Profissional de saúde manuseia seringa com vacina contra a covid-19 em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, em 30 de março de 2021 ( AFP / Mauro Pimentel)

Casos de mortes após vacinação não significam que imunizantes são ineficazes contra covid-19

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Desde o início da campanha de imunização contra o novo coronavírus no Brasil, casos pontuais de mortes entre vacinados têm feito usuários questionarem a eficácia dos imunizantes. Em maio de 2021 foi o caso do sambista Nelson Sargento e, em agosto, do ator Tarcísio Meira. Mas, especialistas explicam: embora nenhuma vacina seja capaz de evitar 100% de infecções e mortes, indivíduos vacinados têm muito menos probabilidade de serem hospitalizados ou de morrerem.

No último dia 6 de agosto, os atores Tarcísio Meira, de 85 anos, e Glória Menezes, de 86, foram internados com covid-19 em São Paulo. A notícia gerou críticas, uma vez que o casal estava totalmente vacinado contra a doença desde março deste ano. “Cadê a segurança dessas substâncias que chamam de vacinas? Não temos vacinas contra o COVID-19 e suas variantes”, reagiu um usuário.

Poucos dias depois, Tarcísio Meira faleceu devido à doença. “O inexplicável caso das ‘vacinas que salvam vidas’ e que não impedem contágios e nem casos graves”, diz imagem compartilhada no Facebook (1, 2, 3) e no Instagram após a confirmação da morte do ator.

Em maio de 2021, o falecimento do sambista Nelson Sargento, aos 96 anos, desencadeou comentários semelhantes:“VACINA NÃO PROTEGE. Após tomar as DUAS DOSES DO IMUNIZANTE, Nelson Sargento, presidente da Mangueira no Rio de Janeiro, morre de COVID-19”.

Capturas de tela feitas em 16 de agosto de 2021 de publicações no Facebook e Twitter ( . / )

No entanto, a ocorrência de mortes por covid-19 entre a população vacinada não quer dizer que os imunizantes não funcionam, asseguram especialistas.

A proteção nunca é de 100%

“As vacinas contra a covid-19 são eficazes. No entanto, uma pequena porcentagem das pessoas totalmente vacinadas irá contrair a doença se for exposta ao vírus. Estes são os chamados ‘casos de infecção em vacinados’”, explicam os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

“Estudos clínicos de grande escala demonstraram que a vacinação contra a covid-19 evitou que a maioria das pessoas contraísse a covid-19”, diz o texto atualizado no último dia 16 de agosto.

Mas, “nenhuma vacina previne a doença 100% das vezes. Para qualquer vacina, há casos de infecção em vacinados”, disseram os CDC, que entre janeiro e abril de 2021 foram notificados sobre 10.262 casos desse tipo. No mesmo período, cerca de 101 milhões de habitantes haviam recebido um dos imunizantes contra a covid-19 nos Estados Unidos.

Dentre os utilizados no Brasil, a taxa de eficácia para prevenção do contágio é de: 50,7%, para a CoronaVac, 66,9%, para o imunizante da Janssen, 82,4% para o da Oxford/Astrazeneca e 95% para o da Pfizer/BioNTech. Ou seja, mesmo com a maior proteção, algumas pessoas vacinadas ainda podem contrair a doença.

Profissional de saúde aplica vacina contra a covid-19 em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, em 30 de março de 2021 ( AFP / Mauro Pimentel)

A quantidade desses casos pode aumentar dependendo de fatores externos, como o nível de transmissão comunitária e a circulação de variantes no território. Em depoimento à CPI da covid-19 no último dia 11 de junho, a microbiologista Natalia Pasternak explicou esse cenário comparando a vacina com um goleiro em um jogo de futebol.

“Como é que a gente sabe que um goleiro é um bom goleiro? A gente olha o histórico dele, que é a eficácia do goleiro, a frequência com que ele pega a bola. Se ele tem um bom histórico, uma boa eficácia nos testes clínicos, ele é um bom goleiro. Mas, isso não quer dizer que ele é infalível”, disse Pasternak, que também é presidente do Instituto Questão de Ciência.

“Se ele tem uma defesa do time que (...) não usa máscara, que não faz distanciamento social, que não respeita as medidas preventivas, vai ter tanta bola vindo pro gol, vai ter tanto vírus circulando, que a probabilidade dele errar é muito maior”, acrescentou, em depoimento a senadores.

Casos graves

Quando essa contaminação acontece, o risco da pessoa vacinada desenvolver um caso grave é menor, mas ainda assim é uma possibilidade.

Segundo resultados dos ensaios clínicos, a CoronaVac apresentou entre 83,7% e 100% de eficácia para prevenir casos moderados e graves e a vacina da Janssen, 76,7% contra casos graves. As vacinas da Pfizer/BioNTech e da Oxford/Astrazeneca apresentaram, por outro lado, uma taxa de 100%.

Flávio da Fonseca, virologista do Centro de Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou ao Checamos porque essa taxa de 100% não significa que nenhuma pessoa que tomar a vacina irá desenvolver um quadro severo.

“Como a taxa de morte ou de doença grave é pequena, muitas vezes em estudos com grupos limitados, mesmo que sejam com 30, 40 mil pessoas, esses números acabam não aparecendo. Agora, quando você vai para 200 milhões de pessoas, como é o caso do Brasil, eventualmente pessoas vão falecer, não vão conseguir alcançar 100% de eficácia”, disse o virologista.

Da Fonseca acrescentou:

Idosos, imunossuprimidos

A possibilidade de desenvolver um quadro grave também pode ser influenciada por fatores particulares de cada paciente, mesmo após a vacinação: “Por exemplo, pessoas que apresentam condição de doença inflamatória, de imunossupressão, [que passam por um tratamento] que causa imunossupressão, como para o câncer, e os extremos da idade. Eu estou falando de crianças muito pequenas e idosos”.

“Esse tipo de paciente é particularmente suscetível porque eles ou ainda não têm um sistema imune completamente desenvolvido - no caso de uma criança muito jovem - ou então apresentam um sistema imune senescente, no caso dos idosos”, acrescentou Da Fonseca.

Isso faz com que, mesmo após a vacina, o sistema imunológico de pessoas mais velhas não consiga “agir com a potência que o sistema imune de uma pessoa jovem tem”.

Em outra verificação feita pela AFP, em março de 2020, o então diretor-geral de Saúde da França, Jérôme Salomon, também explicou: “Quanto mais velhos, mais frágeis somos e estamos expostos a formas mais graves”.

Fatores semelhantes são citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em texto que explica porque alguns indivíduos vacinados ainda podem contrair a covid-19: “A idade da pessoa, suas condições de saúde subjacentes, uma infecção anterior de covid-19, a exposição ao SARS-CoV-2 ou a circulação de variantes podem ter um impacto na efetividade da vacina”.

O ator Tarcísio Meira tinha 85 anos e, segundo seu filho, “algumas comorbidades bastante sérias”, como problemas renais e pulmonares. Já o sambista Nelson Sargento tinha 96 anos e era, desde 2005, paciente do Instituto Nacional do Câncer, onde tratou um câncer de próstata.

Na opinião dos especialistas, para proteger pessoas com características como essas, é importante que todos que possam, se vacinem.

“Quando a população inteira adere a esse processo, você acaba diminuindo a circulação do vírus na população como um todo e passa a proteger, inclusive, indiretamente as pessoas que não estão vacinadas” e aquelas que não conseguiram a proteção desejada mesmo após a vacinação, explicou o virologista Flávio da Fonseca.

Enquanto a porcentagem de vacinados ainda é baixa, acrescentou o especialista, é importante manter as estratégias não farmacológicas, como a utilização de máscaras e o distanciamento social, para reduzir o número de pessoas que irá contrair a doença e, eventualmente, desenvolver casos graves. “É essencial para que a gente alcance a limitação da pandemia de maneira eficaz, mais rápida e sem as perdas de pessoas”, disse ao Checamos.

Até o último dia 16 de agosto, 57,3% da população brasileira havia recebido a primeira dose de uma das vacinas contra a covid-19 e 24,1%, as duas doses.

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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