Vista aérea de uma área queimada da floresta amazônica em Apuí, sul do Estado do Amazonas, Brasil, em 21 de setembro de 2022 ( AFP / MICHAEL DANTAS)

Sob Bolsonaro, Amazônia registra tendência de alta no desmatamento

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Em debates e entrevistas antes do segundo turno das eleições de 2022, o presidente Jair Bolsonaro (PL) apresentou dados sobre o desmatamento na Amazônia, assegurando que seu governo tem lidado melhor com o problema do que gestões anteriores. Embora a área desmatada durante os três primeiros anos da sua administração tenha sido menor do que no mesmo período do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), registros oficiais mostram que a tendência desde 2019 é de aumento, enquanto antes era de queda.

Em entrevista em 21 de outubro de 2022, Bolsonaro foi questionado: “O senhor sugeriu que o desmatamento era maior durante o governo Lula, mas isso não responde ou justifica o aumento que está acontecendo na sua gestão”. Exibindo um gráfico, o mandatário respondeu: “Os dados têm mostrado que em outros governos foram maiores [...] o nosso governo foi muito melhor que os anteriores”.

A imagem exibida por Bolsonaro tem sido compartilhada nas redes sociais por apoiadores (1, 2), como a deputada Carla Zambelli, desde 16 de outubro de 2022.

Captura de tela feita em 18 de outubro de 2022 de uma publicação no Facebook ( .)

Os números citados foram retirados da base de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e são reais, mas se referem a áreas queimadas, não sendo usados para dimensionar o desmatamento total de uma zona, que pode acontecer por diversos fatores.

Para a mensuração da taxa de desmatamento, especialistas explicaram que é utilizado o sistema Prodes, também do Inpe, que monitora via satélite a Amazônia Legal.

Uma consulta aos dados do sistema mostra que a área total de floresta destruída durante os três primeiros anos do governo Lula (2003-2010) realmente foi maior em comparação com o mesmo período de Bolsonaro.

No entanto, ao comparar a taxa do ano imediatamente anterior ao início do governo do petista (21,6 mil km²) com a deixada ao final de seu mandato (6,4 mil km²), percebe-se que, ao longo de sua gestão, houve uma redução de cerca de 70% no desmatamento.

O mesmo cálculo com os números relativos a Bolsonaro mostra a tendência contrária: de 2018 (7,5 mil km²) a 2021 (13 mil km²), o desmatamento aumentou em cerca de 73%, como demonstrado no gráfico abaixo.

Captura de tela feita em 24 de outubro de 2022 do mapa publicado pelo Inpe sobre as taxas de desmatamento da Amazônia e 1988 até 2021 ( .)

Em números absolutos, a área desmatada na Amazônia nos três primeiros anos do governo Lula foi de 25,4 mil km², 27,8 mil km² e 19 mil km².

Entre 2006 e 2015 a superfície desmatada foi reduzida significativamente e chegou aos menores patamares históricos, sobretudo no período em que Dilma Rousseff (2011-2015) esteve à frente da Presidência. A partir de então, a área destruída do bioma só aumentou: com exceção de 2017, todos os anos recentes registraram um aumento segundo os dados do Inpe.

Em 2019, o primeiro ano do governo Bolsonaro, a área desmatada foi de 10,1 mil km². Os indicadores continuaram em ascensão em 2020 (10,9 mil km²) e em 2021 (13 mil km²). Os dados de 2022 ainda não foram disponibilizados pelo órgão.

Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostram que a área de desmatamento na Amazônia Legal foi de 9.069 km² de janeiro a setembro deste ano, a maior dos últimos 15 anos para esse período.

Dados absolutos vs. tendência

O site ClimaInfo, especializado em mudanças climáticas, confirma esses dados e avalia: “Mais que os números absolutos, o dado mais importante que a série histórica de desmatamento da Amazônia mostra são as tendências: são elas que mostram o que efetivamente cada governante fez”.

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), concorda:

Tasso de Azevedo, coordenador do MapBiomas, iniciativa do Observatório do Clima que mapeia a cobertura e uso da terra do Brasil, também destacou em entrevista à AFP que é importante considerar qual era o patamar de desmatamento quando os dois governos começaram. Para o especialista, comparar os números absolutos dos governos Lula e Bolsonaro é como equiparar a taxa atual de inflação com os índices da década 90, quando os valores chegavam a 25% ao mês.

“Você vai dizer que a performance do governo Fernando Henrique em relação à inflação foi pior do que no [governo] Bolsonaro? Não. Porque é outro patamar, é outro momento da história. A gente jamais poderia estar ultrapassando 10 mil km² [de área desmatada]. É a mesma coisa que comparar a inflação hoje com a fase pré Plano Real. No Plano Real era outro país, outra história”, disse.

“A questão é inequívoca: o Brasil desmata mais”, conclui.

A atual tendência de aumento do desmatamento pode ser explicada, afirma Paulo Barreto, co-fundador do Imazon, pelo enfraquecimento da legislação ambiental no Brasil e a aceleração do desmatamento a partir do governo de Michel Temer (2016-2018), agora impulsionada por Bolsonaro.

“Bolsonaro potencializa isso que já estava acontecendo junto de um discurso agressivo contra os órgãos ambientais”, afirma.

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