Médicos advertem contra publicações “perigosamente enganosas” que ensinam a tratar AVC com uma agulha

A alegação de que furar os dedos e a orelha de uma vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) com uma agulha pode salvar a sua vida tem circulado há anos, mais recentemente em uma série de publicações em redes sociais. Algumas das postagens atribuem o conselho à “medicina tradicional chinesa”. Contudo, a AFP conversou tanto com profissionais que praticam a medicina ocidental como a chinesa que disseram que a recomendação é infundada e perigosa, uma vez que pode encorajar pessoas a adiarem o tratamento urgente de vítimas de um AVC.

O boato circula há mais de uma década - originalmente via uma corrente de e-mail amplamente compartilhada, como reportado pelo jornal norte-americano New York Times, em 2006.

Captura de tela feita em 13 de agosto de 2019 mostra publicação viralizada no Facebook

Treze anos depois, milhares de pessoas continuam compartilhando o perigoso conselho sobre como tratar um AVC, uma interrupção repentina da circulação de sangue em uma área do cérebro que pode ser fatal ou deixar a vítima com sérias sequelas. 

“Importante como salvar uma pessoa com A.V.C. com apenas uma agulha em um mínimo de técnica!”, diz uma das publicações, compartilhada mais de 18 mil vezes desde julho de 2018. A legenda acompanha um vídeo que descreve como supostamente é possível salvar a vida de uma vítima de AVC ao furar seus dedos e os lóbulos de suas orelhas com uma agulha. 

A mesma orientação aparece em um artigo, compartilhado mais de 3 mil vezes em redes sociais, atribuindo a técnica à medicina tradicional chinesa. O conselho foi reproduzido em diversas outras postagens no Facebook em português (1, 2, 3) e inglês.

Os comentários na rede social sugerem que muitos usuários acreditaram na orientação, expressando gratidão pela dica. 

Captura de tela feita em 13 de agosto de 2019 mostra comentários em publicação enganosa

Procurar ajuda médica urgente

O neurologista Dilraj Singh Sokhi, chefe do Departamento de AVC do Hospital Universitário Aga Khan, em Nairóbi, Quênia, disse à equipe da AFP no país que o tratamento recomendado nas publicações viralizadas é “perigosamente enganoso” e que pode adiar tratamentos médicos emergenciais responsáveis por potencialmente salvar a vida de alguém.

“O tempo é essencial”, disse o Dr. Sokhi à AFP, em entrevista realizada no hospital.

“A cada minuto que passa, um milhão de células nervosas estão morrendo no cérebro durante um AVC repentino. Nós sabemos que quanto mais rápido você conseguir chegar a uma unidade de saúde relevante, melhor será o resultado, uma vez que o tratamento que podemos fornecer só pode ser aplicado durante as primeiras horas de um AVC”, explicou.

A técnica da agulha recomendada nas publicações pode ser danosa por si própria, advertiu o Dr. Sokhi. “A dor causada ao ferir estas partes mais sensíveis do corpo pode fazer com que a pressão sanguínea do paciente aumente e piore o AVC. Além disso, se as agulhas não estiverem esterilizadas, há o risco de transferência de infecções”.

No início deste ano, o Ministério da Saúde brasileiro também se pronunciou contra o método afirmando que “não há nenhuma comprovação científica que furar os dedos de uma pessoa ajudaria em caso de Acidente Vascular Cerebral”. A pasta também enfatizou a importância de tratar rapidamente um AVC para aumentar as chances de uma recuperação completa.

Praticantes da medicina chinesa não recomendam este tratamento

Algumas das publicações atribuem o conselho à medicina chinesa. Entretanto, a praticante registrada Wendy Wong, professora assistente da Universidade de Hong Kong, disse à AFP que as postagens fornecem uma interpretação enganosa de técnicas da acupuntura utilizadas na medicina chinesa tradicional.

“No sistema de saúde nacional da China, em um hospital de medicina chinesa, eles vão usar a acupuntura junto com a medicina ocidental para um AVC agudo”, disse a Dra. Wong à AFP por e-mail. O método é aplicado em diferentes partes do corpo, “dos membros ao tronco do corpo”, dependendo da natureza do AVC.

“É recomendado que [as pessoas] busquem consultas ou a ajuda imediata de um médico ocidental, uma vez que diferentes países têm regulamentações diferentes para a medicina chinesa”, disse.

Como o Dr. Sokhi, ela enfatizou que profissionais médicos “devem ser os primeiros procurados” no caso de um AVC.

“Para proteger a segurança do paciente, eu gostaria de dizer que este artigo no Facebook é bastante enganoso”, disse a Dra. Wong à AFP.

Como reconhecer um AVC

Dr. Sokhi descreveu as publicações viralizadas como “completa besteira”.

“É importante que o público em geral entenda quais são os sintomas de um AVC agudo”, afirmou.

No Brasil, médicos ensinam um teste simples que pode ser utilizado para reconhecer os sintomas de um AVC. O método é apelidado de SAMU, devido a suas iniciais:

Sorriso: Peça para a pessoa sorrir. Um lado do rosto dela cai?

Abraço: Peça para a pessoa levantar os braços. Ela está tendo dificuldade em manter os dois levantados?

Mensagem: Peça para a pessoa repetir uma frase simples. A fala dela está arrastada ou estranha?

Urgência: Se você reconhecer qualquer um destes sintomas, é hora de ligar para um serviço de emergência e garantir que a pessoa seja levada urgentemente a um hospital.

De acordo com a Organização Mundial de Acidentes Vasculares Cerebrais, o AVC é a segunda maior causa de morte entre pessoas com mais de 60 anos em todo o mundo, e a quinta maior causa para pessoas entre 15 e 59 anos. Ainda segundo a organização, uma a cada seis pessoas terá um AVC em algum momento de sua vida. No Brasil, em 2016, o AVC foi a segunda maior causa de morte para pessoas de todas as idades, atrás apenas de doenças cardíacas isquêmicas, segundo estudo do Ministério da Saúde (pag. 76).

Em resumo, segundo médicos consultados pela AFP, são enganosas as publicações que ensinam como salvar a vida de uma vítima de AVC ao furar seus dedos e orelhas com uma agulha.