Este vídeo não mostra Trump se protegendo após alguém gritar “Allahu Akbar”; a gravação foi adulterada

Um vídeo que mostra o presidente Donald Trump fazendo um discurso viralizou nas redes sociais por, supostamente, conter um detalhe inusitado: ao fundo ouve-se um grito de “Allahu Akbar”, “Alá é grande” (em tradução livre), no momento em que aparece a equipe de segurança do chefe de Estado e que ele se abaixa. Entretanto, o vídeo foi adulterado para adicionar a fala, já que na gravação original, de março de 2016, não é possível escutar a expressão. Além disso, Trump ainda não era presidente dos Estados Unidos.

“TRUMP PROVOCOU IRÃO MAS AGORA ESTÁ COM MEDO DE ALAH AKBAR [sic], dizem as publicações que contêm o vídeo, de pouco mais de 20 segundos, compartilhadas mais de 46 mil vezes desde 7 de janeiro de 2020, e que tem mais de um milhão de reproduções.

Captura de tela feita em 9 de janeiro de 2020 no Facebook

Este vídeo, mas com 41 segundos de duração, já havia sido compartilhado em hindi (1, 2) em agosto de 2018. Na época em que foi largamente compartilhado, ele aparecia nas postagens com a seguinte descrição, em tradução livre: “Olha o medo criado pelo slogan Allahu Akbar... Trump estava fazendo um discurso e alguém disse calmamente Allahu Akbar e veja o que aconteceu depois”.

No caso das publicações compartilhadas em português em janeiro deste ano, as alegações se centram no fato de Trump ter “provocado” o Irã - após o general iraniano Qassem Soleimani, comandante da Força Qods da Guarda Revolucionária, ser morto em um ataque aéreo comandado pelos Estados Unidos no Iraque - e agora estar com medo de retaliações.

A gravação mostra Donald Trump fazendo um discurso durante um comício quando, de repente, para de falar e é cercado por uma equipe de segurança após ouvir uma voz dizendo em árabe a frase “Allahu Akbar”.

“Allahu Akbar”?

Todas as afirmações a respeito de alguém ter gritado “Allahu Akbar” durante um discurso do atual presidente dos Estados Unidos são falsas. O vídeo mostra, na realidade, um incidente ocorrido em 12 de março de 2016 durante um comício em Ohio, quando Trump ainda estava em campanha à Presidência; inclusive, nas diferentes gravações do momento, não é possível ouvir em nenhum momento esta expressão.

Uma busca reversa no Google usando capturas de tela retiradas da gravação enganosa levou a imagens correspondentes do incidente publicadas pela emissora americana ABC News em 12 de março de 2016 em seu canal verificado no YouTube com o título “Serviço Secreto de Trump corre para palanque durante comício em Ohio”.

Além disso, a descrição do vídeo, de 45 segundos, diz: “Agentes do Serviço Secreto precisaram se juntar a Donald Trump no palanque durante um comício em Ohio neste sábado, apenas um dia depois de ter que cancelar um evento por questões de segurança”.

As palavras “Allahu Akbar” não são ouvidas na gravação, que pode ser vista abaixo:

Abaixo também há uma comparação de momentos do vídeo enganoso viralizado no Facebook (E) e a gravação publicada pela ABC News (D):

Combinação de fotos publicada em 5 de agosto de 2019 em uma verificação do AFP Fact Check

O incidente de março de 2016 foi reportado por vários veículos de mídia internacional, como pela NBC News e pelo site da BBC news, assim como pela AFP, mencionando que um homem teria jogado uma garrafa na direção de Trump.

Uma outra gravação, que mostra o comício completo, de uma hora e 20 minutos de duração, também foi publicado no C-Span em 12 de março de 2016. Aos 53 minutos e 30 segundos neste vídeo, Trump é cercado por seus seguranças, mas as palavras “Allahu Akbar” não são ouvidas.

Uma outra gravação deste mesmo momento no evento em Ohio, filmada de um ângulo diferente e publicada no YouTube em 12 de março de 2016, também não contém as palavras “Allahu Akbar”.

Uma fotografia da AFP do Serviço Secreto cercando o então candidato republicano no palanque durante o comício na mesma data pode ser vista aqui. A imagem capturada traz a seguinte legenda: “Serviço Secreto se aglomera em torno do candidato republicano à Presidência, Donald Trump, depois que uma garrafa foi jogada no palanque em um comício de campanha em 12 de março de 2016, em Vandalia, Ohio. Hoje aconteceu o primeiro comício depois que atos de violência ocorreram em um comício de Trump em Chicago ontem, que cancelou o evento”.

O intruso no evento que provocou o movimento da equipe de segurança foi posteriormente identificado como Thomas DiMassimo. Ele foi acusado de conduta desordeira pelas autoridades, de acordo com esta reportagem da NBC.

Ele também foi multado em 250 dólares e pegou um ano de condicional, que terminou em novembro de 2016.

Em 13 de março de 2016, Trump se referiu neste tuíte ao intruso como um membro do grupo do Estado Islâmico. A acusação, contudo, foi negada por DiMassimo.

Em resumo, o vídeo viralizado nas redes sociais é falso e na gravação original não há nenhum grito de “Allahu Akbar”. Na época, Donald Trump era candidato à Presidência dos Estados Unidos, impossibilitando que qualquer ação do gênero fosse uma resposta do Irã à morte do general Qassem Soleimani.