Não, essas fotos não mostram dois sóis, nem a “Hunter’s Moon”

Imagens viralizadas nas redes sociais em português desde 2017 mostram o que parecem ser dois sóis no céu, um fenômeno conhecido, segundo seus autores, como “Hunter’s moon”. Entretanto, a “Hunter’s moon” não tem nada a ver com o efeito observado nas fotografias da publicação, que pode se dar devido a reflexos, montagens, ilusões de ótica, entre outros.

“O fato aconteceu na fronteira entre os EUA e o Canadá, surgiram dois sóis, Sendo um, o sol real e o outro, a Lua. Este fenômeno é conhecido como Hunters Moon e acontece quando a terra troca de Eixo. A Lua e o Sol se encontram e brilham ao mesmo instante e a lua reflete o brilho do sol com tanta intensidade que parece um segundo Sol”, diz uma publicação compartilhada por mais de 2 mil pessoas, com frases e imagens similares em outra postagem.

Captura de tela feita em 4 de junho de 2019 mostra as fotografias viralizadas no Facebook

Essa mensagem circula nas redes sociais - sempre com um texto similar - desde 2015 e em outros idiomas, como inglês, francês e espanhol. A página americana Snopes já a desmentiu este ano. Em espanhol foi desmentida em 2017 pelo canal argentino Todo Noticias e em português, pelo Fato ou Fake, do portal G1.

O termo “Hunter’s moon” é usado no Hemisfério Norte para descrever a segunda Lua Cheia que ocorre no mês de outubro (outono). Segundo o site do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, do Departamento de Astronomia da Universidade de São Paulo, esse nome “vem do folclore dos povos nativos americanos e se refere à necessidade de caçar animais para guardar provisões para o inverno: os índios usavam a lua cheia de outubro, quando ainda não está muito frio, para caçar bastante e acumular alimentos para o inverno. […] Como em todas as luas cheias, o que ocorre é o Sol se pondo no oeste no início da noite enquanto a Lua Cheia nasce a leste”. Esta também é conhecida como “Lua de Sangue”.

A “Hunter’s moon”, que em tradução livre para o português seria “Lua do caçador”, sucede à “Lua da Colheita”, a primeira Lua Cheia do outono e a mais próxima do equinócio, segundo Pascal Descamps, pesquisador do Instituto de Mecânica Celeste e Cálculo de Efemérides (IMCCE, em francês).

Estes dois ciclos lunares têm a particularidade de saírem muito próximo do momento em que o Sol se põe. Por isso a mensagem que acompanha as fotos compartilhadas fala que a Lua e o Sol “brilham no mesmo instante”, embora não seja o que aparece nas imagens.

Fazendo uma busca reversa de cada fotografia* não é possível encontrar resultados conclusivos, excetuando-se artigos sobre os supostos dois sóis, verificações desmentindo, ou explicações das fotos.

Existem várias formas de explicar cada uma das seis fotos. Pode se tratar de uma montagem; de reflexos na objetiva da câmera fotográfica ou nos vidros de um edifício; poderia ser a Lua, mas ela seria menos brilhante; ou pode se tratar de um fenômeno chamado “parélio”.

A etimologia de “parélio” vem do grego clássico: “para” (perto, junto a) e “helios” (sol).

Mas este pode ser o fenômeno que aparece em alguma das imagens compartilhadas? “Não é algo impossível”, respondeu à equipe de checagem da AFP Jean-Paul Aguttes, responsável do Grupo de Estudos e Informações sobre os Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados (GEIPAN), em Toulouse, na França. “Esta foto (abaixo), por exemplo, com o lago e as montanhas poderia ser uma”, acrescenta, “embora seja improvável porque os dois ‘sóis’ estão muito desiguais em altura”.

Captura de tela feita em 4 de junho de 2019 mostra uma das paisagens vistas na publicação no Facebook

E com razão o astrônomo estava duvidando: pouco depois da publicação original deste artigo, em francês, a conta Twitter Fake Investigation avisou à AFP que haviam identificado pela busca inversa de imagens a fotografia original, que corresponde a Star Trek: Deep Space Nine.

AstroCantabria, o Agrupamento Astrônomo Cántabra, conta em seu site no que consiste o fenômeno parélio: “Tratam-se de dois pequenos resplendores que se formam em ambos os lados do Sol quando há um certo tipo de nuvens (cirrus, aquelas nuvens com a aparência de “filamentos” ou “flocos de algodão”). Essas nuvens contêm cristais de gelo que atuam como pequenos prismas refratando os raios do sol, isto é, desviando parte desses raios para outro lugar e, assim, formando os parélios. Estes são então vistos como se fossem um Sol atrás das nuvens, embora menos brilhantes que o Sol real”. “Os parélios aparecem exatamente a 22º do Sol, devido ao ângulo com que os raios de luz são refratados”.

Exemplos de parélios podem ser vistos no próprio site do AstroCantabria, mas também no blog oficial da Agência Espanhola de Meteorologia (AEMET), ou neste link para o Facebook da Direção Meteorológica do Chile, que mostra o fenômeno em 2017 em Antofagasta.

Portanto, as imagens dos dois sóis não correspondem ao fenômeno da “Hunter’s moon” e dificilmente são a Lua e o Sol juntos no céu. Isso pode ter acontecido em razão de efeitos óticos, reflexos ou montagens.

*Uma vez instalada a extensão InVid no navegador Chrome, clica-se com o botão direito sobre a
 imagem e o menu que surge mostra uma busca da mesma em vários navegadores.