Não há registro oficial da morte de um adolescente no Peru devido ao jogo Free Fire

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Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais desde o início de outubro deste ano reportam um caso de suicídio de um adolescente de 17 anos devido ao jogo de celular Free Fire. Segundo as postagens, o jovem teria falecido em Chimbote, no Peru. No entanto, não existem registros judiciais de um caso como este na cidade e o mesmo texto circulou, alguns dias antes, vinculando a história ao Equador.

“CHIMBOTE: PERU JOGOS ADOLESCENTES PENDURADOS POR FICAR LOUCO COM O JOGO PERIGOSO PARA CRIANÇAS E JOVENS ESTE JOGO SE CHAMA #FREE FIRE ESTE JOGO LEVO PARA O SUICÍDIO”, começa o texto replicado cerca de 4.300 vezes em publicações no Facebook (1, 2, 3) desde o último dia 9 de outubro.

Chimbote é uma cidade portuária localizada no norte do Peru e a capital da província de Santa.

Em seguida, as publicações afirmam que a família do adolescente conseguiu ajuda de autoridades locais: “Diego León, presidente da paróquia GAD de Licán, chegou imediatamente com ajuda”. O mesmo conteúdo circulou amplamente em espanhol. 

Captura de tela feita em 4 de novembro de 2020 de uma publicação no Facebook

Free Fire é um jogo bélico para celulares no qual os usuários têm a missão de sobreviver, eliminando os demais com armas. É um dos mais populares do mercado e conta, inclusive, com campeonatos internacionais com prêmios de até 100 mil dólares.

No entanto, de acordo com as autoridades judiciais locais procuradas, não há registro de um caso como o descrito na cidade de Chimbote. Miriam Lucero Tamayo, presidente do Conselho Superior de Procuradores de Santa, respondeu à equipe de checagem da AFP que “não foi registrada nenhuma denúncia” sobre os fatos consultados.

Uma busca no Google pelas palavras-chave “Chimbote + Free Fire + suicídio” também não levou a qualquer resultado. Uma segunda pesquisa no mesmo motor tampouco encontrou uma localidade com o nome de “Licán” no Peru.

No entanto, uma nova busca com as palavras “Diego León + GAD Licán” levou ao site do Governo Autônomo Descentralizado (GAD) Paroquial Rural de Licán, uma cidade no Equador que tem um nível de governo autônomo e descentralizado.

Licán fica localizada nas redondezas de Riobamba, capital da província de Chimborazo (centro).

A equipe de checagem da AFP contactou Diego León, presidente do GAD paroquial de Licán desde 2019, que confirmou que atendeu um caso como o narrado nas publicações, mas que ele não tinha qualquer ligação com a cidade peruana de Chimbote, que fica a mais de mil quilômetros de Licán.

León disse que o jovem realmente tinha a particularidade de ser viciado no jogo Free Fire, mas não pôde afirmar se esse foi o motivo de seu falecimento.

Em 18 de setembro deste ano, a página do GAD paroquial de Licán no Facebook publicou informações sobre a morte do adolescente, solicitando ajuda psicológica para a família.

Minutos depois, o Diário de Riobamba - cidade vizinha a Licán - publicou no Facebook, em espanhol, o mesmo texto que circula nas redes atribuindo o caso a Chimbote. Esse foi o registro mais antigo do texto localizado pela AFP.

Comparação feita em 4 de novembro de 2020 entre texto publicado pelo Diário de Riobamba e uma publicação no Facebook

Em 2019, foram registradas 148 mortes por lesões autoinfligidas de adolescentes entre 12 e 17 anos no Equador, a maior causa de mortalidade para pessoas desta faixa etária (17,8%), de acordo com o Registro Estatístico de Falecimentos Gerais. Segundo o Ministério de Saúde Pública equatoriano, este tipo de falecimento tem causas distintas, entre elas a depressão.

Em resumo, não há registro de um caso de suicídio de um jovem em Chimbote, no  Peru, devido ao jogo de celular Free Fire, como descrito nas publicações viralizadas. A desinformação surge a partir de um caso que aconteceu em Licán, no Equador.

Tradução e adaptação