O presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, no lançamento do Covid-Organics em Antananarivo, em 20 de abril de 2020 (Rijasolo / AFP)

Madagascar desmente ter denunciado uma tentativa de suborno da OMS para envenenar uma possível cura da COVID-19

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De acordo com publicações compartilhadas centenas de vezes nas redes sociais desde meados de maio, o presidente de Madagascar denunciou que a OMS lhe ofereceu um suborno de 20 milhões de dólares “para envenenar a cura da COVID-19”, que é “baseada em uma planta”. O gabinete do próprio presidente malgaxe, Andry Rajoelina, “desmentiu formalmente” esta afirmação à AFP.

“A OMS OFERECEU UM SOBORNO DE $ 20 MILHÕES PARA ENVENENAR A CURA COVID-19-PRESIDENTE DE MADAGASCAR [sic], diz a publicação, que afirma que a cura é “baseada na planta #Artemisia #Annua”, que pode “curar os pacientes com COVID-19 dentro de dez dias, disse o presidente”.

A mensagem, que viralizou nas redes sociais ao menos desde o último dia 16 de maio (1, 2, 3, 4, 5), mistura afirmações atribuídas ao presidente africano, como que ele acredita que “a única razão pela qual o resto do mundo se recusou a tratar a cura de Madagáscar para o coronavirus com urgência e respeito é que o remédio vem da África [sic], e que o problema é “que (a bebida) vem de África e não podem admitir... que um país como Madagáscar... idealizou esta fórmula para salvar o mundo [sic].

Captura de tela feita em 4 de junho de 2020 de uma publicação no Facebook

Postagens semelhantes também têm circulado em francês e espanhol (1) .

O remédio herbal ao qual as postagens se referem é uma infusão elaborada à base de artemísia, uma planta que existe em grandes quantidades na África, onde é usada para tratar a malária.

O presidente Rajoelina anunciou o lançamento da infusão como cura contra o novo coronavírus no último dia 20 de abril e, desde então, defende a sua eficácia. Para isso, pronunciou frases como as que aparecem nas publicações viralizadas: “Se ao invés de Madagascar tivesse sido um país europeu que tivesse descoberto este remédio haveria tantas dúvidas? Não acho”, afirmou, durante uma en­tre­vis­ta aos meios de comunicação franceses Fran­ce 24 e Ra­dio Fran­ce In­ter­na­tio­nal (RFI).

A infusão, produzida pelo Instituto de Madagascar de Pesquisa Aplicada (IMRA), é um remédio “preventivo e curativo contra a COVID-19”, segundo Rajoelina. As suas declarações geraram interesse pela planta em vários países africanos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) mencionou a possível eficácia deste remédio natural, embora tenha destacado que ele ainda não passou por nenhum teste clínico.

“As plantas medicinais, como a artemísia annua, estão sendo consideradas como possíveis tratamentos da COVID-19, mas, antes, devem ser realizados testes para avaliar a sua eficácia e determinar se tem efeitos colaterais”, expressou a OMS.

A organização insiste que a eficácia deste chá de ervas deve ser avaliada pelos protocolos científicos em vigor. “Sobre este medicamento, a nossa posição é clara: não houve testes, estimulamos a pesquisa, mas todo medicamento recomendado deve ter sido testado em ensaios para demonstrar a sua eficácia e sua inocuidade, para que não seja danoso para a população. E este não é o caso deste remédio”, explicou no último dia 29 de abril à AFP o responsável de operações de urgência da OMS na África, Michel Yao.

Até 5 de junho, ainda não havia uma vacina ou cura aprovada para o novo coronavírus, que já deixou mais de 392 mil mortos em todo o mundo.

Apesar disso, Andry Rajoelina insiste na eficácia da infusão de artemísia, distribuída sob o nome “Covid-Organics”, baseando-se em “observações científicas”.

“Pode ser observada uma melhora evidente do estado de saúde de pacientes que receberam o remédio 24 horas depois de tomá-lo pela primeira vez. A cura foi constatada após sete dias, no máximo dez. Este remédio é natural, não é tóxico nem invasivo”, afirmou o governante em 11 de maio na entrevista mencionada anteriormente concedida ao grupo France Médias Monde (France 24, RFI).

A bebida tem sido distribuída em escolas e entre a população de Madagascar.

Estudantes bebem a infusão Covid-Organics em escola em Antananarivo, em 23 de abril de 2020

Não há evidências de que Rajoelina tenha falado de suborno da OMS

A AFP não encontrou nenhum registro das declarações atribuídas a Rajoelina sobre um suborno por parte da OMS para envenenar a infusão de artemísia, nem nos meios de comunicação, nem nas redes sociais, onde o presidente malgaxe se expressa muitas vezes.

A diretora de gabinete da Presidência da ilha africana, Lova Ranoramoro, declarou à AFP em 14 de maio: “O presidente de Madagascar desmente formalmente todas essas alegações”. “Desde o lançamento do remédio Covid-Organics, foram muitas as declarações falsamente atribuídas ao presidente Andry Rajoelina”, lamentou Ranoramoro.

Declarações da deputada italiana Sara Cunial

O texto faz referência, por sua vez, às declarações de “um político italiano” no Parlamento de seu país, Sara Cunial, uma deputada independente. Cunial chamou o fundador da Microsoft, o norte-americano Bill Gates, de “criminoso da vacina”, acusando-o de planos para “controlar a raça humana”, segundo a mensagem viral.

Várias afirmações desta política foram verificadas como falsas, ou enganosas, pela AFP neste artigo.

Tanzânia não expulsou a OMS

Em outro parágrafo do longo texto viral é dito: “A controvérsia de Madagáscar estourou dias depois que a Tanzânia expulsou a OMS [sic], sendo imitada por outros países africanos. Até esta data, no entanto, o país segue fazendo parte do organismo, como pode ser comprovado em seu site.

Em resumo, Madagascar não denunciou uma tentativa da OMS de subornar o presidente do país, Andry Rajoelina, para envenenar a infusão de artemísia que o chefe de Estado apresenta como cura para o novo coronavírus.