Telas com o logotipo e a página inicial da Polymarket, plataforma norte-americana de previsão de mercado que foi proibida no Brasil, fotografadas em Saint-Mandé, a leste de Paris, em 29 de abril de 2026 (AFP / Martin LELIEVRE)

Mercado de previsões: plataformas proibidas no Brasil são usadas erroneamente nas redes como termômetro eleitoral

“Esqueçam todos os institutos de pesquisa. A Polymarket com seu histórico de 90% de acertos é o que te deixa mais próximo da realidade”. A publicação feita no X dá o tom de uma série de conteúdos nas redes sociais que utilizam gráficos de apostas em mercados de previsões como se fossem pesquisas para a eleição presidencial brasileira de 2026. Mas os conteúdos erram ao equiparar resultados de apostas de probabilidade aos de levantamentos eleitorais. Especialistas consultados pela AFP alertaram que os mercados de previsão não utilizam metodologias capazes de identificar intenção de voto.  

Uma busca realizada pelo Checamos em diferentes redes sociais, como Instagram, Facebook, X, TikTok e YouTube, identificou dezenas de publicações em que gráficos e percentuais da plataforma Polymarket — um dos sites mais conhecidos do mercado de previsão —, são usados para apontar chances de vitória de pré-candidatos à Presidência meses antes do pleito de outubro de 2026. 

A tendência engloba atores de diferentes espectros políticos, como o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores; Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal; e Renan Santos, do Partido Missão. 

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Combinação de capturas de tela feita em 8 de junho de 2026 de publicações no Facebook e no X (.)

A análise identificou que gráficos da plataforma têm sido usados como termômetro eleitoral (1, 2, 3) mesmo após o governo brasileiro proibir, em abril, o acesso à Polymarket e a outras 26 plataformas de mercado de previsão. 

Internautas associaram a ascensão expressiva de Flávio Bolsonaro na Polymarket entre abril e maio de 2026 à proibição, sugerindo que isso representaria uma ameaça à campanha de Lula. 

O governo brasileiro, por sua vez, informou que a proibição se deu porque essas plataformas não são regulamentadas e poderiam representar um risco de um endividamento ainda maior da população

O argumento dos internautas foi compartilhado, inclusive, pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que citou o uso de redes privadas virtuais, conhecidas como VPN, para contornar a restrição e conseguir acessar os mercados de previsão. 

Esse padrão de conteúdo foi observado em outros países da região, como Colômbia e Peru, que também elegem novos presidentes em 2026 (1, 2). 

No entanto, os conteúdos enganam ao equiparar dados de mercados de previsão a pesquisas de intenção de voto. 

O que são os mercados de previsões?  

Os mercados de previsão, ou mercados preditivos, são operações, feitas em plataformas como a Polymarket e a Kalshi, em que usuários negociam compra e venda de palpites sobre a probabilidade de um evento futuro acontecer. 

Ou seja, apostam apenas “sim” ou “não” em perguntas (chamadas de contratos) que podem ser sobre qualquer tema: desde resultados de partidas de futebol e acontecimentos geopolíticos, até disputas eleitorais ou tópicos mais inusitados, como a volta de Jesus Cristo.  

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Captura de tela feita em 5 de junho de 2026 da plataforma Polymarket, acessada pela equipe da AFP por meio de um sistema de VPN (.)

O preço das apostas varia conforme as probabilidades mudam, tal qual uma ação na bolsa de valores. Caso a probabilidade se realize, o comprador daquele palpite recebe um prêmio. 

“Nesse sistema, a remuneração sofre influência de novos apostadores. Quanto mais as pessoas apostam na probabilidade de algo ocorrer, menor fica a remuneração, assim como quando uma nova informação surge favorecendo ou desfavorecendo aquela previsão”, explicou Breno Adaid, especialista em métodos quantitativos, à AFP em 4 de junho de 2026. 

Então, quando um internauta publica uma captura de tela de um gráfico de plataformas de mercado de previsão, o que está sendo compartilhado é, na realidade, a expectativa para que um determinado evento aconteça: 

“Isso significa que naquele momento a plataforma entende que existe uma chance X daquele evento ocorrer (70% de chance de um candidato ser eleito, por exemplo). Isso não significa que a chance do mundo real é essa. A porcentagem sofre efeito das decisões dos apostadores: quanto mais pessoas apostarem nos 70%, essa porcentagem vai subindo”, detalha Adaid.

A porcentagem que aparece nos gráficos é a representação do valor pago para comprar aquela probabilidade. No caso dos contratos sobre a eleição presidencial brasileira na Polymarket, por exemplo, o palpite na vitória de Lula custava US$ 0,44 centavos até o início de junho de 2026. Sendo assim, Lula aparecia com 44% de expectativa de vitória. 

Até o fechamento deste texto, o volume total de negociações em contratos sobre a eleição presidencial brasileira ultrapassava os US$ 97 milhões na Polymarket e US$2 milhões na Kalshi. 

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Captura de tela feita em 8 de junho de 2026 da plataforma Polymarket (E) e Kalshi, acessada pela equipe da AFP por meio de um sistema de VPN (.)

Metodologias diferentes para perguntas distintas 

Segundo Fábio Vasconcellos, cientista político e integrante do do Instituto Representação e Legitimidade Democrática (INCT/Redem) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), uma aposta em um mercado de previsão não fornece as mesmas informações que uma pesquisa eleitoral. 

Enquanto as pesquisas são um método científico que mede a opinião pública com perguntas como “em quem você votaria hoje?” para capturar o voto declarado, os mercados de previsão medem a expectativa para a vitória de um candidato através do questionamento “quem você acha que vai ganhar em outubro?”

Portanto, equiparar as duas metodologias seria como “confundir termômetro com previsão do tempo. Um mede temperatura agora, outro tenta prever se vai chover”, exemplificou Vasconcellos em 5 de junho de 2026.

Outro fator de diferenciação essencial para o contexto eleitoral é o perfil de pessoas que compõem cada resultado. 

Para a realização das pesquisas eleitorais, são selecionadas pessoas de diferentes perfis e critérios demográficos, como sexo, idade e escolaridade, para se formar a amostragem e, assim, representar em pequena escala o eleitorado como um todo. 

A legislação eleitoral determina que os institutos responsáveis devem registrar as pesquisas no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle) da Justiça Eleitoral brasileira com informações públicas sobre metodologia e o período de realização do levantamento, as perguntas que foram aplicadas, a ponderação do perfil das pessoas que responderam e a margem de erro. 

Em contrapartida, as apostas nos mercados de previsão não são nominais e podem ser feitas por qualquer pessoa do mundo inteiro que mobilize recursos financeiros para apostar. Estudos já mostram que a maioria dos apostadores são homens com menos de 45 anos. 

“Tome como um exemplo mais simples questionar em uma reunião de família a preferência política. Será que essa família possui uma distribuição de preferências e características que reflete o povo brasileiro ou somente uma parte dele com suas particularidades?”, acrescenta Adaid, ao destacar que o perfil de apostadores pode se alinhar ao de determinados candidatos e, assim, provocar uma supervalorização nas suas expectativas de vitória na plataforma.   

Por que não é seguro utilizar o mercado de previsão como uma métrica eleitoral? 

“Como o volume de apostas no Brasil é baixo, é barato empurrar o preço e printar. Viraliza mais rápido que nota metodológica de 20 páginas”, destaca Vasconcellos.

O fato do percentual das apostas estar sujeito à influência de qualquer pessoa torna o mercado de previsão uma métrica frágil para indicar preferências políticas em disputas eleitorais. 

Investigações já mostram que apostadores lucram milhões ao apostar em eventos dos quais possuem informações privilegiadas. 

É o caso de um soldado dos Estados Unidos que foi acusado de fraude e outros crimes pelo uso de informações privilegiadas sobre a captura do presidente deposto da Venezuela Nicolás Maduro para faturar milhares de dólares em apostas sobre o tema na Polymarket. 

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Uma tela esférica de LED exibe informações dentro da nova sede da plataforma online de mercados de previsão Polymarket, chamada "The Situation Room", durante sua inauguração em Washington, DC, em 20 de março de 2026. (AFP / Théo MARIE-COURTOIS)

Para justificar o uso da plataforma no contexto eleitoral, internautas recorrem ao argumento de que os mercados de previsão possuem alta taxa de assertividade, como a porcentagem de mais de 90% atribuída à Polymarket.   

Mas esse argumento ignora o fato de que os apostadores utilizam novas informações à medida que o evento se aproxima para ajustar as previsões. 

Segundo Adaid, é um erro cravar que determinado resultado foi previsto desde a largada da aposta, já que a taxa de assertividade tende a subir conforme novas informações surgem. 

No próprio site da Polymarket a alta assertividade nas apostas é atribuída ao ajuste das previsões. 

Confiança no mercado de previsão x desconfiança em institutos de pesquisas  

Esses conteúdos têm encontrado um terreno fértil para se propagarem devido ao questionamento público que determinados candidatos, criadores de conteúdo e grupos políticos fazem sobre a credibilidade das pesquisas eleitorais. 

“Os mercados de previsão acabam ocupando um espaço deixado por essa erosão de confiança, atuando, inadvertidamente ou não, como alternativas potencialmente mais confiáveis para acompanhar as oscilações da disputa eleitoral”, afirmou Bruno Mattos, coordenador de projetos no NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em entrevista ao Checamos em 8 de junho de 2026.  

Para o especialista, essa tendência “não começa e não termina” no Brasil e mostra como a desinformação no contexto eleitoral também se manifesta na descontextualização de dados e estatísticas. 

Quando difundidos de forma ampla, esses conteúdos podem influenciar a percepção do eleitorado sobre a competitividade dos candidatos. 

O cientista político Fábio Vasconcellos compartilha a preocupação, apontando que a desconfiança nas pesquisas eleitorais enfraquece uma “ferramenta de fiscalização da democracia”

“O risco é a gente trocar debate baseado em dado amostral por debate baseado em print de aposta. A eleição fica mais barulhenta e menos informada”

Referências 

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