Globo não admitiu em reportagem que urnas podem ser fraudadas; vídeo viralizado foi editado

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Desde 2021, usuários compartilham uma reportagem jornalística da Rede Globo garantindo que, nela, a emissora teria admitido a chance de fraude nas urnas. Em maio de 2022, o conteúdo voltou a circular e foi compartilhado mais de 28 mil vezes. Mas essas publicações são enganosas, já que omitem trechos da reportagem original. A matéria completa, exibida em 2008, falava sobre uma quadrilha que se dizia capaz de manipular eleições a favor de determinado candidato - uma alegação que era confrontada, na reportagem sem cortes, por um especialista e pelo então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Globolixo sendo globolixo antes existia fraude com exibição nacional num programa domingueiro. Agora que o presidente Jair Messias Bolsonaro levantou a questão. Estão todos contra ele”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook. O conteúdo também foi difundido no Instagram, Twitter, YouTube, TikTok e Kwai.

Mensagens similares circulam desde 2021.

Captura de tela feita em 26 de maio de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

As publicações são acompanhadas por uma reportagem de cerca de 2 minutos sobre uma quadrilha que promete ser capaz de eleger qualquer candidato em qualquer cidade do país pelo valor de R$ 2 milhões. “Todo processo eleitoral no país inteiro (...) pode ser burlado”, diz um dos homens, identificado como Márcio, que oferece a “venda” de resultados eleitorais aos candidatos.

Em seguida, o homem - descrito como “golpista” pela narração da reportagem - explica como seria capaz de fraudar as eleições e garantir a vitória do candidato que o “contratasse”. A manipulação seria feita no dia da eleição usando as senhas do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de outros integrantes da Corte.

Em uma versão mais longa do conteúdo viral, com 3 minutos e 53 segundos de duração, o homem afirma que saberia todas as senhas dos integrantes da Corte e que teria, inclusive, hackeado uma delas. Ainda na versão mais longa, outro integrante do esquema ilegal também é entrevistado e garante “110% de certeza” de que seria possível fraudar a urna eletrônica.

Contudo, ambas as versões viralizadas dessa reportagem estão editadas.

Trechos omitidos

Uma busca no Google pelas palavras-chave “golpe 2 milhões votos ganhar eleição” trouxe como resultado uma reportagem de 17 de agosto de 2008 do portal G1, com informações do programa Fantástico, intitulada “Homens tentam aplicar golpe com promessa de eleição garantida”.

A matéria, que descreve os mesmos trechos de entrevistas vistos no vídeo viral, é acompanhada do seguinte subtítulo: “Eles afirmam que podem decidir quem ganha a eleição. Especialista diz que fraude em eleições é praticamente impossível”.

O Checamos solicitou à assessoria de imprensa da Rede Globo a reportagem exibida no programa Fantástico nessa data e, com o vídeo completo, pôde confirmar que as publicações virais foram editadas e que a matéria exibida em 2008 incluía os contrapontos relatados no texto do G1.

A matéria na íntegra tem 5 minutos e 23 segundos de duração. Já os conteúdos virais, têm, em sua versão mais longa, 3 minutos e 53 segundos.

A reportagem completa do Fantástico deixa claro que tinha como tema uma tentativa de golpe de indivíduos que se diziam capazes de fraudar uma eleição, e não sobre uma possibilidade real de fraude nas urnas. O vídeo também permite verificar que a matéria continha trechos que foram omitidos nas publicações viralizadas.

No primeiro segmento omitido, o ex-ministro Ayres Britto, que à época ocupava a presidência do TSE, confronta a alegação do homem identificado como Márcio de que seria possível manipular os resultados eleitorais usando a senha do chefe da corte. “Minha assinatura digital nem foi colhida, de maneira que ele não tem essa senha, nem nunca vai ter”, afirmou.

Nesse sentido, uma pesquisa pelos termos "fantástico ayres britto urnas eletrônicas” levou a uma notícia publicada em 18/09/2008, na qual o magistrado abordou a matéria do programa Fantástico e alegou que, caso o programa da urna seja alterado, ela é projetada para se autodefender imediatamente.

Outro trecho omitido pelas publicações é uma entrevista com Fabiano Essel, professor de informática da PUC de Porto Alegre (RS). Segundo ele, para quebrar a criptografia que protege as senhas e fraudar as urnas eletrônicas seria necessária uma estrutura computacional de capacidade extremamente grande, de modo que o docente afirmou considerar “praticamente impossível” a fraude em uma eleição.

Há, ainda, uma entrevista com Cássio Zasso, então coordenador de Eleições do TRE-RS, na qual o representante da Justiça Eleitoral afirma que sempre existem “aproveitadores” que tentam vender serviços que são “impossíveis” de serem realizados.

Uma verificação semelhante foi feita pelo Fato ou Fake, site de checagem de fatos do grupo Globo, que também divulgou a matéria do Fantástico exibida na íntegra em 17 de agosto de 2008.

Este conteúdo também foi verificado pela Agência Lupa, pelo portal Aos Fatos e pelo Estadão Verifica.

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