Segundo historiadores, é improvável que a foto de soldados enforcando um menino seja do Congo

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Uma imagem de um grupo de homens brancos ao redor de um menino negro, prestes a ser enforcado, foi compartilhada milhares de vezes em redes sociais desde 2018 como se tivesse sido feita no Congo Belga em 1908. No entanto, diversos historiadores especializados em forças militares indicaram à AFP que a foto retrata soldados norte-americanos.

“Colonos belgas lendo a Bíblia antes de enforcar uma criança negra de 7 anos de idade no Congo governado pelo rei Leopoldo. O menino Kongolês na foto foi enforcado porque seu pai não produziu trigo suficiente para os colonialistas, em 1908”, diz uma das publicações no Facebook, ilustrada por uma foto que parece mostrar soldados brancos prestes a enforcar um menino negro. Um dos homens segura um livro. 

Captura de tela feita em 28 de setembro de 2020 de uma publicação no Facebook

A imagem acompanha diversas outras postagens no Facebook (1, 2, 3), Instagram (1, 2, 3) e Twitter desde julho de 2018. O conteúdo também circulou em espanhol e inglês.

Atrocidades

A AFP entrou em contato com historiadores especializados na Bélgica, que afirmaram nunca ter visto a imagem e que era “altamente provável” que ela não tivesse sido feita no Congo.

Pierre-Luc Plasman, autor de “Leopoldo II, tirano do Congo”, disse que, no Congo, “as atrocidades foram cometidas principalmente contra os adultos, as mulheres eram sequestradas e os homens assassinados. As crianças, por outro lado, geralmente eram vítimas indiretas do sistema de terror, não de enforcamentos”.

“A violência durante os ataques às vilas era brutal e imediata, não planejada (como na fotografia)”, disse.

Entre 1885 e 1908 o país, atualmente denominado República Democrática do Congo, era conhecido como Estado Livre do Congo e estava sob o mandato pessoal do rei Leopoldo II da Bélgica. Durante este período, companhias tinham liberdade para extrair os recursos naturais do país.

As atrocidades cometidas pelos colonos contra os nativos na época foram amplamente documentadas, incluindo o assassinato de trabalhadores que não conseguiam cumprir com sua cotas de produção de itens como marfim e borracha.

Após condenação da comunidade internacional, o Parlamento belga votou por anexar o território como uma colônia, concluindo o domínio pessoal de Leopoldo sobre o território. O Congo Belga permaneceu como uma colônia europeia até sua independência, em 1960.

“Não temos conhecimento ou provas de que crianças tenham sido enforcadas no Congo”, disse à AFP o diretor do Museu Real da África Central na Bélgica, Guido Gryseels.

Os uniformes

Vários historiadores também indicaram que, embora os homens da imagem pareçam usar um uniforme militar, a roupa não se assemelha ao traje que as tropas belgas usavam na época.

Pierre Lierneux, historiador do Museu Real das Forças Armadas e da História Militar em Bruxelas, disse que “o uniforme dos soldados da Force Publique, os únicos militares presentes no Estado Livre do Congo, era regulamentado e não parecia com os uniformes da fotografia”.

“Os oficiais europeus usavam uniformes brancos ou túnicas azuis; o marrom não era usado, exceto por pessoal capacitado, e foi introduzido lentamente depois da Grande Guerra”, disse.

Abaixo, uma imagem do uniforme usado no Estado Livre do Congo, como registrado no Military Sun Helmets, um site sobre capacetes militares históricos: 

Captura de tela feita em 24 de setembro de 2020 de uma foto publicada no site Military Sun Helmets

Mais indícios

Jean-Philippe Belleau, professor de Antropologia da Universidade de Massachusetts, disse que o reservatório cilíndrico visto no canto esquerdo da imagem completa sugere que a imagem foi feita depois de 1908.

“A fotografia pode ter sido tirada entre 1920 e ao redor de 1935, talvez até 1940”, disse. “A questão é onde foi tirada”, acrescentou. 

Captura de tela da imagem compartilhada nas redes com destaque para o reservatório mencionado por Belleau

Uma publicação feita em um blog em inglês em 2015 contém a fotografia e fala sobre a violência racial nos Estados Unidos.

A AFP contactou historiadores especializados em forças militares dos Estados Unidos, que disseram que as roupas sugerem que os homens eram norte-americanos.

Owen Linlithgow Conner, curador de uniformes e heráldica do Museu Nacional dos Fuzileiros Navais, disse: “Os homens usam camisa de campo de estilo militar (as lapelas dos bolsos são retas) e suas calças são bombachas”.

“Os chapéus tem um bico ‘estilo montana’, que é um estilo utilizado pelos militares dos Estados Unidos. Os cordões do chapéu são uma pista contundente de que é uma imagem do Exército”, afirmou.

Matthew Seelinger, historiador-chefe do Museu Nacional do Exército dos Estados Unidos, disse que os homens poderiam ser fuzileiros navais que atuaram durante a intervenção dos Estados Unidos no Haiti de 1915 a 1934, porque “eram as únicas forças dos Estados Unidos no Haiti que usavam estes uniformes durante aquela época”.

Em resumo, embora a origem da foto viralizada seja desconhecida, historiadores sinalizaram que a imagem provavelmente não foi feita no Congo Belga em 1908, mas que pode mostrar membros das Forças Armadas dos Estados Unidos na década de 1920 ou 1930.

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