O vídeo da polícia jogando suas algemas na França não está relacionado à covid-19

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Uma gravação que mostra um grupo de policiais jogando suas algemas no chão em frente ao Arco do Triunfo em Paris foi compartilhada nas redes sociais mais de 1.000 vezes desde 12 de dezembro de 2021 como se fosse uma manifestação contrária às medidas implementadas pela pandemia e as vacinas contra a covid-19 na França. Isso é falso. O vídeo data de junho de 2020 e mostra um protesto dos agentes de segurança em oposição a uma reforma policial do então ministro do Interior francês, Christophe Castaner.

“A polícia francesa lança as algemas e anuncia sua renúncia e se junta ao povo na recusa de tomar a vacina contra a Corona e diz que existem partidos globais corruptos que querem subjugar e controlar os povos”, diz uma das publicações compartilhadas no Twitter (1, 2), no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2) e no Telegram.

O vídeo circulou com alegações semelhantes em alemão, espanhol e inglês.

Captura de tela feita em 17 de dezembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

No vídeo, um grupo de policiais joga suas algemas no chão enquanto a câmera avança. O narrador diz em francês: “Aqui estamos nós em torno do Arco do Triunfo, imagens ao vivo das centenas de policiais em torno do Arco do Triunfo”. Cânticos de "Castaner, renúncia" também são ouvidos.

O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou em 12 de julho de 2021 a obrigatoriedade da vacina contra a covid-19 para todos os profissionais de saúde, bem como a generalização de um certificado de saúde para que a população tenha acesso à maioria dos locais públicos. Nas semanas seguintes, dezenas de milhares de pessoas protestaram contra essas medidas.

Em novembro de 2021, o Governo francês decretou novas medidas sanitárias diante de um aumento nos casos de covid-19, como o uso obrigatório de máscara em ambientes fechados e uma campanha de vacinação de reforço para maiores de 18 anos.

No entanto, o protesto da polícia no vídeo viral não está relacionado a nenhuma dessas políticas governamentais.

Uma busca reversa por um dos frames no buscador Yandex levou a um tuíte na conta do partido político francês Reagrupamento Nacional, do departamento de Vale do Oise, com a mesma sequência, mas datada de 14 de junho de 2020. Ou seja, meses antes do início da campanha de vacinação, em dezembro daquele ano, e da implementação do certificado sanitário na França.

O vídeo encontrado no Twitter vem acompanhado da seguinte mensagem em francês: “NOITE DE ONTEM - Furiosa ação policial à noite na Champs Elysées”.

A AFP realizou diversas pesquisas nas redes sociais com as palavras-chave da mensagem e chegou a um vídeo gravado ao vivo, publicado em 14 de junho de 2020 às 00H01 (hora local de Paris), na conta do Facebook do portal de notícias Brut.

Os editores da AFP em Paris reconheceram a voz do narrador, identificado como o jornalista francês Rémy Buisine, também mencionado na legenda que acompanha a transmissão ao vivo.

O vídeo viral vinculado à covid-19 é apenas um trecho da transmissão de Buisine com baixa qualidade de imagem. Nas duas versões, a câmera segue a mesma fileira de policiais jogando suas algemas no chão. Ambos mostram o mesmo policial filmando e o mesmo homem mascarado e uniformizado, com um capacete de motociclista. A voz de Buisine pode ser ouvida nos dois vídeos.

Comparação feita em 17 de dezembro de 2021 de uma captura de tela do vídeo viral (E) e da captura da transmissão ao vivo no Facebook ( . / )

Na transmissão ao vivo, Buisine descreve que o protesto foi realizado contra os planos de reforma do então ministro do Interior, Christophe Castaner. “Eles estão se manifestando porque retiraram a técnica de detenção chamada estrangulamento (...) eles esperam que o governo revogue a decisão”, explica Buisine.

Em 8 de junho de 2020, Castaner, que deixou o cargo no mês seguinte, lançou várias medidas de segurança pública, depois que manifestantes saíram às ruas para protestar contra a violência de policiais franceses, a quem acusaram de agir com o mesmo racismo contra minorias étnicas que seus pares nos Estados Unidos.

A polícia francesa negou qualquer semelhança com as ações da polícia norte-americana, que na época foi fortemente condenada dentro e fora do país pelo assassinato do cidadão negro George Floyd por um policial branco em Minneapolis, Minnesota.

A manifestação também foi gravada naquela noite pela AFP:

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