Imagens de torcedoras sexualizadas criadas com IA são usadas para promover sites de conteúdo adulto e lojas
- Publicado em 22 de julho de 2026 às 21:48
- 5 minutos de leitura
- Por Ana ESPINOSA, Lucero MENDEZ, AFP México
- Tradução e adaptação AFP Brasil
A tendência de conteúdo que cria imagens de transmissões esportivas com inteligência artificial viralizou com um novo contorno durante a Copa do Mundo de 2026: torcedoras mulheres foram amplamente retratadas de forma hipersexualizada. Publicações que compartilham essas imagens foram visualizadas milhares de vezes e são usadas para promover sites de conteúdo adulto e lojas. Especialistas consultados pela AFP alertaram que essas imagens perpetuam narrativas sexistas e violência de gênero e que, em alguns casos, podem levar a sites que comprometem a segurança digital dos usuários.
“Belas torcedoras na Copa do Mundo 2026”, diz a legenda de um vídeo que circula no X em que se vê supostas torcedoras de países diferentes no que parece ser uma transmissão esportiva.
Postagens semelhantes divulgam imagens de supostas torcedoras do Japão, Argentina, Brasil, Noruega, México e outros países participantes do torneio, vestidas com roupas reveladoras com as bandeiras e cores dessas seleções.
Conteúdos do gênero também estão circulando em inglês, espanhol e árabe.
O foco deliberado em espectadores atraentes nas arquibancadas em transmissões esportivas é uma prática que precede a Copa do Mundo de 2026. Em inglês, ela ganhou o nome de “honey shot”.
Embora a Federação Internacional de Futebol (Fifa) não tenha se pronunciado sobre o assunto para o Mundial de 2026, no evento de 2018, na Rússia, a Fifa solicitou que as emissoras interrompessem essa prática, a fim de combater o assédio contra as mulheres.
A popularização da IA, no entanto, trouxe um novo desafio. Antes mesmo da Copa do Mundo de 2026, a criação digital de supostas torcedoras hipersexualizadas já havia sido reportada. Com o evento, a tendência se intensificou.
Algumas publicações utilizam essa tendência viral em estratégias como o “trendjacking”, que consiste em aproveitar eventos populares, como o Mundial, para gerar tráfego massivo para outras páginas.
A AFP identificou diversos conteúdos que compartilham vídeos e imagens hipersexualizadas de torcedoras em arquibancadas para promover páginas de vendas de itens diversos (1, 2, 3) e páginas de conteúdo sexual.
É o caso, por exemplo, de um vídeo de uma suposta torcedora que viralizou como “uma das mais gatas da Copa do Mundo”.
Uma busca reversa mostrou que o perfil original compartilhou outros conteúdos com cunho sexual da mesma mulher criada por IA, associando-a a diversas seleções diferentes. No perfil, o usuário é redirecionado para uma conta no Stacked, um site de conteúdo adulto, e para um chat do Telegram com “conteúdo exclusivo”.
Outro exemplo inclui um vídeo de uma suposta torcedora brasileira sendo assediada por um torcedor homem. O conteúdo original foi publicado em 14 de junho pela conta do Instagram “@thechiaracleo”, como identificou uma busca reversa.
O perfil contém dezenas de imagens geradas por IA da mesma mulher em trajes de banho ou lingerie. Nos destaques, é indicado um link para um perfil no FanVue, uma plataforma de conteúdo adulto, com dezenas de modelos gerados por IA.
Outros conteúdos também espalham cenas de assédio supostamente flagradas pelas câmeras de transmissão como se fossem piadas (1, 2).
Objetificação e violência sexual
A inteligência artificial também foi usada para alterar a aparência de torcedoras reais para agregar ou exagerar atributos sexuais.
É o caso de uma imagem de três torcedoras da Alemanha que foi capturada, supostamente, no minuto 5:43 da partida da seleção alemã contra Curaçao, em 14 de junho.
Uma análise com o detector SynthID identificou que a imagem foi gerada com o Gemini, a ferramenta de inteligência artificial generativa do Google.
Além disso, uma consulta à transmissão da partida mostrou que um registro com três torcedores diferentes foi manipulado para trocar suas aparências.
O mesmo foi identificado nessa outra imagem de três torcedoras da Argentina, supostamente capturada durante o jogo entre a seleção e a Jordânia, em 27 de junho.
A imagem também foi identificada como sintética pelo SynthID e a transmissão mostra que essas não são as mulheres reais registradas na câmera.
Essas publicações hipersexualizam o corpo das mulheres sob a ótica dos padrões de beleza “impostos pela ordem hegemônica” e, assim, usam-no como chamariz entre o público que acompanha a Copa do Mundo. Além disso, fazem com que elas não sejam vistas com pessoas, e sim como objetos de venda e consumo, segundo Marcela Hernández, co-fundadora da Rede Latinoamericana de Defensoras Digitais.
Hernández acrescenta que esse tipo de publicação normaliza a difusão de conteúdos íntimos sem consentimento. “Seja [esse conteúdo] sexualizado ou não, o uso de imagens de pessoas para consumo por qualquer pessoa é normalizado e é uma forma de violência de gênero digital”.
O mesmo é apontado por Sandra Muñoz, especialista em segurança cibernética e violência de gênero digital, ao reafirmar que o uso da inteligência artificial agrava a objetificação, uma vez que essas imagens e vídeos viralizam e incentivam “uma forma de ver as mulheres como corpos intercambiáveis, sem vontade própria, sempre disponíveis”.
Anna Lagos, jornalista especializada em IA, alerta que “há uma completa falta de interesse por parte das empresas de tecnologia em regulamentar essa questão”.
“Não é coincidência que um dos maiores negócios em inteligência artificial seja a pornografia”.
A jornalista destaca que, embora a sexualização das mulheres “não seja exclusiva do Sul Global”, grande parte desse conteúdo “apresenta uma visão colonial” dos corpos femininos nessas regiões.
A fala da jornalista vai ao encontro de um estudo de 2023 da Universidade de Washington que mostrou como conteúdos criados com Stable Diffusion — uma das ferramentas de IA generativa mais populares — possuem um padrão de sexualização de mulheres, principalmente latinos-americanas, mexicanas, indianas e egípcias.
A pesquisa alerta que “se a fetichização ocidental de mulheres de cor (...) não for controlada, essa representação estereotipada irá piorar”.
Regulamentação limitada
Conteúdos como esses ainda são um desafio de regulamentação no mundo todo.
No Brasil, foi aprovada em 2025 uma lei que aumenta a pena para casos em que a inteligência artificial ou outro recurso são utilizados para alterar a imagem ou o som de mulheres vítimas do crime de violência psicológica. Outros projetos do gênero são estudados pela Câmara dos Deputados.
Outros países possuem legislações relacionadas à violência digital contra as mulheres (1, 2, 3, 4, 5).
No entanto, essas legislações não regulamentam a criação de deepfakes pornográficas e não são padronizadas, ou seja: a proteção das vítimas depende do país onde vivem e de onde as plataformas de distribuição estão sediadas. As especialistas consultadas pela AFP ainda destacaram que a tecnologia tem avançado mais rápido do que a legislação.
Referências
- Estudo sobre sexualização da Universidade de Washington
- Leis e projetos relacionados com o combate a violência digital contra as mulheres (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7)
- Transmissões dos jogos da Alemanha e Argentina (1, 2)
- Especialista Sandra Muñoz
- Especialista Marcela Hernández
- Especialista Anna Lagos
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