Saques de aves e porcos não foram gravados na Argentina, mas durante protestos na Colômbia

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Dois vídeos em que grupos de pessoas roubam aves e porcos de propriedades privadas foram visualizados dezenas de milhares de vezes em publicações que asseguram mostrar uma consequência do retorno da esquerda ao poder na Argentina. “Avicultores, suinocultores são atacados pela população faminta”, dizem as postagens compartilhadas ao menos desde o último dia 14 de maio. Mas as imagens não foram gravadas na Argentina e sim no município colombiano de Puerto Tejada, durante a onda de protestos antigoverno vivida no país desde abril de 2021.

“VEJAM O QUE FAZ A FOME. Avicultores e suinocultores são atacados, na Argentina, pela população faminta. Nenhum negócio está seguro lá. Deixaram a ESQUERDALHA MALDITA voltar ao poder, e a Argentina já é o sétimo país do mundo em miséria”, diz a legenda de uma das publicações compartilhadas mais de 1.500 vezes no Facebook (1, 2, 3), Instagram e Twitter.

O conteúdo, que também foi enviado ao WhatsApp do AFP Checamos para verificação, faz referência ao governo de Alberto Fernández, e de sua vice e ex-presidente do país Cristina Kirchner, eleitos na Argentina em 2019. 

Capturas de tela feitas em 19 de maio de 2021 de publicações no Twitter e no Facebook

Mas os vídeos dos saques a criadouros de porcos e galinhas não foram gravados na Argentina.

Instabilidade na Colômbia

Uma busca no Google pelas palavras-chave “roubo”, “porcos” e “galinhas”, em espanhol, levou a diversos artigos (1, 2, 3) reportando a ocorrência de saques semelhantes no último dia 6 de maio no município de Puerto Tejada, departamento de Cauca, na Colômbia.

As matérias são ilustradas com capturas de tela do vídeo em que pessoas carregam porcos à força e algumas mencionam, também, que uma granja avícola da região foi saqueada no mesmo dia.

Uma das reportagens, do veículo local Tu Barco, detalha que o roubo de porcos aconteceu na fazenda La Holanda, localizada na estrada que leva ao município de Puerto Tejada, e que a ocorrência foi atendida pela polícia de Padilla, município vizinho.

Contactado pela equipe de checagem da AFP na Colômbia, o dono do criadouro de porcos La Holanda, Hector Fabio García, confirmou que o saque visto em um dos vídeos viralizados aconteceu em sua propriedade no último dia 6 de maio.

“Inicialmente, chegou à fazenda um grupo com 20 motos e dois carrinhos de mão cheio de gente pedindo uma colaboração de forma ameaçadora, com facões”, disse. “Meu irmão estava no processo, rodeado por umas 150, 200 pessoas que, com facões na mão, pegaram a chave da casa e entraram, fazendo o que mostram os vídeos”.

A informação foi reiterada à AFP pelo delegado da polícia de Padilla, Edwin Ortíz, que confirmou que o roubo de aves visto no segundo vídeo compartilhado nas redes também aconteceu em Puerto Tejada, no mesmo dia.

“As pessoas começaram a tirar os porcos à força e os massacraram [...], os roubaram, levando-os em cima de motos”, contou. “Pessoas de diferentes localidades [...], mas os de Puerto Tejada foram os que mais saquearam. Houve também uma granja de galinhas”, acrescentou.

De fato, em um terceiro vídeo compartilhado nas redes sociais, uma mulher se identifica como funcionária do criadouro de galinhas que foi saqueado e informa que o roubo aconteceu em uma granja na Colômbia. Ao longo da gravação é possível identificar alguns dos mesmos elementos vistos no vídeo viralizado. 

Comparação feita em 19 de maio de 2021 entre vídeos publicados no YouTube e Facebook

Desde o final de abril, manifestantes ocupam as ruas na Colômbia, protestando contra medidas econômicas tomadas pelo governo de Iván Duque e abusos policiais, em meio à deterioração social agravada pela pandemia. A agitação social desencadeou casos de saques e atos de vandalismo pelo país.

Embora as gravações não tenham sido feitas na Argentina, o país sul-americano enfrenta graves dificuldades econômicas, tendo suspendido as exportações de carne bovina no último dia 18 de maio em uma tentativa de frear o aumento do preço do produto no mercado interno.

Conteúdo semelhante foi verificado pelos sites Aos Fatos e Estadão Verifica.