O sacerdote tirado à força da Catedral de Santiago era parte de uma intervenção artística

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Um vídeo que mostra um suposto padre sendo arrastado da Catedral de Santiago, no Chile, tem sido compartilhado nas redes sociais em vários idiomas. Em português, as postagens circulam com a atribuição de que feministas, ou “pessoas de esquerda”, haviam invadido a igreja. Em espanhol, por sua vez, afirmam que o sacerdote é acusado de abuso sexual a menores de idade. Apesar de realmente haver uma denúncia por abuso sexual contra um padre relacionado à catedral onde a gravação viralizada foi feita, a filmagem mostra uma intervenção artística.

“Padre e arrancado a força da Igreja e agredido por feministas [sic], “Olha os pacíficos da esquerda ,tudo gente boa que os esquerdistas daqui defendem. Os pregadores da paz ,so que é pura hipocrisia [sic] e “ABSURDO! Grupo de esquerda invade igreja no Chile, expulsa e espanca padre [sic], são algumas das legendas que acompanham o vídeo, reproduzido milhares de vezes, no Facebook (1, 2), Twitter (1) e Instagram, onde as postagens circulam desde o início de janeiro.

Nos comentários havia muitos usuários indignados: “No fim dos fins, o que separa a esquerda e a Direita é Deus”, “O silêncio do Papa comunista sobre isto é ensurdecedor!” e “Pois é, pergunto onde está a polícia chilena? Isso é criminoso e precisa ser rigorosamente investigado e por na cadeia as fêmeas Alfa. Qual foi o crime desse sacerdote?”.

Captura de tela feita em 28 de janeiro de 2020 de publicação no Facebook

Em espanhol, a mesma filmagem circulou nas redes sociais e em meios de comunicação (1, 2, 3), em páginas relacionadas a países como Chile, Uruguai, Guatemala, México e Colômbia, mas com a seguinte descrição, em tradução livre: “O sacerdote da catedral de Santiago (Chile), denunciado de abusar sexualmente de crianças, é arrastado de sua igreja e apanha de jovens encapuzados antifascista”.

No vídeo é possível ver como, entre gritos e insultos, um grupo de pessoas encapuzadas expulsa um suposto sacerdote da Catedral Metropolitana de Santiago, no Chile. O homem é levado para o lado de fora, em plena Plaza de Armas.

Uma intervenção artística

Consultado pela equipe de verificação da AFP, o Arcebispado de Santiago do Chile confirmou que se trata de uma montagem.

“A respeito de um vídeo que circula nas redes sociais, onde se vê um grupo entrando na Catedral e agredindo um suposto sacerdote, informamos a vocês que se tratou de uma montagem para gerar impacto nas redes sociais”, explicou a direção de Comunicação.

Além disso, jornalistas da AFP no Chile têm conhecimento de que a ação na Catedral de Santiago foi realizada como uma intervenção artística. No entanto, as pessoas que organizaram e protagonizaram a filmagem preferiram manter o anonimato e não fazer declarações públicas. Tampouco quiseram mencionar o motivo para realizá-la.

De acordo com o Arcebispado, a cena ocorreu no último 3 de janeiro, por volta das 18h. Durante a ação, “nenhum sacerdote ou fiel no templo foi machucado, embora tenha gerado preocupação e temor entre os presentes”, indicou a instituição religiosa.

Denúncia real de abuso na Catedral

Entretanto, realmente foi feita uma denúncia contra um padre relacionado com a Catedral de Santiago.

Em março de 2019, um meio de comunicação chileno publicou uma reportagem na qual um homem denunciava que havia sido abusado pelo sacerdote Tito Rivera, quando este era reitor da igreja das Agustinas, em 2015. O padre foi acusado de ter drogado a vítima e cometido o abuso em um quarto da Catedral de Santiago. O homem teria ido à igreja com o objetivo de pedir ajuda para comprar um remédio para a sua filha.

A advogada do religioso, Sandra Pinto, entrevistada no artigo mencionado, sustentou em sua defesa que “o padre Tito não tinha força, não tinha nenhuma possibilidade de se impor diante de um senhor que hoje tem 41, 42 anos…”, acrescentou que, naquele momento, Rivera “já estava em condições muito ruins”, em referência ao mal de Parkinson, câncer de próstata, diabetes e problemas renais, pelos quais, segundo ela, não poderia ter cometido o crime. Veículos da mídia reportaram que Rivera tinha 67 anos em março de 2019.

A Catedral Metropolitana de Santiago, na Plaza de Armas, em 12 de fevereiro de 2016

Atualmente, o caso deste sacerdote, denunciado por abuso sexual, está sendo investigado.

A Promotoria Nacional do Chile confirmou à AFP que estão sendo feitas as diligências e Rivera está em prisão domiciliar noturna e impedido de deixar o país.

Eneas Espinoza, porta-voz da Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual Eclesiástico do Chile, disse em entrevista à AFP que o caso tem dois pontos importantes: “A atitude de encobrimento e tranquilidade com que as autoridades da Igreja Católica atuam para silenciar a vítima e abafar o caso”, e que a Igreja “costumava ser um refúgio de pessoas que buscam por ajuda”, algumas das quais, ao invés disso, foram “violentadas e abusadas”.

Espinoza também considera que os casos ocorridos em grandes cidades como Santiago são menos difíceis de denunciar do que nas áreas rurais e cidades pequenas, onde a impunidade é alta.

“Lá, o padre do povoado continua sendo uma divindade, uma pessoa com muita voz, muito respeitada; se alguém quer denunciar, recebe represálias por parte da comunidade”, afirmou à AFP.

Abusos sexuais na Igreja

A Igreja Católica do Chile é uma das instituições eclesiásticas com mais investigações por pedofilia na América Latina. Ao menos 150 casos de abusos sexuais são investigados pela Justiça, envolvendo mais de 200 membros da Igreja.

O Vaticano também investiga supostos abusos sexuais cometidos por sacerdotes no Chile, entre eles o arcebispo emérito Bernardino Piñera, tio do atual presidente Sebastián Piñera.

A Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual Eclesiástico do Chile criou um mapa que mostra os crimes de abuso sexual e de consciência cometidos em entornos eclesiásticos.

A atualização mais recente, de 16 de janeiro de 2020, contém 350 denúncias contra membros da Igreja chilena, incluindo a do padre Tito Rivera na Catedral Metropolitana de Santiago.

“Somos centenas de sobreviventes, de diversas situações e casos. Queremos romper a premissa da Igreja Católica, que fala de situações pontuais e maçãs podres”, declarou o porta-voz da Rede à AFP.

Congregações como a Jesuíta pediram perdão pelos abusos sexuais cometidos por seus líderes e expulsaram sacerdotes pelas mesmas acusações. No contexto das acusações contra os líderes eclesiásticos, o Congresso chileno aprovou em 2019 uma lei que declarou como imprescritíveis os crimes sexuais contra menores de idade.

Em resumo, o vídeo que mostra um suposto padre chileno sendo retirado à força da Catedral de Santiago não passa de uma intervenção artística, diferentemente das afirmações de que a ação ocorreu após uma invasão da igreja por “pessoas de esquerda”, feministas, ou pelo fato daquele sacerdote ter sido acusado de abusar de menores de idade. Entretanto, realmente há denúncias no Chile contra membros da Igreja Católica e ao menos um caso de abuso sexual cometido na Catedral da capital sendo investigado.

AFP Brasil