Estas pessoas que invadiram o Capitólio não faziam parte de uma encenação ou eram “antifas”

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Publicações contendo artigos e fotos que provariam que o Capitólio dos Estados Unidos foi invadido por “antifas” e pessoas ligadas ao movimento Black Lives Matter infiltradas foram compartilhadas dezenas de vezes nas redes sociais desde o último dia 6 de janeiro. Mas isso é falso: as imagens apresentadas como “provas” foram tiradas de contexto ou cortadas.

“Pelo menos 2 antifas poderiam estar infiltrados na invasão ao Capitólio” e “Um dos supostos apoiadores do Trump que invadiram o Capitólio já foi visto em manifestações do Black Lives Matter. Parece que o sujeito é um agente dos Antifas”, foram algumas das alegações que circularam no Facebook (1, 2), no Twitter, no Instagram e em sites (1, 2).

As imagens da invasão ao Capitólio são comparadas com fotos antigas, supostamente revelando a encenação, e também circularam em idiomas como o alemão e o espanhol.

Essa teoria sobre uma suposta infiltração de ativistas “antifa” já havia sido difundida no Twitter pelos congressistas Louie Gohmert e Mo Brooks, próximos ao presidente Donald Trump, após as manifestações em Washington.

Em 6 de janeiro, apoiadores de Trump invadiram o Congresso dos Estados Unidos durante a sessão de certificação da vitória de Joe Biden causando caos, depois de um apelo de última hora do presidente para reverter sua derrota eleitoral, que ele atribui a uma suposta fraude.

Após as forças de segurança liberarem o edifício, os congressistas se reuniram e formalizaram a vitória de Biden no Colégio Eleitoral, apesar das objeções de alguns republicanos.

“Antifa”, uma contração da palavra “antifascista”, é um movimento descentralizado que diz ser dedicado à luta contra o fascismo on-line e em público.

1 - Participante do BLM

Captura de tela feita em 7 de janeiro de 2021 de uma publicação no Facebook

Uma das imagens que mais circulou pelas redes sociais foi a de um homem usando um chapéu de pele com chifre que supostamente teria participado anteriormente de um protesto do Black Lives Matter (BLM) e foi ligado ao “antifa”.

De acordo com veículos de comunicação norte-americanos (1, 2), trata-se de Jake Angeli,  do Arizona, ativista do grupo conspiratório QAnon. Há vários registros de Angeli em outras ocasiões, como em maio de 2020, em uma visita de Trump a Phoenix, ou à margem de uma manifestação do BLM de junho de 2020 também em Phoenix, onde gritava “Antifa é comprado e pago por George Soros!”

Em 5 de novembro de 2020, Jake Angeli foi fotografado pela AFP durante uma concentração de apoiadores do atual presidente dos Estados Unidos e se apresentou como “xamanista e consultor para os apoiadores de Trump”.

Enquanto a invasão ao Capitólio acontecia, uma foto mais antiga de Angeli surgiu no Twitter acompanhada da afirmação de que ele esteve presente em um protesto do Black Lives Matter em Tempe, também no Arizona.

Para confirmar que a fotografia realmente havia sido tirada em Tempe, a AFP contatou o fotógrafo Patrick Breen, que cobriu as manifestações do Black Live Matters em Phoenix e que igualmente esteve em Tempe. 

A esse questionamento, Breen respondeu: “Sim, ele [Angeli] esteve em algumas marchas BLM em Tempe e Phoenix, no Arizona - MAS - ele nunca fez parte delas ou foi um apoiador. Sempre esteve com sua placa com o símbolo ‘Q’ e ao ter acesso ao microfone, usou para espalhar teorias conspiratórias. Ele estava lá para chamar a atenção para o QAnon e apoiar Donald Trump”. E acrescentou: “Depois o fotografei no protesto ‘Stop the Steal’ em frente ao Maricopa Tabulation Center depois do dia da eleição, em novembro”

Posteriormente, apareceu nas redes sociais uma segunda versão dessa foto, que não aparece cortada, e possibilita identificar a frase “Q Sent Me” (“Q Me Enviou”).

2 - Antifa

Captura de tela feita em 7 de janeiro de 2021 de uma publicação no Facebook

A imagem à esquerda vista na combinação de fotos que circulou nas redes mostra um homem de barba que foi fotografado pela AFP dentro do Congresso norte-americano em 6 de janeiro. A sua identidade, contudo, não foi revelada.

A foto da direita, por sua vez, mostra um homem de aparência similar e, abaixo, há um link para o blog phillyantifa.org, no qual são publicadas informações detalhadas sobre adversários da direita.

De fato, o site inclui essa imagem, mas não porque o indivíduo é afiliado ao Antifa. Na verdade, a sua foto aparece em uma publicação de setembro de 2018 identificando-o como Jason Tankersley, que é descrito como “fundador dos Skinheads de Maryland e neonazista que, nos últimos anos, tem tentado melhorar a sua imagem”.

Um registro sem data encontrado no site do Southern Poverty Law Center’s, por sua vez, indica que Tankersley faz parte “dos Skinheads do estado de Maryland”, mas sem mencionar um papel específico no grupo.

3 - A tatuagem da foice e do martelo

Captura de tela feita em 7 de janeiro de 2021 de uma publicação no Twitter

Várias publicações baseiam a tese de que quem teria invadido o Capitólio seriam “antifas” infiltrados no fato de que o homem que aparece usando um suéter amarelo ao lado deAngeli parece ter uma tatuagem do símbolo comunista da foice e do martelo na mão.

No entanto, não se trata do símbolo comunista, mas sim do sinal de um videogame. No jogo de ação “Dishonored”, o “Outsider” concede aos jogadores a chamada “Marca dos Outsiders”, o que lhes dá habilidades sobrenaturais. Essa marca não tem nada a ver com um martelo e foice, ou uma orientação politicamente de esquerda.

Além disso, na publicação do blog phillyantifa.org há outra foto de Tankersley, também encontrada pela AFP em seu perfil no Facebook, na qual se pode ver uma tatuagem em seu braço e sua mão direita e confirmar que não se trata do símbolo comunista.

Em resumo, é falso que essas imagens compartilhadas nas redes sociais provem que alguns dos indivíduos que participaram da invasão ao Capitólio dos Estados Unidos estavam infiltrados pois participavam de grupos antifascistas, haviam ido a marchas do BLM, ou tinham tatuagens comunistas.

Tradução e adaptação
BLACK LIVES MATTER Eleições EUA 2020