Este manifestante não fingiu machucar a cabeça em protesto por morte de George Floyd

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Um vídeo compartilhado milhares de vezes em redes sociais desde o início de junho assegura que um manifestante idoso fingiu ter machucado a cabeça após ter sido empurrado por um policial durante um protesto desencadeado pela morte de George Floyd, no estado de Nova York, nos EUA. No entanto, o homem foi hospitalizado e a Procuradoria disse que ele foi atendido com uma ferida na cabeça e uma hemorragia no ouvido. Sua advogada, além disso, classificou a alegação como “ridícula”.

“Vamos analisar essa cena, que de início me causou muita revolta”, diz o texto sobreposto a um vídeo no qual um homem cai no chão após ser empurrado por um policial e começa a sangrar pelo ouvido.

“Esse homem é um ator chamado Martin Fugindo de 75 anos. Reparem que a câmera não segue ele para não mostrar a batida de cabeça no chão (...), aparece então outro ator para disfarçar a cena enquanto o homem caído aperta um botão que solta um líquido vermelho de seu ouvido”, continua a legenda do vídeo, compartilhado mais de 6.500 vezes no Twitter, Facebook e Instagram desde o último dia 7 de junho.

As imagens originais são da estação de rádio WBFO e mostram um homem identificado pela emissora como Martin Gugino, de 75 anos, sendo empurrado por um policial, na cidade de Buffalo, em Nova York, no último dia 4 de junho. Inicialmente, os agentes seguem seu caminho sem prestar atenção no homem.

O incidente aconteceu durante os protestos antirracismo realizados nos Estados Unidos depois que George Floyd, um homem negro, morreu durante uma detenção violenta por um policial branco, no último dia 25 de maio.

O vídeo viralizado continua, mostrando supostas evidências de que o homem estaria utilizando um aparato no ouvido para simular um jato de sangue. Alegações semelhantes também circularam em espanhol, inglês e romeno

Capturas de tela feitas em 17 de junho de 2020 mostram vídeo publicado no Twitter

Esta outra gravação, de um canal de notícias de Nova York, mostra o homem sendo transportado em uma maca, com um colar imobilizador no pescoço e uma faixa ao redor da cabeça.

Após o escândalo provocado pelo caso, os dois policiais implicados foram suspensos e acusados de agressão pelo procurador local.

O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ajudou a alimentar as teorias conspiratórias ao afirmar no Twitter que o homem “caiu com mais força do que foi empurrado”, perguntando se poderia se tratar de uma manipulação.

“O manifestante de Buffalo empurrado pela polícia poderia ser um provocador Antifa”, escreveu o mandatário, sem apresentar provas, em referência ao movimento que acusa de ter fomentado violência nos Estados Unidos desde a morte de George Floyd.

Internado em um centro médico

No entanto, as afirmações de que Gugino forjou suas feridas são falsas.

A AFP entrou em contato com o vice-presidente de Comunicação e Assuntos Externos do Centro Médio do Condado de Erie (ECMC), Peter Cutler, que assegurou que Gugino ainda estava internado neste hospital, onde passava pelo processo de reabilitação.

“Seu estado passou de grave a estável”, afirmou Cutler, no último dia 9 de junho.

Kelly Zarcone, a advogada de Gugino, disse, por sua parte, que as afirmações de que seu cliente teria forjado o machucado e exagerado sua queda “são ridículas e absolutamente falsas”.

“Nem mesmo alguém das forças de ordem sugeriu algo assim”, disse à AFP, por e-mail.

Na declaração de acusações contra os dois policiais implicados no caso, a Procuradoria do condado de Erie também confirmou que Gugino foi ferido.

“A vítima, um homem de 75 anos, foi levada ao ECMC para atendimento de ferida na cabeça, perda de consciência e hemorragia no ouvido direito. Permanece hospitalizado em condição crítica”, diz a declaração, publicada no último dia 6 de junho.

Alguns usuários também questionaram as imagens devido à grande quantidade de sangue que saiu do ouvido de Gugino após a queda. “Isso não é de modo algum incomum”, explicou à AFP o médico Sanjay Dhall, professor associado de Cirurgia Neurológica da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

“A forma como se projetou para trás foi suficientemente rápida para que a cabeça batesse no chão com força”, disse Dhall em conversa telefônica com a AFP.

“Quando vi o vídeo pela primeira vez, pensei imediatamente na hemorragia que provavelmente estava sendo produzida no interior de seu crânio e já vi muitas feridas fatais em muitas pessoas que não sobreviveram a quedas como essa”, acrescentou.

O suposto tubo que Gugino teria utilizado para bombear sangue falso, identificado em algumas publicações compartilhadas em espanhol, é, na verdade, a corda de uma segunda máscara, semelhante em formato e cor ao modelo N95, colocada por baixo de uma máscara cirúrgica, como pode ser visto nestas imagens do incidente. 

Capturas de tela feitas em 12 de junho de 2020 mostram trecho de vídeo do Spectrum News (esquerda) e imagem compartilhada no Facebook

Em resumo, Martin Gugino não forjou sua queda, nem as feridas provocadas por ela durante uma manifestação em Buffalo desencadeada pela morte de George Floyd. O homem de 75 anos foi internado em estado grave em um hospital, como confirmou um porta-voz da instituição e a Procuradoria local. Sua hemorragia, além disso, é compatível com a queda que sofreu, segundo um especialista médico.

AFP Brasil
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