O vídeo de soldado brasileiro chorando na Ucrânia foi gerado com inteligência artificial
- Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 17:33
- Atualizado em 6 de janeiro de 2026 às 22:10
- 5 minutos de leitura
- Por Cintia NABI CABRAL, AFP França
- Tradução e adaptação AFP Colombia , AFP Brasil
Centenas de voluntários brasileiros se juntaram às forças armadas ucranianas desde o início da guerra contra a Rússia. Neste contexto, um vídeo, visualizado mais de 390 mil vezes nas redes sociais desde 16 de novembro de 2025, supostamente mostra o soldado brasileiro Emilio George Ades Georgiades, que chora ao descrever os horrores do conflito. Mas as imagens foram geradas por inteligência artificial (IA).
“Emilio George Ades Georgiades foi ajudar a Ucrânia na guerra contra a Rússia e achou que seria como nos filmes” é a legenda da publicação no Facebook. Conteúdo semelhante circula no Instagram, no Threads e em outros idiomas, como inglês, armênio, italiano, espanhol, russo e vietnamita.
A alegação é compartilhada junto a um vídeo de 15 segundos em que um homem com vestimentas militares diz: “Mãe, pelo amor de Deus, eu não deveria ter vindo! Eu tô aqui, mãe. Tá caindo bomba pra tudo que é lado. Eu tô sozinho, mãe. Me tira daqui. Eu sou burro demais! Achei que ia ser filme. Eu não consigo, mãe”.
Em março de 2022, autoridades ucranianas afirmaram que pelo menos 20 mil voluntários de mais de 50 países se inscreveram para se juntar à Legião Internacional para a Defesa da Ucrânia.
A organização explicou à AFP que qualquer pessoa com experiência militar ou em combate com armas de fogo poderia se alistar. À época, centenas de brasileiros, em sua maioria homens, haviam manifestado sua disposição de lutar contra a Rússia.
Vídeo gerado por IA
As imagens viralizadas apresentam indícios de manipulação digital, por exemplo, falta de sincronia entre o áudio e o movimento dos lábios do suposto soldado, como costuma acontecer com conteúdos manipulados por IA.
Uma busca reversa no Google Lens pela captura de tela de um trecho da sequência exibiu o registro mais antigo, publicado em 27 de outubro de 2025, pela conta “@gabrielviciki” no YouTube. “Brasileiro na Ucrânia, jovem assina contrato de 6 meses e se arrepende quando chegou ao front”, é a legenda do post.
Na página, há um aviso sinalizando que o conteúdo é “sintético ou alterado”.
Na descrição do canal, é informado que a página publica conteúdo fictício e criado com IA: “Aqui criamos simulações cinematográficas realistas usando inteligência artificial para homenagear e valorizar o trabalho de policiais e heróis anônimos e levar entretenimento até você”.
Entre 26 e 28 de outubro, @gabrielviciki publicou seis vídeos que supostamente mostravam soldados brasileiros chorando por causa da guerra na Ucrânia, mas todos foram criados digitalmente. No total, eles acumulam mais de 3,3 milhões de visualizações.
Uma pesquisa no canal do YouTube da Legião Internacional para a Defesa da Ucrânia mostra que o uniforme militar do suposto soldado brasileiro não corresponde ao usado por essa força especial.
Além disso, a maioria dos vídeos publicados pelo usuário @gabrielviciki, como o conteúdo viralizado, são verticais e com duração máxima de 15 segundos. Esse é o limite máximo permitido pelo Sora, ferramenta da OpenAI que cria vídeos ultrarrealistas com inteligência artificial.
O Checamos submeteu a imagem à ferramenta de detecção IA Hive Moderation. A plataforma indicou uma chance de 99,9% de o conteúdo ter sido gerado com IA.
De maneira similar, uma análise do áudio, feita com a ferramenta Hiya do InVID WeVerify, indicou 95% de probabilidade de ter sido gerado por inteligência artificial.
A identidade do soldado
Algumas publicações afirmam que o soldado no vídeo seria “Emilio George Ades Georgiades” – em algumas postagens está escrito Emilios, com S no final – , desinformação disseminada principalmente pelo Grok, assistente de IA desenvolvido pela empresa de Elon Musk.
Para tentar identificar o indivíduo, a AFP utilizou a ferramenta de reconhecimento facial PimEyes, mas não encontrou nenhuma correspondência.
Uma pesquisa por palavras-chave no Google revelou que a primeira associação entre o nome “Emilio George Ades Georgiades” e o vídeo é uma publicação no Facebook de 10 de novembro de 2025, da Forbidden News no Facebook, uma conta que afirma compartilhar “todas as notícias, vídeos, informações e artigos que você está proibido de ver na mídia ocidental.”
A AFP identificou que o nome “Emilios George Ades Georgiades” aparece frequentemente na assinatura de outras publicações do “Forbidden News”. A conta compartilha regularmente publicações pró-Rússia de um homem com o mesmo nome, residente em Nicósia, no Chipre, com mais de 14 mil seguidores. Esse homem critica regularmente a Ucrânia e os países ocidentais.
Em 10 de novembro, às 5h16, este usuário publicou uma captura de tela do vídeo viral do jovem brasileiro no Facebook, com a legenda em inglês: “Quero sair daqui. Isto é o inferno na Terra”.
Na sequência, ele afirma: “Mercenário brasileiro que assinou um contrato de seis meses com o regime de Zelensky está publicando apelos emocionados no TikTok e no Telegram pedindo ajuda. Não é como os jogos de guerra que ele costumava jogar online no porão da casa da mãe. Matar russos na vida real significa que eles também podem te matar; e não há um número ilimitado de vidas para continuar esse jogo”.
Horas depois, às 15h19, o perfil “Forbidden News” reproduziu essas palavras literalmente, adicionando o nome de Emilios George Ades Georgiades no início do texto.
Ao Checamos, o Ministério das Relações Exteriores afirmou, em 31 de dezembro de 2025, que há registro de 16 brasileiros falecidos e de 41 desaparecidos no conflito.
Ao Checamos, a Embaixada da Ucrânia no Brasil afirmou, em 6 de janeiro de 2025, que "Emilios George Ades Georgiades não é uma pessoa real" e acrescentou que a Embaixada da Ucrânia no Brasil "não recruta cidadãos brasileiros para participar da guerra. Em todos os casos em que cidadãos brasileiros se alistam no exército ucraniano, fazem-no em território ucraniano e por livre e espontânea vontade".
Este conteúdo também foi verificado pelo Fato ou Fake.
Referências
- Vídeo publicado no YouTube
- Vídeo da Legião Internacional para a Defesa da Ucrânia
- Publicações de Emilios George Ades Georgiades e da conta Forbidden News (1, 2)
6 de janeiro de 2026 Atualiza o penúltimo parágrafo acrescentando a resposta da Embaixada da Ucrânia no Brasil
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