Estes médicos não protestavam contra um “golpe” da COVID-19, mas defendiam os hospitais públicos na França

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Um vídeo em que profissionais da área de saúde jogam seus jalecos no chão foi compartilhado centenas de vezes em redes sociais desde meados de julho como se mostrasse médicos franceses protestando contra um suposto “golpe” da COVID-19. A gravação realmente retrata uma manifestação de médicos na França, mas por outro motivo: em defesa dos hospitais públicos em 14 de janeiro deste ano, antes mesmo do registro do primeiro caso do novo coronavírus no país.

“Sabem o que significa esse vídeo? Vou te explicar! okay. São Médicos franceses tirando roupa de médico (jaleco) em protesto, e indo embora do hospital porque descobriram o golpe do covid [sic]!!! Isso mesmo que vc leu !!! A mentira por trás da nova ordem mundial”, diz legenda que acompanha o vídeo, em postagem compartilhada mais de 500 vezes no Facebook desde o último dia 10 de julho.

A gravação, na qual dezenas de profissionais da área de saúde jogam seus jalecos no chão à medida que saem de uma sala, ilustra diversas outras publicações no Facebook (1, 2, 3) e Twitter, além de ter circulado de maneira semelhante em espanhol

Captura de tela feita em 14 de julho de 2020 de publicação no Facebook

O vídeo não tem, contudo, qualquer relação com o novo coronavírus.

Ato em defesa do hospital público

Uma busca reversa no Google por capturas de tela do vídeo viralizado mostra que ele foi publicado no Twitter em 14 de janeiro de 2020 pelo Coletivo Inter Hospitais do Hospital Saint-Louis de Paris.

A legenda, em tradução do francês, diz: “Indignados por não serem ouvidos e em apoio aos 1200 que pediram demissão: nós retiramos nossos jalecos. #hospitalpublico #hospital #greve14janeiro”.

Na mesma data, o perfil publicou outro vídeo do mesmo ato.

Contactado pelo AFP Checamos, o coletivo confirmou ter feito, em 14 de janeiro deste ano, a gravação viralizada, afirmando que o protesto tinha como objetivo “apoiar os mil médicos chefes de serviço que pediram demissão de suas funções administrativas como parte do movimento de defesa do hospital público na França iniciado em novembro de 2019”.

“As reivindicações do coletivo são: fim do fechamento de leitos / contratação de pessoal / revisão do modo de financiamento do hospital público na França / revalorização salarial. Portanto, nada a ver com a crise da COVID-19”, disse o Coletivo Inter Hospitais à AFP.

De fato, em 13 de janeiro, um dia antes da gravação das imagens, mais de mil médicos franceses assinaram uma carta endereçada à então ministra da Saúde do país, Agnès Buzyn, com reivindicações para a melhora do sistema de saúde pública na França, anunciando que iriam pedir demissão coletiva a partir de 14 de janeiro de 2020 “se até esta data as negociações não forem iniciadas”.

O protesto em que os médicos do Hospital Saint-Louis de Paris retiraram seus jalecos em apoio aos profissionais que pediram demissão foi amplamente reportado pela mídia francesa no início deste ano (1, 2, 3).

Uma análise das imagens da instituição disponíveis no Google Maps permite confirmar que o vídeo foi feito no Musée des Moulages do Hospital Saint-Louis de Paris, como demonstrado na comparação abaixo:

Comparação feita em 15 de julho de 2020 entre imagem do Musée des Moulages disponível no Google Maps e captura de tela do vídeo publicado no Facebook

França ainda não tinha registro de COVID-19

Em 14 de janeiro, quando as imagens foram gravadas, ainda não havia  casos registrados de COVID-19 na França. As duas primeiras infecções pelo novo coronavírus no país, que foram também as primeiras na Europa, foram confirmadas dez dias depois, em 24 de janeiro.

Quando o vídeo foi gravado, havia apenas 41 casos da doença confirmados oficialmente, todos em Wuhan, na China, onde o vírus foi detectado no final de 2019. Em 15 de janeiro, autoridades chinesas diziam, ainda, que o risco de que essa pneumonia viral fosse transmissível entre seres humanos era “baixo”.

Com mais de 13 milhões de casos confirmados no mundo, o novo coronavírus deixou cerca de de 578 mil mortos globalmente até o dia 15 de julho. Na França, foram mais de 207 mil infectados e de 30 mil óbitos.

Em resumo, é falso que o vídeo viralizado mostre médicos franceses protestando contra um suposto “golpe” da COVID-19. As imagens datam de janeiro deste ano, antes do novo coronavírus chegar ao país, e mostram um ato em defesa dos hospitais públicos.

AFP Brasil
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