Supostos áudios de Lula e Gleisi Hoffmann após debate foram editados e circulam desde 2017

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Um compilado de áudios da presidente do Partidos do Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, e do candidato do partido à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, circula nas redes sociais como se fosse um diálogo de bastidores entre os dois políticos após um debate em 2022. No entanto, a sequência, compartilhada mais de 3 mil vezes desde 1º de setembro de 2022, é falsa e utiliza falas antigas dos dois para simular uma conversa.

O conteúdo é compartilhado com a legenda “Bastidores pós-debate” em publicações que circulam no Facebook (1, 2), Kwai (1, 2) e Instagram (1, 2). O material também foi enviado ao WhatsApp do AFP Checamos para verificação.

Combinação de capturas de tela feita em 12 de setembro de 2022 de publicações no Facebook ( .)

Mas esse diálogo, que remete a uma suposta conversa de bastidores ocorrida após o debate presidencial realizado nos estúdios da TV Bandeirantes em 28 de agosto de 2022, não existiu. Os áudios utilizados na sequência viral foram editados e circulam separadamente nas redes desde 2017.

A sequência, de um total de quase três minutos, se inicia com a presidente nacional do partido dizendo que “o que estão fazendo com o presidente Lula é uma coisa sem precedente nesse país porque na cabeça deles tem que humilhar. Portanto, é fundamental a gente ficar alerta com isso”.

Então Lula supostamente responde: “É muito pior do que eu imaginava, eu não tinha noção do quanto é difícil, do quanto é complicado”.

Depois aparece a voz Hoffmann novamente: “Vamos com Lula até às últimas consequências, câncer do nosso partido a militância social dos movimentos que sempre lutaram ao nosso lado não vão aceitar pacificamente se eles querem é trucar, saber se nós vamos pagar pra ver, nós não vamos deixar isso acontecer dessa forma.”

Em seguida, segundo o conteúdo, o candidato do PT continua: “Primeiro, eu queria chamar a atenção de vocês para uma coisa. Eu estava aqui ouvindo os companheiros falarem e eu fiquei impressionado com a quantidade de gente e parece que a reunião aqui não estava acontecendo. Isso, eu no diretório do PT, eu já levantei para contar. A Gleisi tava falando, tinha 27 pessoas, e os caras tavam conversando talvez com o Canadá, com a Austrália, com a China. Eu, sinceramente, fico muito puto”.

Nesse momento, há um corte abrupto no áudio e, depois, surge Hoffmann falando:

“Bolsonaro da extrema direita veio, ocupou o espaço da direita, e nós vamos de novo ver se repetir aí esse bloco da direita liberal indo com Bolsonaro, torce um pouquinho o nariz, mas vai lá, porque tem projeto econômico, o que é tudo que eles precisam, porque é natural o PT polarizar pelo tamanho do partido e tem um competitividade. O Brasil é diferente de São Paulo, a diversidade do Brasil, as regiões, então é muito difícil (...), aí veio o caso Moro. O Moro achou que ia abalar os alicerces da nação (...). Aconteceu alguma coisa? Bolsonaro não deu bola pra ele. Moro não sei nem por onde anda”.

A partir de 2 minutos e 11 segundos, começa o suposto diálogo entre um assessor e um motorista não identificados.

O assessor pergunta, segundo as legendas da publicação viral: “Vocês foram direto pra casa do seu Lula ou você ainda foi na laçadinha do PT?”

O motorista responde: “Não, cara! A gente foi direto pra casa dele, a dona Gleisi veio com a gente também, o Janones veio no carro, desde que ele saiu do debate, ele entrou no carro, já veio chorando. Ele tá muito abatido com esse negócio de ficarem falando aí, que ele é ex-presidiário, que ele é ladrão, ele não sabia que o Brasil tava assim, ele tava tão queimado, ele nem quis ir lá para sede, quis ir direto para casa dele”.

As falas de Gleisi Hoffmann

Uma busca pelas palavras-chaves “Lula”, “Gleisi Hoffmann” e “últimas consequências” mostra que a primeira parte da sequência viral foi extraída de uma entrevista coletiva de Gleisi Hoffmann em 12 de março de 2018, na qual a deputada federal comentava sobre a prisão de Lula. O vídeo com a sua declaração pode ser encontrado no canal do UOL no YouTube.

Desse mesmo vídeo foi extraída a segunda fala de Hoffman no áudio. Na versão original, no entanto, ela não chama a militância do partido de “câncer”:

“Vamos com Lula até as últimas consequências. Nós não vamos aceitar mansamente a prisão do Lula. A militância do nosso partido, a militância social dos movimentos que sempre lutaram ao nosso lado não vão aceitar pacificamente. Se eles querem trucar, saber se nós vamos pagar, nós vamos pagar para ver. Nós não vamos deixar isso acontecer dessa forma”.

Uma nova busca por palavras-chave mostra que a terceira fala da deputada é de uma entrevista concedida ao programa Poder em Foco em 13 de setembro de 2020, que pode ser encontrada no canal do site Poder360 no YouTube.

A partir de 17 minutos e 53 segundos ela faz uma análise sobre a conjuntura das eleições de 2022. Esse fragmento já foi verificado pelo Checamos em 9 de setembro de 2022 devido a publicações alegando que a presidente do partido previa uma derrota do PT após o primeiro debate deste ano.

As falas de Lula

Já a primeira fala de Lula na sequência é oriunda de uma entrevista que o ex-presidente deu ao jornalista Kennedy Alencar em 26 de abril de 2017. Na ocasião, Lula respondia sobre a morte de sua esposa, Marisa Letícia, em 3 de fevereiro de 2017. O vídeo completo de onde o trecho foi retirado pode ser encontrado no canal do SBT News no YouTube.

A partir de 29 minutos e 11 segundos, Lula diz: “Mas 43 anos de convivência que eu tive com a Marisa, ou seja, é muito pior do que imaginava. Eu não tinha noção do quanto é difícil, do quanto é complicado, você chegar em casa de noite e não ter mulher”.

Já a suposta reclamação do ex-mandatário, que o vídeo alega ser com assessores presentes do debate presidencial de agosto de 2022, é retirada de uma participação do candidato em um debate com a Frente Única dos Petroleiros (FUP) em 29 de março de 2022, transmitido ao vivo pelo canal de Lula no YouTube.

Ele, na verdade, reclamava da quantidade de pessoas no celular, enquanto outras falavam. A partir de 1 hora, 25 minutos e 31 segundos é possível ver que ele diz:

“Bem, companheiros e companheiras, primeiro, eu queria chamar a atenção de vocês para uma coisa. Eu estava aqui ouvindo os companheiros falarem, e eu fiquei impressionado com a quantidade de gente no celular. Me parece que a reunião aqui não estava acontecendo, o que estava acontecendo era a reunião que vocês estavam vendo no celular de vocês. Isso, no diretório do PT, eu já levantei para contar. A Gleisi estava falando e tinham 27 pessoas no celular. Eu, sinceramente, fico muito puto, porque a moça estava falando em um hotel lá em São Paulo e os caras estavam conversando, talvez, com o Canadá, com a Austrália, com a China, ninguém estava preocupado com o que ela estava falando”.

O diálogo entre o assessor e o motorista

A última parte da sequência, de um suposto diálogo entre um assessor e um motorista não identificados, não foi encontrada a partir de pesquisas por palavras-chaves na internet.

A assessoria de imprensa de Hoffmann disse à AFP que, “na noite do debate da Band, a deputada deixou a televisão acompanhada apenas do deputado André Janones (Avante-MG). O presidente Lula não estava com eles”.

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