Não, o homem que filmou o deputado José Guimarães em um voo não foi preso

Depois que um homem gravou um vídeo acusando o deputado federal José Guimarães (PT-CE) de corrupção em um voo no último dia 30 de setembro, a alegação de que o autor da gravação estaria preso, sem direito a fiança, foi compartilhada milhares de vezes em redes sociais. No entanto, o passageiro não chegou a ser preso, segundo informou a Polícia Federal à AFP. Além disso, os possíveis crimes que estão sendo analisados pela PF neste caso não são considerados inafiançáveis.

“O rapaz que filmou o capitão cueca está preso sem direito a fiança! Brasil…”, diz o texto de uma das publicações, compartilhada mais de 4.500 vezes desde 2 de outubro.

A postagem faz referência ao fato de que, na última segunda-feira (30), um passageiro que se sentou ao lado do deputado federal José Guimarães (PT-CE) em um voo com destino a Brasília gravou um vídeo acusando-o de ter sido preso com dinheiro escondido na cueca. Esta alegação, por sua vez, já foi desmentida anteriormente pela AFP

Captura de tela feita em 03 de outubro de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

Em reação à suposta prisão do autor do vídeo, usuários expressaram indignação nas redes sociais. “Não pode, cadê o direito de expressão?”, escreveu um. “Que injustiça!! Ele somente falou a verdade”, opinou outro.

No entanto, o responsável pela gravação não está detido e sequer chegou a ser preso em decorrência deste caso. Procurada, a Polícia Federal afirmou ao AFP Checamos que os envolvidos foram atendidos após desembarcarem em Brasília e liberados em seguida. “Não houve prisão”, disse a PF por e-mail.

“Ressalta-se que os casos de crimes contra a honra dependem de representação do ofendido para instauração de inquérito policial. Tal representação não aconteceu no momento do registro da ocorrência pois o suposto ofendido aceitou um pedido de desculpas do pretenso agressor. Mais tarde, vendo que um vídeo havia sido compartilhado na internet, a representação foi apresentada”, acrescentou a PF em nota enviada à AFP.

Os crimes contra a honra, apurados pela PF neste caso, por sua vez, não são considerados inafiançáveis. De acordo com o artigo 5º da Constituição, só não tem direito a fiança quem comete crimes de racismo, tortura, tráfico ilícito de entorpecentes, terrorismo, assim como a ação de grupos armados e os chamados crimes hediondos - listados na lei 8.072.

Outro indício de que o autor da gravação não está preso é o fato de que ele tem estado ativo em suas redes sociais. Identificado na mídia (1, 2) como Gilberto Alves Júnior, o passageiro publicou um vídeo em sua conta no Instagram em 3 de outubro agradecendo o apoio que diz ter recebido após o caso envolvendo o deputado.

"Tenho recebido apoio dos quatro cantos do mundo, de vários brasileiros indignados, como eu, com o que tem acontecido nesse Congresso Nacional e [com] todo esse sistema governamental brasileiro. E foi por isso mesmo que nós, maioria do povo brasileiro, elegemos a mudança, para acabar com a velha política, certo?", diz na gravação.

A equipe de checagem da AFP tentou contatá-lo, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

Em resumo, é falso que o homem que gravou um vídeo acusando o deputado José Guimarães de corrupção em um voo no último dia 30 de setembro esteja preso sem direito a fiança. O responsável pela gravação chegou a ser atendido pela Polícia Federal após o incidente, mas não foi preso. Ele tem estado, inclusive, ativo em suas redes sociais.

AFP Brasil