Não, a foto mostra Dirceu sendo preso por um policial durante a ditadura militar

Publicações compartilhadas milhares de vezes em redes sociais desde o final de julho afirmam que uma foto mostra Fernando de Santa Cruz, militante de esquerda durante a ditadura militar (1964 -1985) e pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), segurando uma arma ao lado do ex-ministro José Dirceu. No entanto, quem acompanha Dirceu na imagem é o policial Herwin de Barros que prendeu o então líder estudantil durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna (SP), em 1968.

“Esse ao lado de José Dirceu é Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da OAB Nacional”, diz uma das publicações, compartilhada mais de 2 mil vezes desde 30 de julho. 

Captura de tela feita em 1 de agosto de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

As postagens começaram a circular no final de julho depois que o presidente Jair Bolsonaro, em crítica ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, insinuou que o pai deste teria sido assassinado por outros militantes de esquerda durante o regime militar.

Fernando de Santa Cruz foi militante dos movimentos de esquerda Ação Popular (AP) e Ação Popular Marxista Leninista (APML) durante a ditadura. Ele desapareceu aos 26 anos, em 1974. Documentos oficiais indicam que Santa Cruz foi preso pelo regime e executado por agentes do Estado brasileiro.

A história da foto

Uma busca reversa* mostra que quem aparece no canto direito da imagem viralizada realmente é José Dirceu, então líder estudantil e futuro homem forte do Partido dos Trabalhadores (PT) e ministro da Casa Civil (2003-2005) do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011). No entanto, o homem visto segurando uma arma ao seu lado não é Santa Cruz.

A pesquisa em motores de busca levou a uma publicação do acervo do Jornal O Estado de S. Paulo sobre a prisão de Dirceu em 1968 -muito antes de ser detido por corrupção no âmbito da operação Lava Jato-, quando participou de um congresso de estudantes em Ibiúna, São Paulo, proibido pelo regime militar.

A publicação traz uma foto semelhante à viralizada, de autoria de Alfredo Rizzutti. A legenda esclarece que trata-se de um registro da prisão de Dirceu em Ibiúna, mas não identifica o homem que acompanha o então líder estudantil.

Procurada por AFP Checamos, a equipe do acervo do jornal o identificou como um agente policial. 

Captura de tela feita em 1 de agosto de 2019 mostra publicação do jornal O Estado de S. Paulo sobre prisão de Dirceu em 1968

Uma segunda busca, dessa vez por notícias sobre a prisão de Dirceu em Ibiúna, levou a equipe de checagem da AFP a uma reportagem publicada em 2005 pela revista IstoÉ que fornece mais informações sobre o homem visto na imagem, inclusive seu nome:

“Herwin de Barros, treinado pela CIA, conduzindo Antonio Ribas e José Dirceu ao Dops [Departamento de Ordem Política e Social] após a prisão no Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968”, diz a legenda publicada pela revista.

Capa da edição de janeiro de 2005 da revista IstoÉ

O nome de Herwin também é mencionado pelo próprio Dirceu no livro “Zé Dirceu: Memórias - Livro 1”, em trecho sobre a prisão em Ibiúna. “Além desta foto, ele aparece também na camioneta Rural Willys que nos conduziu para o Deops na capital paulista, eu, Travasssos e Guilherme Ribas, presidente da Ubes, União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Herwin morreu em 2015, já aposentado da Polícia Civil”.

Posteriormente, José Dirceu foi solto, junto com outros 14 presos, em troca da libertação do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado por militantes políticos.

Em 2008, Herwin também concedeu uma entrevista para um Trabalho de Conclusão de Curso universitário, disponível no YouTube, na qual relembra seu papel em Ibiúna. O vídeo traz outras fotos do ex-ministro na época.

Em resumo, é falsa a afirmação de que o homem que aparece na imagem viralizada ao lado do ex-ministro José Dirceu é Fernando de Santa Cruz, pai do presidente da OAB. Na verdade, a foto mostra o então líder estudantil sendo preso pelo policial Herwin de Barros.

AFP Brasil