Não, nenhum laudo balístico determinou que o projétil que matou Ágatha Félix não era de arma da Polícia Militar

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Publicações compartilhadas ao menos 3.000 vezes nas redes sociais desde 11 de outubro de 2019 afirmam que um laudo balístico supostamente divulgado neste mesmo dia concluiu que o projétil encontrado no corpo da menina Ágatha não condiz com o tipo usado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Também afirmam que ele seria “de um outro tipo de arma, muito comum nas favelas cariocas”. Contudo, essa informação é falsa e os laudos emitidos até agora não puderam determinar de qual arma partiu o tiro que atingiu a menina em 20 de setembro.

“A esquerda quando o laudo balístico concluiu que o projetil que matou a menina Ágatha não partiu de arma da PM [sic] e “O LAUDO BALÍSTICO do caso ÁGATHA no Complexo do Alemão saiu ontem 11Out19. Vocês sabiam? Não né, sabe porque? Porque a perícia concluiu que o projétil no corpo da inocente Ágatha NÃO CONDIZ COM O PROJÉTIL USADO PELA PM no Rio de Janeiro, desenhando pra alguns entenderem, a bala que pegou na menina não é do fuzil usado pelos PMs é de um outro tipo de arma, inclusive muito comum nas favelas cariocas! [sic], dizem as legendas de algumas publicações compartilhadas no Facebook (1, 2) e Twitter (1).

Captura de tela feita em 14 de outubro de 2019 no Facebook mostra a postagem viralizada

Alguns usuários ainda se mostraram indignados com o fato da mídia não ter comentado a suposta nova descoberta: “Agora me pergunto terá manifestações de indignação amanhã? As pessoas ainda irão pedir justiça? [...] quantos programas jornalísticos irão comentar o caso e pedir que punam os traficantes”.

Para confirmar se o laudo mencionado nas postagens realmente foi emitido, a equipe de verificação da AFP entrou em contato com a assessoria da Polícia Civil do Rio de Janeiro, cuja Delegacia de Homicídios é responsável pela investigação do caso.

“O Laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) aponta que o fragmento de projétil retirado do corpo de Ágatha é compatível com o de fuzil. Não há como determinar ‘o calibre nominal, número e direcionamento das raias, bem como microvestígios de valor criminalístico, o que inviabiliza exame microcomparativo (confronto balístico)’”, informou a Polícia Civil em nota, se referindo ao documento emitido em 25 de setembro.

O confronto balístico permitiria saber características mais precisas da arma usada para determinar quem disparou o tiro. No entanto, o fragmento de projétil encontrado no corpo de Ágatha Félix estava deformado e, por isso, não permitiria saber o calibre nem a arma precisa de onde foi disparada a bala, como reportou o jornal Folha de S. Paulo.

O laudo, divulgado cinco dias após a morte da menina na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), afirmava que o projétil era adequado a uma arma de fogo do tipo fuzil.

A assessoria da Polícia Civil também explicou por e-mail que o Instituto Médico Legal (IML) concluiu em laudo datado de 25 de setembro que a menina de oito anos levou um tiro nas costas e que a morte se deu por “lacerações do fígado, rim direito e vasos do abdômen”, e finalizou afirmando que as investigações ainda estão sendo realizadas.

Em 1º de outubro foi feita a reconstituição da morte de Ágatha, com a presença de testemunhas e alguns policiais, para tentar descobrir de onde partiu o tiro.

Ágatha Félix foi morta em 20 de setembro passado após levar um tiro quando estava no banco traseiro de uma kombi com a sua mãe em uma região conhecida como Fazendinha, localizada no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Há, ainda, uma disputa de versões, já que a Polícia Militar atribui a autoria do disparo a traficantes que entraram em confronto com os agentes, enquanto testemunhas no local afirmam o contrário.

O AFP Checamos já verificou outra desinformação a respeito do caso Ágatha anteriormente.

Em resumo, o laudo alegado nas publicações viralizadas como tendo sido divulgado em 11 de outubro, na verdade, não existiu. O registro mais recente de um documento nesse sentido data de 25 de setembro. Além disso, a Polícia Civil, que está a cargo da investigação do caso, explicou que como não é possível realizar o confronto balístico, não há como determinar com exatidão de qual arma partiu o disparo que matou Ágatha Félix.

AFP Brasil