A UFMG não tem estudos que relacionem o suco de inhame cru com a cura dos sintomas da dengue

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Publicações compartilhadas mais de 620 mil vezes nas redes sociais ao menos desde 2014 afirmam que, segundo um estudo realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais, tomar suco de inhame cru corta os efeitos da dengue em somente quatro horas. A UFMG, no entanto, negou haver trabalhos nesse sentido. Além disso, a Sociedade Brasileira de Infectologia assinala que apesar de ser um alimento nutritivo, não há comprovação científica de seu efeito na melhora dos sintomas da doença.

“ATENÇÃO: DENGUE- URGENTE Se você está com Dengue preste atenção: de acordo com um estudo realizado pela UFMG (mas inda não divulgado), o suco feito de inhame (carazinho) corta os efeitos da Dengue em apenas 4 horas. O inhame deve ser batido cru no liquidificador, apenas com água. Compartilhem! [sic], dizem os textos das postagens (1, 2, 3, 4), que circulam há pelo menos seis anos e já foram compartilhadas mais de 620 mil vezes nas redes sociais.

Captura de tela feita em 19 de fevereiro de 2020 no Facebook

Nos comentários das postagens há diferentes reações ao conteúdo das publicações como: “E funciona mesmo, comprovado por mim”, “Eu fiz quando estava com dengue ano passado nao mudou nada ! So o gosto que é horrivel ! [sic] e “Se nao funcionar, pelo menos faz bem pra saude [sic].

A equipe do AFP Checamos entrou em contato por e-mail com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para saber se, de fato, há algum estudo que relacione o consumo do suco de inhame cru a uma possível cura ou melhoria da dengue e seus sintomas.

A instituição respondeu: “Não identificamos esse estudo. Em uma busca em nossos arquivos sobre o assunto, encontramos, na verdade, um material produzido pela TV UFMG sobre mitos e verdades em relação à dengue”, mencionando “o suco de inhame como receita que as pessoas usam em casos da doença”.

No vídeo em questão, a professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG Marise Fonseca afirma: “não existe estudo que comprove a eficácia, a efetividade, desse recurso [suco de inhame cru] na dengue. Os nutricionistas apontam para a importância do cará como estimulador do sistema imune, e isso seria importante em qualquer doença, inclusive para manter a saúde”.

De fato, em uma busca no Google pelos termos “UFMG suco de inhame dengue” não há registros de estudos ou pesquisas realizados pela instituição que confirmem a afirmação viralizada nas redes sociais.

O AFP Checamos também entrou em contato com a assessoria de imprensa da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) para esclarecer se, para além da existência do possível estudo da UFMG, haveria como relacionar o consumo do suco de inhame com a cura da dengue ou a melhora dos sintomas da doença.

De acordo com Melissa Falcão, consultora da SBI e infectologista, “o inhame é um alimento nutritivo, possui vitaminas e minerais que fazem com que seja popularmente conhecido como ativador da imunidade”, no entanto “não existe nenhuma comprovação científica do efeito do inhame na melhora dos sintomas da dengue ou da plaquetopenia. A baixa das plaquetas na dengue é autolimitada”, mas estas subirão novamente “após melhora da circulação do vírus no sangue independente de medicações ou alimentos ingeridos”.

Ainda segundo a consultora, afirmações como as que viralizaram de que o suco de inhame pode curar os sintomas da dengue em apenas quatro horas geram riscos “porque na busca por tratamentos milagrosos, as pessoas acabam deixando de procurar um serviço de saúde para as orientações necessárias, como a hidratação, que é o ponto-chave no tratamento da dengue”.

No ano passado, a própria Secretaria de Saúde de Minas Gerais se manifestou por meio de sua conta no Instagram a respeito da possível eficácia do suco de inhame no tratamento da dengue: “Apesar de ser um alimento muito benéfico para a saúde, é importante destacar que não há nenhuma comprovação científica de que o suco do inhame contribua para o tratamento da dengue. O que pode ocorrer é que a ingestão deste suco auxilia na hidratação, sem ação direta com o vírus”.

Captura de tela feita em 20 de fevereiro de 2020 no Instagram da Secretaria de Saúde de Minas Gerais

Em meio à chegada do novo coronavírus no Brasil, cujo primeiro caso foi confirmado em 26 de fevereiro pelo Ministério da Saúde, o país vive um novo surto de dengue. Segundo o boletim epidemiológico divulgado este mês pela pasta, 94.149 casos prováveis da doença já foram notificados.

Riscos no consumo de inhame cru?

Embora recomendado nas postagens, consumir determinados alimentos crus pode ser arriscado para a saúde. Como ressaltado pela professora da UFMG Marise Fonseca em outro momento da gravação, é necessário ter alguns cuidados no consumo de alimentos crus, como é o caso do suco de inhame, ou cará: “A gente tem que ter muito cuidado com os alimentos que são crus, então, por exemplo, o cará, que é um tubérculo, se a gente retira ele da terra e não faz uma higienização bem feita a gente tem o risco, inclusive, de estar ingerindo algumas bactérias junto, alguns parasitas”.

A consultora da SBI também ressaltou ao AFP Checamos que o inhame enquanto alimento não é tóxico, porém o seu consumo pode dar uma “sensação desagradável de coceira e formigamento nos lábios, gargantas e mãos, o que se deve a presença de ácido oxálico. Esse ácido é inativado no cozimento prevenindo, assim, essas sensações desagradáveis, que variam de intensidade entre as pessoas”.

Em resumo, é falso que a UFMG tenha realizado um estudo indicando que tomar suco de inhame cru corta os efeitos da dengue em apenas quatro horas. Além da instituição ter negado qualquer publicação neste sentido, especialistas não recomendam o uso do inhame cru para o tratamento da doença, nem para consumo em geral.

AFP Brasil