O poema “Não se renda” não foi escrito pelo uruguaio Mario Benedetti, mas por um autor anônimo

Há pelo menos oito anos circulam na Internet versões do poema “Não se renda” assinalando o escritor Mario Benedetti como seu autor. O texto, contudo, não faz parte da obra do poeta e romancista uruguaio.

“Porque não estão sozinhos, porque eu te amo, por isso te rogo: não se renda, não se renda”, leu, emocionado, o ex-presidente uruguaio Tabaré Vázquez (2005-2010 e 2015-2020) no último 28 de fevereiro durante um ato de despedida, dois dias antes de entregar a faixa presidencial ao seu sucessor, Luis Lacalle Pou.

Embora o político não tenha mencionado em seu discurso quem era o autor do texto, nas redes sociais (1, 2), assim como na imprensa local, este foi atribuído ao famoso poeta e romancista uruguaio Mario Benedetti (1920-2009).

Em uma busca no Google, a equipe de checagem da AFP comprovou que o poema aparece na Internet atribuído a Benedetti ao menos desde 2006. Nas redes sociais e em sites em português, o poema foi compartilhado em forma de texto (1, 2, 3, 4, 5), imagem (1) e vídeo no Facebook, Instagram, Twitter e YouTube ao menos desde 2012, gerando milhares de interações.

Captura de tela feita em 9 de março de 2020 no Facebook

Em espanhol (1, 2), o texto também circulou amplamente nas redes sociais, sendo, inclusive, compartilhado por várias personalidades da arte, do esporte e da política em diferentes países.

No Brasil, o ex-senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque (Cidadania23) publicou em seu Twitter em 5 de março deste ano um elogio ao ex-presidente uruguaio Tabaré Vázquez por citar o suposto poema de Benedetti em sua despedida.

O deputado federal pelo PSOL Marcelo Freixo, por sua vez, postou em seu Instagram em 1º de janeiro de 2020 uma fotografia juntamente com os seguintes dizeres: “Que o poema ‘Não te rendas’, do uruguaio Mario Benedetti, sempre nos inspire! Olhos no horizonte, dias melhores virão!”.

No Uruguai, a ex-ministra e atual candidata à Prefeitura de Montevidéu pela Frente Ampla, Carolina Cosse, publicou um trecho do texto no final de outubro de 2019 em sua conta no Twitter.

Em abril de 2019, a ativista venezuelana Lilián Tintori compartilhou o texto no Instagram parabenizando seu esposo, Leopoldo López, que estava na prisão, pelos seus 45 anos. Em novembro passado, o atual vice-presidente da Espanha, Pablo Iglesias, também atribuiu o poema a Benedetti.

O cantor colombiano J Balvin publicou o poema juntamente com um vídeo em sua conta no Instagram em 2019.

Em 2015, a fundação do atacante argentino Lionel Messi compartilhou no Facebook um trecho do poema, acompanhado de uma fotografia de uma criança cerca por escombros, usando uma camisa da seleção argentina.

Um texto de nenhum livro

Existem 41 livros de poesia editados com a assinatura de Benedetti, 40 deles publicados ao longo de sua vida, e “Biografía para encontrarme”, uma edição póstuma publicada em 2010. Também há “Itinerario” (2012) e “Antología. Poesía y prosa” (2018), duas antologias do autor uruguaio.

O escritor uruguaio Mario Benedetti durante entrevista em sua casa em Montevidéu, em 7 de janeiro de 2007

A professora de Literatura no Uruguai, presidente da Fundação Mario Benedetti e autora do livro “Benedetti, um mito discretíssimo” (em tradução livre), Hortensia Campanella, confirmou à AFP que o poema não pertence à obra do escritor uruguaio.

“A Fundação já fez esclarecimentos há, pelo menos, dois anos, e temos feito sempre que podemos, porque, efetivamente, aparece na Internet com muita proeminência. O primeiro [resultado] que aparece sobre ele costuma ser esse poema”, reconheceu.

A escritora indicou que desconhece o nome do verdadeiro autor do poema. “Não sei qual é a razão de quem o publicou, ao invés de assiná-lo e ter a glória, se é apreciado e divulgado pelo texto em si. Não sei o porquê não assinou com o seu próprio nome”, se questionou.

Ao ser consultada sobre as razões pelas quais se pode considerar que o texto foi escrito por Benedetti, Campanella indicou que, embora entenda que “alguém que conheça bem a obra de Benedetti nunca atribuiria esse texto a ele”, é verdade que “Não se renda” tem pontos em comum com “Não se salve”, poema publicado pela primeira vez no livro “Poemas de otros” (1983), e depois incluído em uma edição ampliada de “Inventario uno” (1985).

A principal coincidência entre os dois poemas é a repetição das frases que lhes dão nome, explicou a presidente da Fundação Benedetti.

No te rindas

No te salves

No te rindas, aún estás a tiempo
de alcanzar y comenzar de nuevo,
aceptar tus sombras, enterrar tus miedos,
liberar el lastre, retomar el vuelo.
 
No te rindas que la vida es eso,
continuar el viaje,
perseguir tus sueños,
destrabar el tiempo,
correr los escombros y destapar el cielo.
 
No te rindas, por favor no cedas,
aunque el frío queme,
aunque el miedo muerda,
aunque el sol se esconda y se calle el viento,
aún hay fuego en tu alma,
aún hay vida en tus sueños,
porque la vida es tuya y tuyo también el deseo,
porque lo has querido y porque te quiero.
 
Porque existe el vino y el amor, es cierto,
porque no hay heridas que no cure el tiempo,
abrir las puertas quitar los cerrojos,
abandonar las murallas que te protegieron.
 
Vivir la vida y aceptar el reto,
recuperar la risa, ensayar el canto,
bajar la guardia y extender las manos,
desplegar las alas e intentar de nuevo,
celebrar la vida y retomar los cielos,
 
No te rindas por favor no cedas,
aunque el frío queme,
aunque el miedo muerda,
aunque el sol se ponga y se calle el viento,
aún hay fuego en tu alma,
aún hay vida en tus sueños,
porque cada dia es un comienzo,
porque esta es la hora y el mejor momento,
porque no estas sola,
porque yo te quiero.
No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo.

Um livro apócrifo

“Pode haver uma confusão entre ‘Não se salve’ e ‘Não se renda’. Tampouco é uma coisa nova. Havia um texto atribuído a Borges há anos que era um pouco embaraçoso. Assim como uma suposta carta de Gabriel García Márquez a [George W.] Bush completamente apócrifa que, para aqueles que estudam literatura, parece inacreditável”, recordou Campanella.

Além de ser atribuído a Benedetti, alguns sites afirmam que o poema “Não se renda” faz parte de um livro do escritor uruguaio chamado “Entre los poetas míos”. No entanto, não existe nenhuma publicação do autor com esse nome.

O blog “Dicen que yo dije”, dedicado à verificação de textos apócrifos de autores conhecidos, assinala que é possível encontrar on-line uma coleção criada pelo site da Biblioteca Virtual Omegalfa com o nome “Entre los poetas míos”

A equipe de checagem da AFP descobriu que em “Colección antológica de poesía social Vol. 7. Entre los poetas míos... Mario Benedetti” há poemas do escritor uruguaio, mas que não se trata de um de seus livros.

Ao baixar o arquivo PDF da versão atual desta coleção, só é possível ver textos do escritor uruguaio. No entanto, ao pesquisar “Entre los poetas míos” no Google usando o comando “filetype”, que permite reduzir a busca apenas a documentos com determinada extensão (.pdf, .xls, .doc), encontra-se uma versão antiga desse PDF que, realmente, contém o texto “Não se renda” atribuído a Benedetti. Esse poema é o único da coleção - editada em 2013, quando o poema já circulava na Internet atribuído ao poeta uruguaio - em que não é indicado em qual livro do autor foi publicado.

Ao ser perguntada sobre como a Fundação Mario Benedetti lida com a viralização deste texto, a sua presidente respondeu à AFP que o que é feito é reiterar que o texto não é de Benedetti e recomendar que quando você vir um texto atribuído a ele, procure a fonte. Se pertencer a um livro de Benedetti, é dele, senão, não é”.

Em resumo, é falso que Mario Benedetti escreveu um poema chamado “Não se renda”. A versão apócrifa tem se espalhado ao longo dos anos na Internet, mas o texto é de origem anônima e não corresponde ao escritor uruguaio.

AFP Uruguay
AFP Brasil