O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, aplica uma dose da vacina contra a covid-19 na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, em 20 de junho de 2021 ( AFP / Andre Borges)

Publicações enganam ao associar a vacinação em massa ao surgimento de novas variantes

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Após o anúncio da detecção da variante ômicron do SARS-CoV-2, usuários nas redes sociais associam a vacinação em massa contra a covid-19 ao surgimento de novas cepas do vírus, como resultado de uma suposta “pressão seletiva” criada pelos imunizantes, em publicações compartilhadas mais de 1.600 vezes desde pelo menos 26 de novembro de 2021. Mas isso é enganoso. Especialistas explicaram à AFP que as variantes surgem a partir da replicação do vírus e que, por diminuir sua transmissão, a vacinação seria, justamente, uma das formas de reduzir o risco da aparição de novas cepas. Além disso, essas mutações são monitoradas para que os imunizantes possam ser eventualmente adaptados contra novas variantes.

“Aos que estão espantados com o surgimento de mais uma variante de preocupação,agora a B.1.1.259 sul-africana,não foi por falta de aviso: alertamos que fazer uma vacinação em massa no meio de uma pandemia seria o caldo de cultura perfeito para criar variantes por pressão seletiva”, diz uma das publicações compartilhadas no Twitter (1, 2, 3). A alegação circulou também no Facebook (1, 2, 3) e Instagram.

Captura de tela feita em 8 de dezembro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

Como surgem as variantes?

Especialistas explicaram à AFP que as mutações de um vírus, que dão origem às variantes, ocorrem naturalmente à medida que o vírus se reproduz nas células humanas.

Maria Carolina Sabbaga, vice-diretora do Centro de Desenvolvimento Científico do Instituto Butantan, disse ao Checamos:

Em seu site, o Instituto Butantan também explica esse mecanismo: “A mutação é um processo natural e evolutivo, ainda mais se o organismo em questão tiver em sua constituição ácido ribonucleico (RNA, o material genético do vírus), como é o caso do SARS-CoV-2. (...) Ao invadir uma célula, o vírus entrega seu material genético aos ribossomos, estruturas nas quais são produzidas as proteínas das células. Os ribossomos montam as cópias do vírus. Sempre que isso acontece, existe a chance de acontecer um erro na réplica. Uma ou outra mutação pode dar vantagem ao vírus e, ao ser passado adiante, ele vai produzir cópias já com essa vantagem”.

“A gente tem que ter em mente que o vírus SARS-CoV-2 sofre mutações sempre que infecta alguém. Ele acumula cerca de duas a três mutações ao mês. Isso é algo natural e esperado da biologia viral. Qualquer vírus acumula mutações quando infecta uma pessoa”, disse Anderson Brito, virologista e pesquisador científico do Instituto Todos pela Saúde (ITpS, São Paulo-SP).

“Em grande parte essas mutações são neutras, não trazem benefício algum ao vírus, e uma pequena fração delas é que pode sim trazer alguma vantagem. Nesse sentido, quando reduzimos o número de infecções que ocorrem é que podemos de fato evitar o surgimento de novas mutações e novas variantes com maior potencial danoso”, acrescentou Brito.

O virologista também recordou que, com exceção da ômicron, todas as outras variantes de preocupação listadas pela OMS (alfa, beta, gamma e delta) foram detectadas em 2020, antes de as campanhas de vacinação em massa contra a covid-19 começarem, em dezembro desse ano, como indicado pela organização mundial.

“A disseminação dessas novas variantes ocorre muito facilmente em uma população sem qualquer proteção. Por outro lado, a chance de induzir resposta imune protetora é enorme com a vacinação em massa”, acrescentou ao Checamos Eduardo Silveira, imunologista e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP).

Pressão evolutiva

Considerando que as variantes surgem a partir de mutações aleatórias durante o processo de replicação do vírus, especialistas explicaram que o SARS-CoV-2 está naturalmente em constante pressão evolutiva. A pressão evolutiva gerada pelas vacinas, como alegam as publicações virais, “não seria mais do que a pressão evolutiva que a gente já tem nos níveis que enfrentamos nessa pandemia com infecção natural”, disse ao Checamos Fernando Spilki, virologista da Universidade Feevale e coordenador da Rede Corona-ômica.BR-MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) para sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil.

Nesse sentido, Maria Carolina Sabbaga, do Butantan, explicou que não é a vacinação que causa essas mutações, e que existe uma vigilância constante dessas mudanças. “Não é que ele [vírus] muta porque você se vacinou. Ele está mutando o tempo inteiro”.

“Imagine que um vírus faz cinco vírus diferentes dele, cada um com um erro diferente, aí quatro morrem com a vacinação, e um não morre. É por isso que falam que a vacina pressiona [evolutivamente]. Mas o que tem que ficar claro é que não é do dia para a noite, e isso não acontece a ponto de acharmos que deve parar a vacinação. Ao contrário: é ela [a vacina] que segura” a proliferação do vírus, afirmou Sabbaga. “E também tem outra coisa muito importante: o vírus muta, faz esses erros e gera vírus variantes. Mas, se ele variar muito, para escapar muito da vacina, ele também variou tanto que também não consegue mais infectar a célula. Ele tem que variar para escapar da vacina, mas também não pode variar tanto assim. Então a vacina começa a perder força, [mas] não é que ela pára de funcionar. E por isso vamos aprimorando a vacina.”

O virologista Anderson Brito concorda:

Ele também explicou que, em comparação ao que ocorre com drogas e medicamentos antivirais, é muito mais difícil para o vírus escapar completamente da proteção oferecida pela vacina.

“As vacinas não são como drogas antivirais que têm um alvo único e específico, de forma que alguns vírus possam eventualmente, digamos, gerar algum tipo de resistência a essa droga. Vacinas não são assim. Os mecanismos de defesa que vêm de vacinas ou de infecções prévias têm dezenas ou centenas de alvos diferentes no vírus, e escapar disso tudo é mais difícil”, disse Brito. “Para evitar as defesas que as vacinas nos dão por completo os vírus precisariam acumular várias mutações ao mesmo tempo, porque o nosso sistema imunológico ataca o vírus por vários lados diferentes.”

Eduardo Silveira também pontuou que, embora as vacinas atuais não sejam esterilizantes - isto é, apesar de serem eficientes para impedir óbitos e casos graves, não conseguem impedir totalmente a infecção em todos os casos -, elas também impactam no surgimento de variantes. “No caso de a infecção ainda ocorrer, já que as vacinas disponíveis contra a covid-19 não são esterilizantes, a resposta celular induzida pela vacinação tem como atuar rapidamente contra as células infectadas, destruindo-as. Isso tira a margem de tempo que o vírus teria para continuar sua replicação livremente e gerar novas variantes”, explicou.

Equidade de vacinas e novas variantes

Todas as vacinas contra a covid-19 são muito eficazes em prevenir formas graves da doença, hospitalização e óbitos causados por todas as variantes do coronavírus, informou a OMS em outubro de 2021.

No entanto, a organização também destaca que as diferenças globais no acesso aos imunizantes permitem que novas variantes continuem surgindo. “A distribuição desigual de vacinas não apenas está deixando incontáveis milhões de pessoas vulneráveis ao vírus. Também está permitindo que variantes mortais surjam e ricocheteiem em todo o mundo”.

Segundo o Painel Global para Equidade de Vacinas, uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), OMS e Universidade de Oxford, em países de alta renda 64,94% da população em média foi vacinada com, pelo menos, uma dose até 8 de dezembro de 2021. Já nos países de baixa renda, a taxa foi de 8,35%.

Captura de tela feita em 8 de dezembro de 2021 do site do Painel Global para Equidade de Vacinas ( . / )

De acordo com Fernando Spilki, “o problema não é a vacinação em massa: esse seria, inclusive, o protocolo mais adequado para evitar o desenvolvimento de novas variantes. O problema reside na vacinação em pequena escala. Nela, ficam muitos indivíduos suscetíveis convivendo com alguns poucos vacinados”.

Um estudo publicado em abril de 2021 na revista Nature examina como novas variantes do SARS-CoV-2 podem surgir em um cenário onde a imunização ainda não atinge todos os indivíduos e conclui que os esforços para expandir a vacinação contra a covid-19 devem continuar.

Segundo a biomédica, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e divulgadora científica pela Rede Análise Covid-19, Mellanie Fontes-Dutra, ainda que as vacinas disponíveis atualmente contra a covid-19 sejam mais eficazes na prevenção de hospitalizações e óbitos do que na prevenção de infecção, uma alta cobertura vacinal teria impacto cada vez maior para reduzir a transmissão.

“Vacinas precisam de amplas campanhas de vacinação em massa. Quanto mais pessoas estiverem vacinadas, veremos um impacto cada vez maior na transmissão viral. Isso porque vacinados eliminam o vírus mais rapidamente (em termos de tempo), liberam menos partículas virais para o ambiente e resolvem a infecção mais rápido comparado com não vacinados. Portanto, à medida que a vacinação aumenta, vemos uma supressão na frequência dessas mutações do vírus”, disse ao Checamos.

Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos também classificam como “mito” a alegação de que as vacinas contra a covid-19 podem gerar novas variantes.

Em resposta ao Checamos, o Ministério da Saúde afirmou que a “vacinação em massa é a forma mais eficaz de reduzir a circulação de vírus na população, reduzindo o risco de surgimento de novas variantes. Vírus, de maneira geral, tendem a sofrer pressão seletiva para desenvolvimento de variantes resistentes às barreiras para sua propagação. No entanto, o risco de surgimento de uma nova variante é tanto maior quanto maior for o volume de vírus circulando e o tempo no qual esse vírus circula”.

Em resumo, é enganoso dizer que a vacinação em massa gera novas variantes. A vacinação é capaz de reduzir as chances de surgimento de novas variantes por impactar na circulação viral. A alta cobertura vacinal e um acesso mais igualitário às vacinas diminuem as possibilidades de que apareçam variantes com maior potencial danoso, segundo especialistas e organizações de saúde.

*Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

13 de dezembro de 2021 Atualiza a filiação do especialista no 7º parágrafo do texto.
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