Profissionais trabalham na linha de produção da vacina CoronaVac, contra a covid-19, no centro de produção biomédico do Instituto Butantan, em São Paulo, em 14 de janeiro de 2021 ( AFP / Nelson Almeida)

A cientista Natalia Pasternak não chamou as vacinas anticovid de “experimentais” em seu artigo

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Publicações que somam mais de 13 mil interações nas redes sociais desde 18 de outubro de 2021 alegam que Natalia Pasternak, microbiologista e divulgadora científica brasileira, chamou as vacinas que estão sendo usadas contra a covid-19 de “experimentais” em uma de suas colunas no jornal O Globo. Contudo, o texto não menciona o termo nenhuma vez. Na coluna, a especialista afirma que os imunizantes oferecem uma boa resposta diante da emergência pandêmica e destaca que as vacinas de “segunda geração”, que estão por vir, poderão ser “planejadas e produzidas com mais folga”.

“Parabéns, seus otários! Ela ‘sempre soube que era experimental’, mas mentiu esse tempo todo só para convencer você a nos chamar de negacionistas. Como prêmio, agora a Paspalhak mora nos Estados Unidos”, diz o texto de uma das publicações compartilhadas no Twitter (1, 2), no Facebook (1, 2) e no Instagram.

Os conteúdos viralizados destacam uma citação: “Sabíamos que essas primeiras vacinas não seriam necessariamente as melhores. Demos sorte”.

O trecho faz parte da coluna no jornal O Globo que Pasternak publicou no último dia 18 de outubro, mas ele foi tirado de contexto.

Captura de tela feita em 20 de outubro de 2021 de uma publicação no Twitter ( . / )

Pasternak é microbiologista, divulgadora científica e presidente do Instituto Questão de Ciência, além de pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

Primeiras vacinas

Em seu artigo, a pesquisadora falou sobre os imunizantes de “segunda geração”, mas, antes disso, fez um retrospecto sobre os utilizados atualmente. Ela afirma que no início era esperado que as primeiras vacinas não fossem “necessariamente as melhores”, pois poderiam não ser as mais adequadas para “as diferentes realidades de cada povo ou país”.

Ela seguiu argumentando que, tendo isso em vista, “tivemos muita sorte”, pois diversas dessas vacinas “foram sucessos nos primeiros testes clínicos, com eficácia muito maior do que ousávamos esperar”. Ela destacou que, ainda assim, essas vacinas não deverão ser produzidas de maneira contínua em todo o mundo.

“Agora, começam a surgir os primeiros embriões do que serão as vacinas de covid de segunda geração: aquelas planejadas e produzidas com mais folga, levando em conta não só a eficácia e a segurança, que, claro, são essenciais, mas também as condições de transporte, aplicação e custo”, completou.

Funcionários trabalham na linha de produção da vacina CoronaVac, contra a covid-19, no centro de produção biomédico do Instituto Butantan, em São Paulo, em 14 de janeiro de 2021 ( AFP / Nelson Almeida)

Pasternak concluiu o texto afirmando que a emergência imposta pela covid-19 “já [foi] resolvida pelas primeiras vacinas” e que agora “temos tempo de investir em estratégias mais criativas e adaptadas a necessidades locais”, algo que permitirá melhor preparação para emergências futuras.

Em nenhum trecho do artigo a autora se refere às vacinas como “experimentais”, tampouco afirma que a população foi feita de “cobaia”, como apontam usuários nas redes sociais.

Eficácia dos imunizantes

Em outras ocasiões, Natalia Pasternak incentivou o uso das vacinas como estratégia de contenção do avanço do vírus. Em seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19 ⎼ que investiga a atuação do governo federal do Brasil durante a pandemia ⎼, em 11 de junho de 2021, ela comparou os imunizantes a um goleiro: apesar de eficazes, não são infalíveis.

“Como é que a gente sabe que um goleiro é um bom goleiro? A gente olha o histórico dele, que é a eficácia do goleiro, a frequência com que ele pega a bola. Se ele tem um bom histórico, uma boa eficácia nos testes clínicos, ele é um bom goleiro. Mas, isso não quer dizer que ele é infalível”, disse a microbiologista.

Ela ainda acrescentou: “Se ele tem uma defesa do time que (...) não usa máscara, que não faz distanciamento social, que não respeita as medidas preventivas, vai ter tanta bola vindo pro gol, vai ter tanto vírus circulando, que a probabilidade dele errar é muito maior”.

Em uma página dedicada às vacinas contra a covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que “o acesso equitativo a vacinas seguras e eficazes é fundamental para acabar com a pandemia [de] covid-19”.

“Vacinas experimentais”

Em julho de 2021, o imunologista e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, Eduardo Silveira, afirmou que por haver um processo científico rigoroso, e por já existirem dados confiáveis coletados sobre os imunizantes em uso no Brasil, “colocar que as vacinas [que estão sendo aplicadas] são experimentais é uma grande falácia”.

Mulher é vacinada contra a covid-19 em Nossa Senhora do Livramento, comunidade nas margens do Rio Negro, próximo de Manaus, Amazonas, em 9 de fevereiro de 2021 ( AFP / Michael Dantas)

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também informou ao Checamos em outubro de 2021 que todas as vacinas em uso no Brasil “tiveram seus dados de eficácia e segurança avaliados e aprovados” por ela, “garantindo o seu uso dentro das indicações aprovadas”.

A Anvisa acrescentou na nota enviada ao Checamos que os imunizantes em uso “tiveram condução de estudo de fase 3 de pesquisa clínica e já encerraram esta etapa”.“Nenhuma vacina em uso no país foi dispensada de apresentação de dados de fase 3 da pesquisa clínica”, concluiu.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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