Eder Parecido Jacinto, réu do 8 de janeiro, estava há meses fora da prisão quando faleceu

  • Publicado em 4 de abril de 2025 às 22:22
  • 4 minutos de leitura
  • Por AFP Brasil
Não é verdade que Eder Parecido Jacinto seja o “quarto patriota que morre em prisão” pelos ataques em Brasília de 8 de janeiro de 2023. A alegação enganosa circula desde seu falecimento, em março de 2024, e voltou a ser compartilhada mais de 9 mil vezes um ano após sua morte. A prisão de Jacinto foi revogada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em agosto de 2023, cerca de sete meses antes de seu falecimento. Além disso, à época sua família divulgou uma nota afirmando que a morte de Jacinto não estava relacionada ao período em que ficou preso.

“Mais um patriota morto em cativeiro! Esse já é o quarto patriota que morre em prisão pelo 08.01”, diz uma das mensagens publicadas no X, acompanhada de uma imagem com a foto de um homem e o texto: “Nota de pesar: Comunicamos por meio deste, a morte de Eder Parecido Jacinto, faleceu em decorrência de problemas de saúde. Éder era do inquérito 4922 e o 4 preso político que veio a falecer”.

O conteúdo circula também no Facebook, no TikTok e no Kwai.

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Captura de tela feita em 3 de abril de 2025 de uma publicação no X (.)

As mensagens, que circulam desde março de 2024, ressurgiram em meio à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 26 de março de 2025, de tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado no âmbito dos eventos que envolvem os ataques à Praça dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. Desde então, a Corte já responsabilizou cerca de 900 pessoas pelo ocorrido.

Uma pesquisa no Google por “Eder Parecido Jacinto” levou a uma matéria publicada pelo veículo Gazeta do Povo em março de 2024, com a mesma foto de Jacinto usada nas publicações virais. Segundo o texto, ele — um dos réus no inquérito sobre o 8 de janeiro no STF — havia falecido no dia 4 daquele mês. O texto informa que Jacinto estava em liberdade provisória, com uso de tornozeleira eletrônica, desde que teve sua prisão revogada em 7 de agosto de 2023.

Uma busca pelo nome completo de Jacinto no site do STF mostrou que, de fato, em 7 de agosto de 2023, o ministro Alexandre de Moraes decidiu revogar sua prisão por meio de uma decisão monocrática.

Outra pesquisa no Google, dessa vez pelo nome completo de Jacinto filtrando por resultados publicados entre 4 e 31 de março de 2024, levaram a uma matéria de um veículo local do Pará — estado no qual ele residia — com um pronunciamento de sua família.

Segundo a notícia, a família teria negado qualquer relação entre a morte de Jacinto e o período em que foi encarcerado. O texto inclui uma nota emitida por familiares, em que informam que o falecimento ocorreu por um acidente de trabalho. O documento é assinado pela advogada Kllecia Kalhiane Mota Costa, que também era parente de Jacinto.

Consultada pelo AFP Checamos em 3 de abril de 2025, Costa confirmou a autenticidade da nota, enviando uma cópia do documento.

O documento detalha que Jacinto já estava em casa há meses quando sofreu o acidente que teria resultado em seu falecimento. O texto também afirma que ele “recebeu todo o tratamento necessário e possível para o seu caso junto ao Hospital Regional Público do Araguaia em Redenção-PA” e que “em momento algum o mesmo teve seu tratamento estadiado ou mesmo interrompido por questões processuais ou administrativas, tendo sido autorizado pela central de monitoramento de sua tornozeleira a retirada da mesma sempre que necessário fosse para realização de procedimentos médicos ou exames”.

“A causa morte do falecido em nada tem a ver com sua prisão”, conclui o documento, assinado pela esposa, pelo pai, e pelas duas filhas de Jacinto.

Quarto réu morto

A matéria do Gazeta do Povo afirma que Eder Parecido Jacinto é o “quarto réu dos inquéritos do 8 de janeiro que morre enquanto aguardava julgamento”.

Pesquisas no Google pelos termos “réu morto 8 janeiro” localizaram o registro de um réu pelos atos de 8 de janeiro que, de fato, morreu na prisão: Cleriston Pereira da Cunha, que sofreu um mal súbito durante um banho de sol na Penitenciária da Papuda, em Brasília.

A busca identificou somente dois outros dois réus no inquérito que faleceram. Ambos estavam em liberdade provisória, assim como Jacinto: Giovanni Carlos dos Santos e Antonio Marques da Silva.

Este conteúdo também foi checado pelo UOL Confere, Agência Reuters e Aos Fatos.

Referências

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