Caixões aguardam para serem enterrados em uma vala comum em Manaus, no estado do Amazonas, durante a pandemia de covid-19, em 6 de maio de 2020 ( AFP / Michael Dantas)

Maior número de mortes por covid-19 em 2021 do que em 2020 não indica que vacinas são ineficazes

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Uma publicação circula nas redes sociais desde o último dia 17 de outubro com mais de 3.500 compartilhamentos, afirmando que em 2021 ocorreu o dobro de mortes por covid-19 do que em 2020 apesar da vacinação. A alegação, no entanto, é enganosa. Especialistas explicaram à AFP que esses dados refletem fatores como o surgimento de novas variantes do vírus, a maior circulação de pessoas e o ritmo lento na vacinação.

“Em 2020, sem vacinas, o Brasil não chegou a 200 mil mortes com covid; em 2021, com mais de 100 milhões de pessoas vacinadas com 2 doses, até agora mais de 400 mil pessoas morreram, ou seja, o dobro. Fatos. Apenas fatos”, afirma um usuário no Twitter. A publicação também foi compartilhada no Facebook (1, 2).

Captura de tela de uma publicação no Twitter feita em 18 de outubro de 2021 ( . / )

De acordo com o Ministério da Saúde, em 2020, em quase nove meses, o Brasil acumulou 194.949 mortes causadas pelo novo coronavírus, desde o primeiro óbito em 12 de março. Com 603.465 óbitos contabilizados desde o início da pandemia até 18 de outubro de 2021, ao todo, 408.516 pessoas faleceram nos dez meses deste ano.

Óbitos em 2021

Os picos de óbitos pela covid-19 em 2021 foram registrados no primeiro semestre. Abril foi o mês que ficou conhecido como o mais letal da pandemia no país, com um total de 67.977 óbitos, ultrapassando a marca de 66.573 atingida em março. Antes disso, o mês mais letal da pandemia havia sido julho de 2020, com 32.881 mortes, segundo dados oficiais.

O cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt explicou ao Checamos, em referência ao pico, que “essas mortes são colheitas de um plantio de infecções que ocorreu” por conta da mobilidade, ou seja, a circulação de pessoas no final de 2020, e de uma vacinação incipiente. O cientista também é coordenador da Rede Análise Covid-19, um grupo nacional de pesquisadores voluntários que se dedica à coleta de dados sobre a pandemia do novo coronavírus. Ele também disse que:

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) lançado em junho de 2021, detalhou que a variante Gamma ou P.1 “tem sido associada ao aumento da transmissão e alta carga viral”. Segundo a publicação, “estudos futuros são urgentemente necessários para avaliar a suposição de que a linhagem P.1 poderia aumentar o risco de infecção grave ou mortalidade, evidenciado pelo aumento alarmante de mortes por Covid-19 recentemente relatado em todo país”.

Estima-se que a Gamma tenha surgido no início de dezembro de 2020, na cidade de Manaus, no Amazonas. Aos poucos, ela se espalhou pelo território nacional, como explicou ao Checamos o epidemiologista Eduardo Martins Netto, do Hospital Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (HUPES-UFBA), e pesquisador da Fundação José Silveira.

“No final de 2021, a P.1 ou Gamma, de Manaus, foi espalhada lentamente pelo Brasil, transformando completamente o perfil das infecções. Isto provocou um grande aumento de casos e mortes. Foi como se uma (quase) nova doença tivesse sido introduzida”, destacou.

Vacinação lenta

A vacinação foi iniciada no país em 17 de janeiro de 2021, tendo imunizado completamente cerca de 103 milhões de pessoas até 18 de outubro. O número representa uma cobertura vacinal de 65,39% da população, de acordo com o Ministério da Saúde. Segundo especialistas consultados pelo Checamos, o ritmo da campanha de vacinação foi mais lento do que o necessário.

Martins Netto chamou a atenção para essa lentidão como uma das razões para o número de óbitos ter seguido alto em 2021: "O Brasil demorou 8 meses para chegar a 100 milhões de vacinados". "A diminuição da incidência [de óbitos] está muito mais visível quando atingimos um percentual grande de vacinados (acima de 60%)”, concluiu.

Homem indígena da tribo Guarani recebe a vacina CoronaVac contra a covid-19 na tribo São Mata Verde Bonita na cidade de Marica, Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 2021 ( AFP / Mauro Pimentel)

“As vacinas são as melhores estratégias para prevenir a covid-19. Basta olhar o que aconteceu no Reino Unido com a vacina. Temos que lembrar que a vacinação só [é eficaz] com dose completa e dose única”, ressaltou ao Checamos o infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Julival Ribeiro. O Reino Unido foi um dos países da Europa mais afetados pela pandemia, mas com 78,9% de sua população imunizada, em 18 de outubro de 2021, a média, por milhão de pessoas, de novos casos diários é de 639,49 e a de mortes é de 1,83.

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