Presidente Jair Bolsonaro discursa durante a 77ª Assembleia Geral da ONU em 20 de setembro de 2022, em Nova York ( AFP / Timothy A. Clary)

Checamos as principais alegações de Jair Bolsonaro na 77ª Assembleia Geral da ONU

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Em seu discurso durante a 77ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 20 de setembro de 2022, o presidente Jair Bolsonaro falou sobre economia, combate à corrupção, imigração e proteção às mulheres, dentre outros tópicos. Entretanto, o mandatário forneceu dados incorretos e proferiu alegações falsas ou enganosas sobre esses temas. Confira abaixo a verificação feita pela AFP dos principais pontos do discurso do presidente.

“Combatemos a violência contra as mulheres com todo o rigor. [...] Os resultados aparecem em nosso governo: a queda de 7,7% no número de feminicídios”: Falso

O número citado pelo presidente é falso, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

De acordo com o Código Penal brasileiro, feminicídio é um tipo de homicídio praticado contra mulheres pelo fato de serem do sexo feminino.

Em 2018, último ano antes de Jair Bolsonaro assumir a Presidência do Brasil, houve um total de 1.229 feminicídios no Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, elaborado pelo Fórum.

Já os dados mais recentes, contidos no Anuário de 2022, mostram que houve 1.341 feminicídios em 2021. Ou seja, não houve queda no número de feminicídios de 2018 a 2021.

A taxa de feminicídio a cada 100 mil mulheres também permaneceu a mesma tanto em 2018 quanto em 2021, mantendo-se em 1,2.

Já de 2020 a 2021, o Anuário indica que houve uma queda de 1,7% na taxa de feminicídios. O documento destaca, ainda, que apesar da queda no número de feminicídios, “praticamente todos os indicadores relativos à violência contra mulheres apresentaram crescimento” em 2021.

A queda de 7,7% pode ser obtida a partir da diferença percentual entre a taxa de 1,3 feminicídio a cada 100 mil mulheres em 2020 e a taxa de 1,2 registrada em 2021, já que a diferença entre esses números é de 7,69%. Entretanto, procurado pela AFP em 20 de setembro, o Fórum de Segurança Pública reafirmou que a queda na taxa de 2020 a 2021 foi de 1,7% e que o número de feminicídios caiu 0,7% no Brasil entre os anos de 2019 e 2021, com base nos registros obtidos junto às secretarias estaduais de segurança. O Fórum também acrescentou que não é adequado calcular a queda percentual a partir da variação nas taxas a cada 100 mil mulheres, pois os valores das taxas são aproximados.

“No meu governo, extirpamos a corrupção sistêmica que existia no país”: Enganoso

A fala do mandatário omite o fato de que existem investigações e suspeitas de corrupção em seu governo.

Em outubro de 2019, a Polícia Federal indiciou o então ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, por supostos crimes envolvendo candidaturas femininas do PSL, partido que elegeu Bolsonaro em 2018. O ex-ministro era acusado de associação criminosa e de apropriação indébita de recursos eleitorais.

Em abril de 2021, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi alvo de uma operação da Polícia Federal por suspeita de agir em favor do interesses de madeireiros investigados por extração ilegal.

Na área da Saúde, também existem suspeitas de corrupção. Um dos casos envolvia documentos do Itamaraty que mostraram que o governo negociou a compra da vacina indiana Covaxin por um preço 1.000% maior do que o anunciado seis meses antes pela fabricante, algo que também foi apurado pela CPI da Pandemia.

Também em junho de 2021, Roberto Ferreira Dias, ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, foi acusado de pedir propina para autorizar a compra de vacinas contra a covid-19 pelo governo, segundo denúncias da imprensa.

Na área da Educação, em março de 2022, o então ministro da pasta, Milton Ribeiro, foi alvo de um inquérito do Ministério Público para apurar o suposto tráfico de influência e corrupção para liberação de recursos públicos em favor de aliados políticos e pastores evangélicos. O ex-titular da pasta foi preso preventivamente em junho de 2022.

A ONG Transparência Brasil divulgou em 20 de setembro um relatório, enviado à ONU, no qual aponta retrocessos do Brasil no combate à corrupção, incluindo interferência do governo federal em órgãos anticorrupção, como o Coaf e a Receita Federal.

“Nos últimos meses, chegam por dia ao Brasil, a pé, cerca de 600 venezuelanos”: Enganoso

O dado citado por Bolsonaro corresponde à cifra de pessoas que vinham da Venezuela para o Brasil em 2018.

Segundo o Informe de Migração da Venezuela, produzido pela Casa Civil, em julho de 2022, último mês disponível, o país recebeu 11.270 migrantes da Venezuela, o que equivale a uma média de 363 imigrantes por dia.

Fazendo a média a partir do total de 87.836 imigrantes que entraram no Brasil de janeiro a julho de 2022, segundo a mesma fonte, a média de entradas diárias esse ano tem sido de 414.

“Dois terços de todo o território brasileiro permanece com vegetação nativa, que se encontra exatamente como estava quando o Brasil foi descoberto, em 1500”: Sem Contexto

Segundo levantamento do MapBiomas, em 2021, cerca de 66% do território brasileiro estava coberto por vegetação nativa. O número é próximo ao citado por Bolsonaro.

No entanto, isso não demonstra que essa vegetação não sofreu com a ação humana desde 1500, quando os portugueses iniciaram a colonização do Brasil. Segundo o mesmo projeto, em 2020, 8,2% da vegetação nativa no Brasil foi caracterizada como "secundária", ou seja, que já foi desmatada pelo menos uma vez

Essa porcentagem corresponde a 45,3 milhões de hectares (Mha), ou dez vezes o tamanho do estado do Rio de Janeiro, destaca o MapBiomas.

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