Um vídeo mostra uma interpretação errônea de uma declaração do diretor da OMS

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Publicações compartilhadas mais de 1,4 mil vezes nas redes sociais ao menos desde o último dia 22 de dezembro sustentam que o diretor da Organização Mundial de Saúde (OMS) disse que as doses de reforço das vacinas contra a covid-19 estão sendo usadas “para matar crianças”. Contudo, o organismo internacional, que apoia a imunização de todas as faixas etárias, explicou à AFP que o diretor hesitou em pronunciar a primeira sílaba da palavra “crianças” em inglês.

“Eu ouvi direito ou o Diretor da OMS disse que alguns países estão usando as doses de reforço da vacina para MATAR crianças? É isso mesmo, produção? Digam que isso não é verdade, por favor”, assinala uma das publicações, compartilhadas no Twitter (1, 2, 3), no Facebook (1, 2, 3) e no Instagram (1, 2, 3), juntamente com um vídeo, que varia de 20 a 50 segundos de duração.

A sequência viralizada circulou no YouTube (1) e com traduções em francês, espanhol e italiano.

Captura de tela feita em 24 de dezembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

As imagens são um trecho de um vídeo publicado pela agência de notícias russa Ruptly de uma coletiva de imprensa do diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em Genebra, em 20 de dezembro de 2021.

Por volta dos 25 segundos da gravação viralizada nas redes sociais, as legendas em português indicam que Adhanom falou: “Em vez de como nós estamos vendo, alguns países estão usando-as como doses de reforços para matar crianças”.

Embora Adhanom não tenha sido claro ao falar e o que disse possa ser mal interpretado, ele não falou em matar crianças. As transcrições das coletivas publicadas pela OMS mostram que a interpretação vista nas redes sociais é incorreta.

Captura de tela feita em 23 de dezembro de 2021 de uma transcrição da coletiva de imprensa da OMS realizada em 20 de dezembro de 2021 ( . / )

A OMS disse à AFP em 23 de dezembro de 2021 que Adhanom hesitou na primeira sílaba da palavra em inglês “children”, “crianças” em português.

Segundo a OMS, na coletiva de imprensa do último dia 20 de dezembro, “quando [Adhanom] pronunciou a palavra ‘crianças’, hesitou na primeira sílaba, ‘chil’, e, então, soou como ‘cil / kil’”.

“Então ele pronunciou a mesma sílaba imediatamente depois, e pertencia a ‘cil-children’. Qualquer outra interpretação diferente disso é 100% incorreta”, acrescentou o organismo.

A OMS também assinalou que incentiva o uso de vacinas para proteger as pessoas do novo coronavírus.

Durante a declaração, Adhanom Ghebreyesus estava falando sobre a igualdade entre países de alta e baixa renda.

“Então entram aqui as questões de equidade. Ao invés de vacinar [com as doses de reforço] uma criança em países de alta renda, é melhor vacinar os idosos em países onde os idosos não foram vacinados, nem sequer com as primeiras vacinas”, disse.

Em uma declaração emitida em 24 de novembro de 2021, a OMS afirmou que “embora as avaliações de risco-benefício respaldem claramente a vacinação de todas as faixas etárias, incluindo crianças e adolescentes, o benefício direto para a saúde de crianças e adolescentes é menor em comparação com a vacinação de adultos mais velhos devido à incidência de gravidade ou morte por covid-19”.

Em 8 de dezembro de 2021, a diretora da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Carissa Faustina Etienne, assinalou durante uma entrevista coletiva que é “perigoso” não priorizar os adultos de mais idade no processo de vacinação e “coloca em risco nossos sistemas de saúde. Por isso, pedimos aos países que priorizem uma alta cobertura da vacinação nos grupos de população vulneráveis”.

“Em outros países cujas campanhas de vacinação estão mais atrasadas, como Jamaica, Nicarágua e Guatemala, toda a população geral está sendo vacinada, [motivo] pelo qual muitos jovens e pessoas saudáveis estão sendo protegidos antes das pessoas mais velhas”, acrescentou.

Além disso, a diretora Etienne fez um chamado à equidade no fornecimento de doses na América Latina.

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