O vídeo de manifestantes jogando pedras contra policiais na Argentina não é de 2022, mas de 2017

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  • Publicado em 28 de junho de 2022 às 22:49
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  • Por AFP Brasil
Voltou a circular uma sequência em que se vê manifestantes atirando pedras e gritando para policiais, compartilhada dezenas de vezes em junho de 2022 nas redes sociais, acompanhada da afirmação de que se trata do “que está acontecendo" na Argentina. O vídeo, que foi registrado em Buenos Aires, no entanto, é de dezembro de 2017 e mostra um protesto contra a reforma previdenciária, quando o presidente Mauricio Macri ainda estava no poder. 

“Veja o socialismo o que está fazendo na nossa vizinha Argentina”, “Olhem o que está acontecendo na Argentina”,  disseram usuários que compartilharam a sequência  no Twitter (1, 2) e no Facebook (1, 2). O mesmo vídeo tem sido compartilhado no Kwai (1, 2) desde abril. 

O conteúdo faz referência ao governo do presidente Alberto Fernández e de sua vice, que também é ex-presidente do país, Cristina Kirchner, eleitos em 2019. 

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Captura de tela feita em 28 de junho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

A sequência, na qual manifestantes gritam, insultam e atiram objetos contra policiais, que se protegem com escudos, circulou anteriormente com a alegação de que havia sido registrada na Espanha, na Costa Rica e na própria Argentina, mas em 2021.  

Uma busca no Google pelos termos em espanhol “polícia contra distúrbios” e “polícia de la” - frase contida nos escudos dos policiais - mostrou entre os resultados fotografias de agentes na Argentina com equipamentos de proteção semelhantes aos vistos no vídeo, nos quais se lê a frase completa: “Polícia de la ciudad”

Um dos resultados no Google levou ao site da Polícia da Cidade de Buenos Aires, enquanto o mesmo uniforme dos agentes visto no vídeo pode ser observado nessa gravação publicada no Twitter. 

Ao analisar os detalhes do vídeo viralizado nas redes, veem-se postes dourados e um cartaz de propaganda que coincidem com os que existem na capital argentina, como pode ser observado no Google Maps. Esses anúncios e postes localizam-se em várias praças da cidade como a Praça de Maio e a Praça do Congresso

Um percurso virtual por ambos os locais usando a ferramenta “Street View” do Google Maps permitiu que a equipe de verificação da AFP encontrasse o ponto exato onde o vídeo foi gravado: em um dos lados da Praça do Congresso.

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Comparação de capturas de tela feita em 27 de junho de 2022 entre o vídeo viralizado (E) e a Praça do Congresso de Buenos Aires no Google Street View ( . / )

A reforma previdenciária, origem dos protestos

Uma segunda pesquisa no Google, dessa vez, pela frase, em espanhol, “brigas entre manifestantes e policiais em Buenos Aires na Praça do Congresso” levou a um vídeo datado de 18 de dezembro de 2017 que mostra o mesmo fato, mas de outro ângulo. 

Em 2017, o presidente ainda era Mauricio Macri (2015-2019), que deixou o cargo após Alberto Fernández ser eleito no primeiro turno das presidenciais de 2019. 

A sequência viralizada foi registrada em frente ao edifício do Congresso argentino durante o debate da lei de reforma previdenciária naquele dia. 

Na data, a AFP informou que o conflito durou cerca de quatro horas: “Ativistas lançavam pedras, garrafas e rojões. Os batalhões policiais fizeram eles recuarem com gás lacrimogêneo e balas de borracha, deixando vários feridos dos dois lados”.  

O confronto também foi gravado em vídeo pela AFP.

Uma busca pelos termos “incidente”, “Congresso” e “Polícia de Buenos Aires” no site da agência de notícias argentina Télam levou a uma galeria de fotos com algumas imagens que correspondem a momentos-chave do vídeo. 

Uma das fotografias, que coincide com a cena vista aos 49 segundos da gravação viralizada, mostra um policial atirado no chão. Um companheiro o ajuda enquanto um manifestante o atinge com uma bandeira vermelha e amarela. 

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Comparação de capturas de tela feita em 26 de junho de 2022 entre o vídeo viralizado (E) e a foto no site da Télam ( . / )

No conteúdo viralizado afirma-se em um texto sobreposto que a Corte Suprema de Justiça da Nação, o equivalente argentino ao Supremo Tribunal Federal (STF), foi fechada durante os protestos.

Uma busca pela palavra-chave em espanhol “fechamento” no site do Tribunal não levou a nenhuma notícia relacionada a esse suposto ocorrido desde 2017.

Uma segunda pesquisa, dessa vez pelas palavras-chave em espanhol “fechamento” e “Corte Suprema” no site dos jornais argentinos Clarín e La Nación, também não resultou em nenhuma notícia sobre o fechamento da Suprema Corte argentina no mesmo período. 

“O presidente, senadores e deputados da esquerda estão escondidos, não apareceram na Câmara, Senado nem no STF”, diz um outro texto sobreposto na sequência viral.  No entanto, na semana finalizada em 26 de junho, a Câmara dos Deputados e o Senado tiveram uma agenda normal.

O AFP Checamos já verificou (1, 2) outros conteúdos a respeito da suposta situação na Argentina. 

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