Vídeo de 2015 mostra professora tentando dar pílula de ômega-3 a menino, não passar batom

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Um vídeo compartilhado mais de 10 mil vezes desde pelo menos 24 de outubro de 2022 não mostra uma professora tentando passar batom em um menino. A gravação, que já havia viralizado em 2018, voltou a circular nas redes sociais a alguns dias do segundo turno das eleições de 2022, como se retratasse a chamada “ideologia de gênero”. Mas o episódio, ocorrido em 2015, mostra uma professora tentando dar uma pílula de ômega-3 a um aluno.

“*ABSURDO!* UMA PROFESSORA SEGURA O MENINO E OUTRA PASSA O BATOM O MENINO CHORA E IMPLORA PRA NÃO PASSAR , ELAS DEBOCHAM E DÃO RISADA. ISSO É IDEOLOGIA DE GÊNERO ? COMPARTILHE SE NÃO QUER ESSE ABUSO COM NOSSAS CRIANÇAS!”, diz uma das publicações feitas no Twitter. O conteúdo também circula no Facebook, TikTok, YouTube, Kwai e Helo.

Captura de tela feita em 25 de outubro de 2022 de uma publicação no Twitter ( .)

Em um dos comentários no vídeo viral, um usuário afirmou: “Isso foi aqui em Águas Claras-DF...deve ter pelo menos uns 5 anos isso...colégio Ipê Amarelo. Esse colégio nem existe mais...foi adquirido pela rede Marista e as professoras em questão foram demitidas”.

Uma pesquisa pelas palavras-chave citadas no comentário trouxe como resultado uma notícia intitulada “MP processa colégio de Águas Claras, no DF, por agressão a alunos em 2015”. A matéria continha uma versão mais longa do mesmo vídeo viralizado.

O texto, de 2016, informa que os registros foram publicados em julho do ano anterior, e que um deles mostrava um menino sendo puxado pelo braço “enquanto a educadora tenta forçar algo pela boca dele”. Nada é dito sobre uma suposta tentativa de passar batom na criança.

Ainda de acordo com a notícia, as professoras teriam sido demitidas. Mesmo assim, o Ministério Público havia movido uma ação contra o Centro Educacional Ipê, onde ocorreu o episódio, no qual pedia que o dinheiro da indenização fosse revertido a uma escola pública de Taguatinga.

A AFP entrou em contato com o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios - TJDFT e conseguiu localizar o processo no site do tribunal e consultar os documentos públicos.

Na sentença da Terceira Vara Cível de Taguatinga são descritas cenas de maus-tratos que teriam sido praticadas pelas educadoras da instituição contra um dos alunos, representado por sua mãe no processo. Entretanto, não é citado nenhum episódio envolvendo uma tentativa de passar batom na criança.

A cena que mais se aproxima das imagens vistas no vídeo viral teria ocorrido quando uma professora identificada como “Daniele” tentava fazer a criança ingerir uma cápsula de ômega-3 de maneira forçada. De acordo com o documento, foi Bruna da Silva Andrade, que também trabalhava na escola, quem gravou as imagens.

Segundo o texto, Da Silva “presenciou a professora Daniele amassando uma cápsula de ômega 3 em sua mão, com forte cheiro de peixe, dizendo ao autor que aquilo era catarro, enquanto esfregava a mão em seu rosto”. A razão pela qual as professoras quiseram dar Ômega-3 à criança não está clara, tampouco o motivo de terem dito que era catarro.

Pelo fato do incidente não ter sido um caso isolado, a instituição foi obrigada a pagar 30.000 reais à vítima, representada por sua mãe. O colégio declarou à AFP em 2018, por telefone, que “as professoras envolvidas no caso já não têm nenhuma conexão com a escola”.

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