A camisa é um trabalho artístico feito em crítica a mortes causadas por ações policiais

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A foto de um uniforme escolar aparentemente perfurado por balas e manchado de sangue tem sido compartilhada em redes sociais como se fosse de Ágatha Félix, a menina de 8 anos morta após uma ação policial no Complexo do Alemão no último dia 20 de setembro. No entanto, a camisa não era de Ágatha. Trata-se de um trabalho artístico feito, segundo seu autor, em crítica a mortes causadas por ações policiais no Rio de Janeiro. A obra foi feita antes do caso envolvendo Ágatha e, coincidentemente, exposta no mesmo dia em que a menina foi baleada.

Captura de tela feita em 23 de setembro de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

“Pátria Amarga, Brasil. Camiseta da menina Ágatha de 8 anos assassinada pela política de violência de Bolsonaro e do governador AuschWitzel. E, sim. Ela era negra e moradora de comunidade”, diz uma das publicações, compartilhada mais de mil vezes desde 21 de setembro.

A alegação foi replicada diversas vezes no Facebook (1, 2, 3) e no Twitter (1, 2). 

As postagens fazem referência à morte de Ágatha Félix, atingida nas costas por um disparo na noite do último 20 de setembro, quando estava com a mãe em uma kombi no Complexo do Alemão, conjunto de comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo moradores, o autor do disparo foi um policial.

Mas, ao contrário do que afirmam as publicações viralizadas, Ágatha não vestia este uniforme quando foi baleada.

A camiseta

Uma busca reversa* pela imagem do uniforme mostra que ele não poderia pertencer à Ágatha, uma vez que a foto foi publicada pela primeira vez no Twitter às 18h03 do dia 20 de setembro.

No entanto, em nota oficial enviada a diversos veículos da mídia local (1, 2 ,3), a Secretaria de Estado de Polícia Militar afirmou que o incidente que levou à morte da menina de 8 anos começou por volta das 22h.

A publicação no Twitter indica, ainda, que se trata de um trabalho artístico, e não de uma camiseta verdadeiramente manchada de sangue e balas. “Resolvi fazer uma crítica ao mal treinamento e preparo da polícia militar que está custando muitas vidas de inocentes e estudantes, acho que consegui representar bem o quão cruel a polícia do RJ é quando se trata em matar estudantes inocentes”, diz a postagem original.

A equipe de checagem da AFP contatou o usuário responsável por compartilhar a imagem, que confirmou a autoria do trabalho. Arthur Vaz Brandão, estudante de 15 anos, afirmou ter produzido a camiseta como um projeto de artes para uma feira literária da escola pública que frequenta em Niterói.

“Não fiz o trabalho pensando em nenhum caso isolado e sim fazendo uma crítica a todos os casos parecidos que vêm acontecendo”, disse o jovem à AFP. Coincidentemente, a feira foi realizada na manhã do dia 20 de setembro, horas antes do incidente envolvendo Ágatha.

À equipe de checagem da AFP, o estudante enviou outras fotos do trabalho escolar. 

Combinação mostra fotos de trabalho artístico de Arthur Vaz Brandão enviadas à AFP

Outros elementos indicam que a camiseta não pertencia a Ágatha.

Um primeiro, é o fato de que se trata de um uniforme da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro que, na capital carioca, não oferece aulas do Ensino Fundamental. A informação foi confirmada à AFP pela Secretaria de Estado de Educação. Aos 8 anos, Ágatha estaria entre o 2º e o 3º ano do Ensino Fundamental.

Além disso, a camisa vista nas publicações viralizadas possui diversas marcas de bala, no entanto, segundo autoridades, foi retirado um projétil do corpo de Ágatha. Não há, ainda, indício de que a menina estivesse de uniforme escolar no momento do incidente, visto que estava retornando de um passeio com sua mãe e que a ação policial ocorreu por volta da 22h, segundo as autoridades. 

Em 23 de setembro, centenas de manifestantes protestaram no centro do Rio de Janeiro contra ações da polícia nas comunidades, criticando a política de segurança do governador Wilson Witzel. 

Familiares carregam caixão de Ágatha Félix durante enterro no Rio de Janeiro, em 22 de setembro de 2019

Em coletiva de imprensa concedida no mesmo dia, Witzel responsabilizou o crime organizado e usuários de drogas pela morte de Ágatha. “Quem usa droga ajudou a apertar esse gatilho”, afirmou o governador.

Segundo levantamento da ONG Rio de Paz, Ágatha foi a quinta criança a morrer por bala perdida no Rio de Janeiro em 2019.

Em resumo, a foto de um uniforme perfurado por balas e manchado de sangue que tem circulado em redes sociais não mostra a camiseta utilizada por Ágatha Félix quando foi baleada no Complexo do Alemão. Trata-se de um trabalho artístico feito por um estudante de uma escola pública do Rio de Janeiro antes da morte de Ágatha.

*Uma vez instalada a extensão InVid no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a imagem e o menu que aparece oferece a possibilidade de pesquisa da mesma em vários buscadores. 

AFP Brasil