Não, o papa Francisco não propôs cancelar a Bíblia e criar um novo livro

Uma publicação viralizada nas redes sociais assegura que o papa irá “cancelar” a Bíblia por considerá-la “desatualizada” com relação à “modernização da igreja [sic]”. Mas, na verdade, trata-se de um texto satírico retirado de contexto.

"Papa Francisco cancela a Bíblia e propõe criar um novo livro", diz uma postagem compartilhada mais de 7 mil vezes no Facebook desde o ano passado. "Papa Francisco surpreendeu o mundo hoje ao anunciar que a Bíblia está totalmente desatualizada e precisa de uma mudança radical", continua.

A falsa notícia, que ganhou força novamente em 24 de abril de 2019, afirma que o papa Francisco, a autoridade máxima da Igreja Católica, planeja substituir a Bíblia por um novo livro. Contudo, esta informação é uma piada do site de humor “There is News”, “cujo objetivo é o entretenimento”. Inclusive, o lema do site é: “não é real, mas é engraçado”.

Muitas publicações foram compartilhadas desde então (1, 2, 3 e 4), reproduzindo a informação como se fosse correta. Em outros idiomas (1 e 2), inclusive, a mesma alegação se espalhou.

O site “There is News” atribui ao papa uma declaração em que o pontífice teria assegurado: “Não podemos continuar tentando dirigir os passos de nossos fiéis em um mundo totalmente novo com o livro de milhares de anos”. Por isso, propõe “reescrever a palavra de Deus, embora seja somente o Antigo Testamento, no qual há certas passagens que é melhor não repetir”, diz a frase adjudicada erroneamente ao hierarca católico.

Muitos comentários criticam a suposta decisão do papa Francisco, outros se mostram incrédulos e ainda há os que insultam a figura papal: “Esse papa é uma farsa. Enganou a gente direitinho. Ele é um lixo”, “Gente! Isso é fake! Ninguém tem autoridade moral e espiritual para alterar as escrituras!” e “Será que o papa Francisco não será a besta do apocalipse?”.

Este boato gerou muita polêmica, pois embora o primeiro papa latino-americano tenha tentado renovar o estilo da Igreja Católica, sempre defendeu tradições milenares como a leitura da Bíblia.

Em 26 de abril de 2019, durante o Congresso Internacional da Federação Bíblia Católica, no Vaticano, cujo tema é “A Bíblia e a vida: a inspiração bíblica de toda a vida pastoral e missão da Igreja (VD-73) - Experiências e desafios”, o papa afirmou: “A Bíblia não é uma bela coletânea de livros sagrados a estudar, é Palavra de vida a semear e o trabalho dos acadêmicos deve ter este fim.  A Palavra é uma insubstituível injeção de vida”.

O núncio apostólico Ettore Balestrero, representante do papa Francisco na Colômbia, disse à AFP que se trata de uma notícia falsa: “O papa não disse isso. É o contrário (...) a Igreja faz a custódia da palavra de Deus e não pode mudá-la, simplesmente porque é de Deus (...) Naturalmente, esta palavra com o tempo pode ser melhor entendida, se pode e deve ser aprofundada. Mas não para mudá-la, e sim para compreendê-la melhor”.

Frequentemente circulam notícias falsas sobre o papa. Segundo assinalou à AFP o especialista em temas do Vaticano e diretor do Departamento de Humanidades da Universidade de La Sabana, o doutor Hernán Olano, “essas notícias falsas provêm não apenas de círculos anticatólicos, mas também de reações dentro do Catolicismo contra a implementação na atualidade da doutrina do papa. Em nenhum momento o papa disse que a Bíblia deve ser mudada, nem os mandamentos, nem o Antigo Mandamento, nem os sacramentos, mas que tudo deve estar em consonância com todos os momentos da Humanidade”.

Consciente deste fenômeno, em 2015, o Vaticano se pronunciou sobre as frases falsas que atribuem a Bergoglio: “Estes tipos de textos que circulam pela Internet atribuídos ao Papa Francisco geralmente não dizem em que data e em qual ocasião disse essas palavras”, segundo uma publicação no Facebook do portal Vatican News, em espanhol. “Se as palavras que atribuem ao Papa não aparecem nos meios oficiais do Vaticano, especialmente no site oficial da Santa Sé, é muito provável que sejam falsas”, acrescenta.

O pontífice também expressou a sua preocupação sobre o tema no boletim “Fake news e jornalismo de paz”, em maio de 2018, pelo Dia Mundial das Comunicações Sociais: “nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos”, assinala o comunicado do papa. Inclusive, Francisco foi tema de um livro chamado “Fake Pope: as falsas notícias sobre o Papa Francisco”.

O papa no toalete?

A imagem usada para ilustrar algumas das recentes publicações é trabalho de uma artista italiana chamada Cristina Guggeri e seu valor de venda varia entre 30 e 350 dólares. Ela fez uma série de imagens de líderes mundiais sentados no vaso sanitário.

 

Captura de tela feita em 29 de abril de 2019 mostra a obra de arte de Cristina Guggeri à venda na Internet

 

Em resumo, as fontes consultadas desmentiram o que começou como uma piada e acabou sendo entendido como uma informação verdadeira. O papa nunca declarou que substituiria a Bíblia por um livro mais moderno.