Imagem de supostas armas apreendidas em uma flotilha humanitária rumo a Gaza foi feita com IA

Em 30 de abril de 2026, o Exército israelense interceptou a Flotilha Global Sumud — que se dirigia a Gaza com ajuda humanitária, em águas internacionais — em frente à costa da Grécia. Desde então, publicações que acumulam mais de 6 mil interações nas redes sociais compartilham supostas fotografias de armas que estariam a bordo dos barcos e teriam sido apreendidas pelas forças israelenses. Mas isso é falso: as imagens foram criadas com inteligência artificial (IA) e não há informes oficiais sobre a suposta apreensão.

“Soldados do IDF, mostram o que foi apreendido em alguns barcos da flotilha a caminho de Gaza. Os manifestantes não são apenas simpatizantes do Hamas. Eles também são contrabandistas de armas destinadas ao Hamas”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no Threads e no X.

Alegações similares circulam em inglês, espanhol e holandês.

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Captura de tela feita em 13 de maio de 2026 de uma publicação no X. Símbolo de inteligência artificial (Ai) acrescentado pela AFP (.)

Após o ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023, Israel, que controla todos os pontos de entrada em Gaza, passou a permitir apenas a passagem de pequenas quantidades de suprimentos ao território palestino, o que provocou uma escassez de produtos básicos. Em alguns momentos, o governo israelense chegou a cortar completamente a ajuda humanitária.

Em abril de 2026, ativistas dos direitos humanos a bordo da Flotilha Global Sumud partiram de portos da França, Espanha e Itália com o objetivo declarado de romper o bloqueio marítimo de Gaza e entregar ajuda humanitária ao território palestino. Mas as embarcações foram interceptadas por tropas israelenses na noite de 29 de abril.

Os organizadores da flotilha declararam que foram abordados por lanchas militares e que soldados teriam apontado “com lasers e armas de assalto semiautomáticas” para ordenar que os participantes “se dirigissem à proa dos barcos”, como declararam em um comunicado no X.

De acordo com a organização, a operação israelense ocorreu a mais de mil quilômetros de Gaza, em águas internacionais. Vários governos cujos cidadãos foram presos — incluindo o Brasil — pediram a Israel a libertação dos ativistas e solicitaram que o direito internacional seja respeitado. 

Em 10 de maio, Israel deportou o ativista brasileiro Thiago Ávila e o palestino-espanhol Saif Abu Keshek, detidos na operação e levados para interrogatório. O restante dos ativistas foi levado para a ilha grega de Creta, onde foram libertados.

Nesse contexto, as publicações compartilham as imagens virais como uma justificativa para a abordagem do Exército israelense à flotilha. Contudo, os conteúdos foram criados com inteligência artificial.

Imagens inconsistentes

As imagens viralizadas apresentam distorções visuais que apontam para o uso de IA. Por exemplo, a ombreira no uniforme de um dos militares parece estar solta ou se estender para fora da camisa, a sombra do microfone não é contínua e há uma sombra inconsistente em um dos barcos, contrária à localização do Sol.

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Captura de tela feita em 14 de maio de 2026 de uma publicação no X. Símbolo de inteligência artificial (Ai) e marcações em vermelho acrescentados pela AFP (.)

As embarcações vistas nas imagens também são diferentes dos veleiros que partiram em direção a Gaza para entregar ajuda humanitária, como mostram artigos da imprensa e comunicados de organizações humanitárias.

A ferramenta de detecção de conteúdos sintéticos do Google, SynthID Detector, concluiu com um “alto grau” de certeza que as duas imagens foram criadas com a inteligência artificial da empresa.

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Capturas de tela feitas em 14 de maio de 2026 de análises do SynthID Detector. Símbolos de inteligência artificial (Ai) acrescentados pela AFP (.)

A AFP não encontrou registros em veículos israelenses ou internacionais sobre a suposta apreensão de armas. Entretanto, as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) publicaram um vídeo que mostra preservativos e pequenas bolsas que supostamente contêm drogas e que, segundo afirmam, foram encontradas a bordo da flotilha.

Referências

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