Na verdade, este homem tem psoríase e foi atendido em um hospital no Cazaquistão

A história era sensacional: vídeo e imagens fortes de um homem nu, desnutrido e machucado que, supostamente, havia sido resgatado depois de ser atacado por um urso e sobreviver por mais de um mês em sua toca em Tuva, região russa fronteiriça com a Mongólia. Em português, o relato foi compartilhado mais de 3,1 mil vezes nas redes sociais e no YouTube o vídeo foi visto mais de 93 mil vezes. Meios de comunicação do mundo todo publicaram a notícia. Entretanto, ela é falsa. Na realidade, as imagens mostram um paciente que foi tratado de psoríase no início de junho de 2019 em um hospital de Aktobe, no Cazaquistão, a mais de 2.600 quilômetros de Tuva.

O vídeo foi compartilhado no Facebook (1, 2, 3 e 4) e no Twitter com imagens do homem nu, abatido e com as feridas inflamadas em todo o corpo, e viralizou no YouTube (1, 2, 3 e 4), com milhares de visualizações. A história também circulou nas redes sociais em francês e espanhol.

A notícia foi publicada em portais de notícia de todo o mundo (1, 2, 3, 4, 5 e 6), que replicaram a versão do Siberian Times, de 25 de junho, e da agência de notícias russa EurAsia Daily, que, dois dias depois, em 27 de junho, reconheceu que a história não era verdadeira. A agência ofereceu uma recompensa em dinheiro em espécie para quem identificasse o homem, que no vídeo diz se chamar Alexander, e prometeu colaborar com as autoridades para esclarecer o caso.

Os sites Extra e Metrópoles retificaram o conteúdo e publicaram seus esclarecimentos depois da revelação que o homem não havia sido “mantido refém” pelo urso.

Captura de tela feita em 4 de julho de 2019 de um dos vídeos viralizados no YouTube

Segundo explicou a EuroAsia Daily, o vídeo chegou à agência por meio de “um homem de negócios muito famoso em Tuva”, cujo nome e sobrenome não revelaram a pedido dele. “Afirma que recebeu a informação de seus amigos caçadores que conhecem as testemunhas oculares do incidente”, detalhou.

“A história nos pareceu plausível devido ao fato de recentemente os jornais de Tuva terem publicado um relato sobre um morador local, Nikolay Irgit, que mordeu um urso que o havia atacado. Parece que os ursos nesta região e nas regiões vizinhas se sentem em casa”, acrescentou.

Consultado pela AFP, o editor-chefe da EurAsia Daily, Vigen Akopyan, explicou por e-mail que a investigação lançada para tentar descobrir a história real por trás do vídeo viral “não havia dado resultado”.

Um dia depois da publicação de sua primeira nota a respeito, o Siberian Times divulgou uma atualização com declarações de porta-vozes do Ministério da Saúde de Tuva: “Não podemos confirmar se o caso aconteceu em Tuva. Não foi registado pelo Ministério da Saúde, pelo Ministério de Emergências, nem por nenhuma outra entidade oficial [na região]. Provavelmente aconteceu fora de Tuva”, enfatizaram.

No mesmo dia, a agência Ria Novosti publicou as declarações de porta-vozes do Ministério de Assuntos Internos do país, que também negaram que o homem visto no vídeo fosse um paciente da região de Tuva.

Enterrado vivo?

Embora mundialmente a história tenha ficado conhecida como a do homem atacado por um urso, o mesmo vídeo circula nas redes sociais russas (Vk) pelo menos desde 19 de junho. Nessas publicações aparece a mesma pessoa, mas com o título: “Uma pessoa viva sai de um túmulo”, segundo a tradução do russo obtida pelo Google Tradutor.

“Não consigo entender como saiu do túmulo. A tampa estava fixada com pregos, coberta com terra. Tanto tempo enterrado em um caixão, sem ar, água, comida, já meio decomposto. Quem consegue explicar isso?”, é a descrição do vídeo, também de acordo com a ferramenta do Google.

O vídeo, segundo relataram meios de comunicação locais, circulou em aplicativos de mensagem instantânea acompanhado de um arquivo de áudio, afirmando que após inundações o homem havia saído do caixão de um cemitério de Sochi, na Rússia. Outras versões mencionadas por usuários nas redes sociais asseguravam que o caixão era de um cemitério em Yessentuki, no sul do país.

A pista cazaque

O grupo Zello Poisk, que se dedica a buscar pessoas perdidas em Aktobe, no Cazaquistão, pediu ajuda a seus seguidores no Instagram para encontrar a pessoa do vídeo. Alguns afirmaram ter recebido a gravação por aplicativos de mensagem, como se pode ver na captura de tela abaixo, traduzida pelo Google.

Captura de tela de uma publicação no Instagram feita em 4 de julho de 2019 com um comentário traduzido pelo Google, no qual uma usuária menciona uma das versões sob a qual o vídeo circulou

Em uma publicação posterior, de 23 de junho, o Zello Poisk anunciou que, após analisar o vídeo, identificou que um idioma ouvido não era o falado na região russa de Tuva, mas sim era cazaque.

“Decidimos investigar e descobrir de onde era essa pessoa (...) A julgar pela linguagem coloquial que se ouve ao fundo, isto foi no Cazaquistão, pois o idioma ouvido é cazaque. Verificamos os hospitais e pedimos ajuda aos nossos entes queridos. Finalmente, descobrimos que este homem do vídeo está em nossa cidade. Ele está sendo tratado em um hospital da cidade e está se recuperando”, lê-se na descrição, de acordo com o Google Tradutor.

Na nota publicada pelo Siberian Times, os porta-vozes do Ministério da Saúde de Tuva também haviam afirmado que as palavras ouvidas ao fundo no vídeo não pareciam corresponder à língua falada em Tuva.

Jornalistas da AFP no Cazaquistão confirmaram que o médico e o paciente realmente falam em russo no vídeo, e que a equipe do hospital fala em um idioma diferente.

É meu paciente!

Em 30 de junho, o Daily Mail publicou uma nota com declarações de Rustem Isayev, diretor do Centro Médico Aktobe, na cidade homônima no Cazquistão. O médico confirmou que o protagonista  do vídeo viral, a quem nomeou Alexander P., de 41 anos, era, na realidade, seu paciente que estava tratando sua psoríase em Aktobe, a mais de 2.600 quilômetros de Tuva, na Rússia. Isayev descartou que Alexander tivesse sido atacado por um urso nesta região russa.

“Ele estava em sua casa, apático, não queria viver, estava em estado de depressão”, detalhou o médico. “Parou de cuidar da sua psoríase e chegou até nós nesse estado [que se vê no vídeo], acrescentou, detalhando que Alexander continua o seu tratamento de forma ambulatorial, sob os cuidados de sua mãe.

Em conversa com a AFP, Isayev confirmou esta informação: Alexander “chegou até nós há 15 dias e o tratamos. Quando o seu estado melhorou, lhe demos alta. É cidadão do Cazaquistão e mora em Aktobe”.

Questionado sobre como o vídeo de seu paciente viralizou, o médico explicou que Yerlan Umirbekov, um médico de sua equipe, o filmou e enviou por seu celular a gravação aos seus amigos e, assim, as imagens começaram a circular. Isayev assinalou que serão implementadas sanções disciplinares ao médico em questão. “Não posso demiti-lo. É um bom cirurgião, um especialista”, acrescentou.

A AFP tentou em várias oportunidades, sem sucesso,  falar com Yerlan Umirbekov.

Captura de tela feita em 4 de julho de 2019 de uma das fotos de Alexander publicadas pelo Daily Mail, com crédito ao Siberian Times

Em resumo, o homem não foi atacado por um urso na região russa de Tuva. Na verdade, trata-se de um cidadão cazaque que foi atendido em um hospital da cidade de Aktobe, no Cazaquistão, por conta de sua psoríase.

EDIT 05/07: Esclarece que o depoimento de Rustem Isayev foi dado à AFP.
Nadia Nasanovsky
AFP Brasil