albert Camus, feita pelo artista britânico Mike Newton.

O que dizem os especialistas? “Contradição”

“Esta citação não é de Camus, nem em ‘A peste’ nem em outro lugar. Contradiz, de fato, uma das últimas frases do romance: ‘[...] o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar’”, assegurou em um e-mail enviado à equipe de checagem da AFP Agnès Spiquel, presidente da Sociedade de Estudos Camusianos e professora emérita de Literatura Francesa na Universidade de Valenciennes. “Aos que se dedicam a divulgar essas falsas citações, creio que devamos mandá-los ler o romance”, acrescentou.

Spiquel descreve “A peste” como “a obra-prima do segundo ciclo dentro da obra de Camus, centrado na revolta, depois do primeiro, centrado no absurdo”. Nela, explica a especialista, Camus continua a sua exploração sobre a condição humana, com “personagens solidários” que “não pensam em dissolver o absurdo, mas lutam juntos contra aquilo que assola o ser humano, inclusive sabendo que essa luta jamais terá fim”.

Na obra de Camus, explica Spiquel, a peste é o nazismo, mas é muito mais do que isso, “é toda forma de opressão criada pelo homem e, também, no coração de cada homem, o consentir a morte do outro”.

O presidente da The Albert Camus Society, Simon Lea, tampouco reconheceu o trecho viral como produto dos escritos do autor francês. “O fragmento [das publicações viralizadas] é desconhecido para mim. Não o reconheço de ‘A peste’ nem de nenhuma outra obra de Camus”, indicou à AFP por e-mail.

Além disso, assinalou que “Camus acreditava que o corpo era, no mínimo, igual à mente na hora de entender o mundo que nos rodeia, por isso, é pouco provável que ele tenha dito que o custo para o espírito, ou alma, seja pior do que para o corpo”.

“A Peste”, juntamente com outras obras sobre epidemias, como as de Alessandro Manzoni, quebraram o recorde de vendas nas últimas semanas na Itália, apesar do fechamento das livrarias.

O Checamos já havia verificado anteriormente publicações que atribuíam de forma equivocada o poema “Não se renda” ao escritor uruguaio Mario Benedetti e um texto sobre isolamento social supostamente escrito no século XIX, mas que, na realidade, datava de 2020 e cujo contexto era a pandemia de COVID-19.

Em resumo, a frase viralizada nas redes sociais não faz parte do livro “A peste”, de Albert Camus, já que não é encontrada em nenhum fragmento da obra, um clássico da literatura francesa. Especialistas nos escritos do autor consultados pela AFP tampouco reconhecem estas palavras como próprias de Camus.

*Uma vez instalada a extensão InVid-WeVerify no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a imagem e o menu que aparece oferece a possibilidade de pesquisa da mesma em vários buscadores.

AFP Argentina
 
Nadia Nasanovsky
AFP Brasil