Vídeo mostra ato a favor da reeleição de Macri em 2019 e não protesto contra o presidente argentino em 2020

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Imagens de uma grande aglomeração de pessoas próximas ao Obelisco de Buenos Aires, na Argentina, foram compartilhadas milhares de vezes em redes sociais desde meados de junho como se mostrassem um protesto atual contra o presidente do país sul-americano, Alberto Fernández. Embora Fernández tenha sido alvo de manifestações recentemente, o vídeo viralizado data de outubro de 2019 e registra um ato a favor da reeleição do então presidente argentino, Mauricio Macri.

“ARGENTINA Hoje - Imensa manifestação contra o governo do presidente Alberto Fernández. Espero que ainda haja tempo de mudar”, diz publicação compartilhada mais de 500 vezes no Facebook desde o último dia 11 de junho.

“Imensa manifestação contra as políticas comunistas do presidente Alberto Fernández, que você não verá em nenhuma mídia ou rede social da esquerda mundial !!”, escreveu outro usuário ao publicar o vídeo no Twitter, em mensagem replicada mais de 3 mil vezes, também desde 11 de junho.

A alegação aparece em diversas outras postagens no Facebook (1, 2, 3), Twitter (1, 2, 3) e Instagram, somando mais de 6.500 compartilhamentos. O vídeo circulou da mesma maneira em espanhol

Captura de tela feita em 12 de junho de 2020 mostra vídeo publicado no Twitter

Gravação de 2019

Algumas das publicações viralizadas no Twitter compartilham um vídeo publicado no último dia 10 de junho pelo usuário @mavica7, com a legenda “Até amanhã”, em espanhol. Nas respostas a esta publicação, o perfil indica, contudo, que a gravação não é atual.

Após um usuário classificar a postagem como “fake”, @mavica7 afirmou: “O que é fake? Marcha de 19 de outubro de 2019”. Respondendo a outra pessoa que perguntou quando o vídeo foi gravado, reiterou: “Outubro de 2019”.

Nesta data, centenas de milhares de argentinos se manifestaram próximos ao Obelisco de Buenos Aires, em ato a favor da reeleição do então presidente do país, o conservador Mauricio Macri. Segundo estimativas da mídia, o comício reuniu cerca de 320 mil pessoas. Para o Ministério de Segurança da época foram quase um milhão.

A equipe de checagem da AFP entrou em contato com o usuário @mavica7 para confirmar a autoria da gravação, mas não obteve resposta até a publicação deste artigo.

Uma comparação entre um vídeo da marcha de 2019, publicado em 19 de outubro daquele ano no Twitter, e a gravação compartilhada atualmente nas redes sociais permitiu concluir, contudo, que trata-se efetivamente do mesmo evento.

Entre as semelhanças, destaca-se abaixo, o posicionamento de duas vans, de uma fileira de banheiros químicos, de quatro balões e de um cartaz. 

Comparação feita em 12 de junho de 2020 entre vídeo de ato pró-Macri publicado no Twitter em 19 de outubro de 2019 (esquerda) e vídeo viralizado (direita)

Além disso, aos 32 segundos da gravação foi possível identificar um cartaz com o slogan “Sí Se Puede” sobre o palco montado em frente ao obelisco, idêntico ao utilizado por Macri no ato de 19 de outubro de 2019, como demonstra uma foto da AFP. 

Comício do então presidente argentino Mauricio Macri em Buenos Aires, em 19 de outubro de 2019

Cerca de uma semana após o comício, Macri (Proposta Republicana)  foi derrotado por Alberto Fernández (Partido Justicialista), em chapa de centro-esquerda com a também ex-mandatária do país Cristina Kirchner.

Fernández realmente foi alvo de manifestações recentes no país, contra a decisão do governo de expropriar uma grande empresa agroexportadora argentina. O protesto aconteceu, no entanto, em Santa Fé, e não em Buenos Aires, e contou com a participação de centenas de manifestantes e não de centenas de milhares, como as vistas no vídeo viralizado. Na capital argentina foram registrados, por sua vez, panelaços contra a proposta.

Em resumo, é falso que o vídeo de uma grande aglomeração de pessoas ao redor do Obelisco de Buenos Aires mostre um protesto contra o presidente argentino, Alberto Fernández, em 2020. A gravação mostra um ato a favor da reeleição do então presidente do país, Mauricio Macri, em outubro de 2019.

AFP Brasil