Não, Samar Badawi não foi executada, mas está detida na Arábia Saudita

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Nas redes sociais voltaram a circular desde 7 de abril algumas publicações afirmando que a ativista de direitos humanos Samar Badawi foi decapitada pelo governo da Arábia Saudita. Versões similares viralizaram em 2018. Entretanto, segundo a Anistia Internacional (AI) e a Human Rights Watch (HRW), até o momento a ativista não foi executada, embora esteja detida.

Postagens (1 e 2) compartilhadas no Facebook mais de 21 mil vezes mostram uma foto de Samar Badawi acompanhada de um texto que diz: “Na Arábia Saudita, decapitaram em público Samar Badawi, a activista [sic] pelos direitos da mulher perante o silêncio ordenado e imposto pelos lóbies [sic] da comunicação”. Além disso, pede que os usuários compartilhem esta suposta notícia. “R.I.P...Grande Guerreira”, lê-se na descrição de uma das publicações.

Captura de tela feita em 17 de maio de 2019 mostra a postagem viralizada nas redes sociais a respeito de Samar Badawi

O boato da execução da ativista vem sendo compartilhada desde 2018 nas redes sociais (1, 2 e 3).  Além do português, esta desinformação foi compartilhada em inglêsitaliano e espanhol.

Em setembro de 2018, o político argentino Luis D’Elia foi um dos que divulgou a notícia aos seus milhares de seguidores por meio de sua conta no Twitter.

Samar Badawi está detida desde julho de 2018, junto com outra dúzia de ativistas pelos direitos humanos, presos desde maio de 2018. A ativista saudita não foi executada, mas continua na prisão, como foi confirmado pela Anistia Internacional Canadá em um tuíte publicado em 15 de maio de 2019.

“Não, Samar não foi decapitada!”, assegurou à AFP Anne Sainte-Marie, responsável de Comunicação da Anistia Internacional no Canadá. “Ela continua detida, assim como seu irmão Raif”, detalhou.

Raif Badawi, escritor e blogueiro, foi detido em 2015, condenado a 10 anos de prisão e a 1.000 chicotadas, acusado de “insultar” o Islã. Waleed Abu al-Khair, ex-marido de Samar, que é advogado e ativista pelos direitos humanos, também está detido, desde 2014, acusado de crimes relacionados com terrorismo.

Segundo o que foi publicado pela AI em 6 de março de 2019, “ao menos 10 defensores e defensoras dos direitos humanos, incluindo várias das ativistas, foram submetidos à tortura, incluindo abusos sexuais, e a outros maus-tratos durante os primeiros três meses que passaram detidos no ano passado, além de permanecer em regime de falta de comunicação, sem acesso aos familiares nem à assistência legal. Entre as defensoras dos direitos humanos detidas na Arábia Saudita no ano passado destacam-se Loujain al-Hathloul, Eman al-Nafjan, Aziza al-Yousef, Samar Badawi, Nassima al-Sadah, Shadan al-Anezi e Nouf Abdulaziz”.

Em 14 de março de 2019, a AI publicou outro comunicado, no qual renovou o pedido de libertação de Samar Badawi e de outros ativistas dos direitos humanos presos na Arábia Saudita.

No dia seguinte, a Human Rights Watch também fez referência a Samar Badawi como uma das dissidentes que permanecia nas prisões sauditas e defendeu a sua libertação imediata.

Em 2 de maio deste ano, quatro mulheres ativistas de direitos humanos foram libertadas à espera de um julgamento na Arábia Saudita, mas não Badawi.

“É muito difícil ter contato com as pessoas detidas na Arábia Saudita. A Anistia [Internacional] não está autorizada a levar adiante investigações ou missões no local”, explicou Sainte-Marie à AFP.

A respeito de como a Anistia Internacional Canadá faz para obter informações sobre a situação de Badawi, detalhou que se comunicam com Ensaf Haidar, esposa de Raif Badawi, que vive em Sherbrooke, Quebec, para saber se ela tem novidades por intermédio de seu marido, também preso.

Em 2010, Badawi ficou conhecida por enfrentar seu pai e o sistema de tutela masculina vigente na Arábia Saudita, que submete as mulheres à vontade dos homens, o que lhe rendeu sete meses na cadeia.

Em 2012, muito antes que o reino suspendesse a proibição que impedia as mulheres de dirigir, Badawi e a ativista Manal al-Sherif movimentaram uma campanha contra este impedimento. Naquele ano, Badawi recebeu o Prêmio Internacional às Mulheres de Coragem nos Estados Unidos.

Em 2016, a ativista foi presa por algumas horas e interrogada pela Polícia sobre o manejo da conta no Twitter de seu ex-marido, Waleed Abu al-Khair, que, segundo informações da própria conta, se manteve ativa mesmo depois da sua prisão, em 2015, graças a um grupo de amigos.

Em resumo, Samar Badawi não foi decapitada na Arábia Saudita, mas permanece detida desde julho de 2018, junto com outras ativistas pelos direitos humanos.

AFP Argentina
 
Nadia Nasanovsky
AFP Brasil