Vídeo em que Haddad diz que “gosta de taxar pobres” foi manipulado com IA
- Publicado em 2 de março de 2026 às 15:51
- 3 minutos de leitura
- Por AFP Brasil
No início de fevereiro de 2026, o Ministério da Fazenda aumentou o imposto de importação de milhares de produtos, incluindo smartphones, em uma medida criticada pelo setor e por usuários nas redes sociais. Desde então, publicações visualizadas centenas de vezes voltaram a compartilhar um vídeo em que o ministro da pasta, Fernando Haddad, parece dizer que gosta de “taxar os pobres” e não acha justo taxar milionários. Mas isso é falso. A gravação manipula uma entrevista coletiva de Haddad com o uso de inteligência artificial (IA).
“Eu gosto de taxar os pobres. Não vou mentir para você que 98% da população brasileira é pobre. Como a gente só tem 2% de milionários, eu não acho justo taxar essa pouca quantidade”, parece dizer o ministro Fernando Haddad em um vídeo compartilhado no Facebook, no Instagram e no YouTube.
O conteúdo também foi enviado ao WhatsApp do AFP Checamos, para onde os usuários podem encaminhar mensagens vistas em redes sociais, caso duvidem de sua veracidade.
Na sequência viral, Haddad segue afirmando que a taxação de “todos os pobres” geraria “mais lucro para o nosso governo do que se a gente taxar todos os ricos”. “O nosso presidente Lula falou que (...) a gente pode aumentar um pouco o imposto das carnes. O brasileiro pode comer fígado, pé de galinha, ele pode comer uma asinha, esses aí o imposto não vai subir tanto”.
“Se não tiver condições para comprar uma carne, compra uma abóbora, entendeu? E a vida segue. E pobres, parem de reclamar, por gentileza”, parece dizer.
O vídeo, que já circulou em 2025, voltou a ser compartilhado em meio a críticas a uma medida instituída pelo Ministério da Fazenda no início de fevereiro de 2026 que aumentaria a tarifa de importação de milhares de produtos, incluindo bens de informática e equipamentos industriais, com a finalidade de “proteger a produção nacional”.
Diante da repercussão, a pasta anunciou que revogou o aumento no dia 27 de fevereiro.
No entanto, a gravação viral não é uma fala autêntica de Haddad e foi gerada por inteligência artificial.
Vídeo de IA
Uma busca reversa por fragmentos do vídeo conduziu a uma entrevista concedida por Haddad em 16 de dezembro de 2024 e publicada no canal da Rádio Itatiaia no YouTube.
Na descrição, é indicado que o ministro, que aparece no mesmo cenário e com os mesmos trajes vistos na gravação viralizada, havia visitado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em São Paulo “para uma reunião sobre a reforma tributária e as medidas de corte de gastos”.
Na ocasião, o mandatário se recuperava de uma cirurgia na cabeça após sofrer uma hemorragia intracraniana, consequência de um acidente doméstico no Palácio do Planalto.
Durante a entrevista de 16 de dezembro, Haddad afirmou ter conversado com Lula sobre a tramitação de projetos da reforma tributária no Congresso Nacional e outras medidas fiscais. Em nenhum momento o ministro diz querer “taxar os pobres” ou aumentar os tributos sobre alimentos.
Uma análise do áudio do vídeo viral com a ferramenta Hiya, do plugin de verificação InVID-WeVerify, indicou que o conteúdo apresenta 88% de probabilidade de ter sido gerado por IA.
Além disso, a suposta fala de Haddad compartilhada no conteúdo manipulado não condiz com a realidade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em dezembro de 2025 mostram que, em 2024 — data da entrevista do ministro — 23,1% dos brasileiros, e não 98%, se encontravam em situação de pobreza.
O discurso tampouco reflete a postura do governo federal em relação à tributação de grandes fortunas. Em dezembro de 2025, Lula sancionou uma lei que isenta da cobrança do Imposto de Renda (IR) indivíduos com renda de até R$ 5 mil. Como compensação, a medida institui a tributação de altas rendas, a partir de R$ 600 mil por ano.
Esse conteúdo também foi verificado por Agência Lupa, Estadão Verifica e UOL Confere.
Referências
Copyright © AFP 2017-2026. Qualquer uso comercial deste conteúdo requer uma assinatura. Clique aqui para saber mais.
