A autoridade sanitária dos EUA não recomendou raspar a barba para se proteger do novo coronavírus

Publicações compartilhadas em múltiplos idiomas afirmam que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos recomendou que as pessoas removam pelos faciais para evitar o contágio pelo coronavírus.  Em muitos casos, as postagens se baseiam em uma infografia que explica como os diferentes tipos de barba e bigode influenciam na aderência das máscaras de proteção. No entanto, este gráfico é de 2017, antes da epidemia da COVID-19, e a organização não recomenda o uso de máscaras à população geral.

“Seu cabelo FACIAL pode colocar você em risco de coronavírus: o CDC revela que costeletas de carneiro e barbas cheias podem tornar uma máscara facial inútil”, diz uma das publicações que acompanha a infografia e um artigo em inglês, intitulado: “Homens com bigode podem ter maior risco de coronavírus, alerta gráfico”.

“Vou ter de desfazer a barba!?!?! Por causa do #coronavirus”, escreveu outro usuário ao publicar a imagem.

A infografia também foi incluída em um vídeo da rede CNN em espanhol, assim como em outras publicações no Facebook (1, 2) e Twitter (1, 2) que citam textos em inglês intitulados: “CDC recomenda raspar pelo facial para se proteger contra o coronavírus” e “O CDC tem opiniões sobre cavanhaques e costeletas. E tem a ver com prevenir o coronavírus”.

Outros artigos (1, 2) mencionam o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA e o risco de contágio pelo novo coronavírus, mas sem incluir a imagem em questão. “Raspe [sic] suas barbas para evitar o coronavírus - alerta o CDC”, diz este artigo, por exemplo. 

Capturas de tela feitas em 5 de março de 2020 mostram publicações compartilhadas no Twitter e no Facebook


A desinformação também circulou amplamente em espanhol, inglês e francês, somando mais de 8 mil compartilhamentos em todos os idiomas.

Uma infografia de 2017

A infografia compartilhada em algumas das publicações mostra mais de 30 ilustrações de diferentes tipos de barba e bigode, cada um com um nome. A imagem é intitulada, em tradução livre do inglês, “Estilos de pelos faciais e máscaras respiratórias com filtro”.

Debaixo de cada uma das ilustrações, é indicada a eficácia do uso das máscaras dependendo da quantidade de pelo nas barbas, costeletas e bigodes. Em nenhum momento o infográfico faz referência à necessidade de remover estes pelos faciais.  

Captura de tela feita em 3 de março de 2020 mostra infografia publicada originalmente no site do CDC

A AFP Factuel confirmou que a infografia é autêntica, mas que foi divulgada em 2017, dois anos antes do início da epidemia do novo coronavírus.

O gráfico foi publicado no site do CDC em 2 de novembro de 2017, por ocasião do movimento “Movember”, que promove o crescimento dos pelos faciais para gerar conscientização sobre o câncer de próstata e de testículo, assim como a saúde mental.

A infografia não fala de uma simples máscara cirúrgica, mas de “máscaras autofiltrantes (Filtering Facepiece: FFP)”, modelos mais grossos, elaborados e com um maior nível de proteção, destinados a profissionais da área da saúde.

Ao contrário das máscaras cirúrgicas simples, as máscaras FFP devem ser ajustadas no rosto, o que pode fazer com que o pelo da barba dificulte sua adesão.  

As máscaras FFP devem ser utilizadas de forma cuidadosa para que sejam herméticas e efetivas. A máscara de proteção desse tipo mais conhecida nos Estados Unidos é a N95, como explica o CDC.

Em 3 de março de 2020, o CDC atualizou sua infografia, acrescentando o subtítulo: “destinado a trabalhadores que utilizam máscaras ajustadas”.

No alto da página, também incluíram o seguinte alerta: “Este blog e este infográfico de 2017 são destinados a trabalhadores que utilizam respiradores no trabalho”, direcionando o leitor a um outro site dedicado exclusivamente à COVID-19.

Portanto, a infografia que voltou a circular recentemente - sem o subtítulo sobre os trabalhadores - não se refere ao novo coronavírus e é voltada para certos tipos de máscaras. Além disso, o uso de máscaras ou respiradores só é recomendado para profissionais em contato com pacientes ou pessoas com sintomas da COVID-19.

Frente à repercussão da imagem, o CDC alertou também no Twitter que o gráfico é destinado a trabalhadores que precisam utilizar máscaras ajustadas, mas não para o público em geral.

“O CDC não recomenda atualmente que o público em geral utilize máscaras faciais ou respiradores para a #COVID19. Este gráfico de 2017 do @NIOSH é para profissionais que utilizam respiradores herméticos”, tuitou a organização, mencionando o Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH), que certifica esse tipo de máscara nos EstadosUnidos.

Autoridades de muitos países também afirmam que não é necessário utilizar máscaras faciais se a pessoa não está infectada com o novo coronavírus.

O cirurgião-geral dos EUA, Jerome M. Adams, pediu no Twitter no último dia 29 de fevereiro: “PAREM DE COMPRAR MÁSCARAS”, acrescentando que elas não são efetivas para evitar que a população geral contraia o novo coronavírus.

O uso de máscaras em reação à epidemia do novo coronavírus está provocando a escassez desses e de outros equipamentos de proteção, alertou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 7 de fevereiro. Até 5 de março, o COVID-19 deixou mais de 3.200 mortos, em 84 países e territórios.

Em resumo, a autoridade sanitária dos Estados Unidos não recomendou raspar a barba, nem indicou que ter barba ou bigode aumente o risco de contrair o novo coronavírus. A desinformação se baseia em uma infografia oficial que data de 2017, antes da aparição do vírus, e destinada a profissionais de saúde que usam máscaras ajustadas, e não à população em geral.

A AFP já verificou outras desinformações sobre o coronavírus, disponíveis neste artigo.