Um médico mostra um teste rápido sorológico para covid-19 em uma clínica, na cidade do Rio de Janeiro, em 15 de abril de 2020 ( AFP / Florian Plaucheur)

Teste sorológico não é recomendado para avaliar imunidade adquirida com vacinas contra a covid-19

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“Eu não tenho anticorpos contra o coronavírus, mesmo após vacinado”, afirma um médico em um vídeo compartilhado mais de 38 mil vezes nas redes sociais desde o dia 12 de julho de 2021. Ele detalha ter tomado duas doses da vacina CoronaVac e ter realizado um teste de “titulação de anticorpos”, que teve resultado negativo. Mas isso é enganoso. Órgãos regulatórios do Brasil e Estados Unidos, assim como especialistas consultados pela AFP, alertam que testes de detecção de anticorpos não servem para medir o nível de proteção contra o vírus.

“CUIDADO. Você pode ter tido o mesmo PROBLEMA que eu . UMA FALSA PROTEÇÃO”, disse o médico na legenda do vídeo compartilhado no Facebook e no TikTok.

O vídeo foi compartilhado também no Twitter e no Youtube em outros perfis. “Dr. Delano tomou as duas doses de Coronavac e fez a testagem de anticorpos 6 meses depois. Resultado? Não está imunizado! Calcinha Apertada sua vacina vale tanto quanto você. Nada!”, diz um usuário.

Captura de tela feita em 15 de julho de 2021 de uma publicação no TikTok



Algumas das críticas fazem parte da rivalidade entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria, que protagonizaram embates durante a pandemia relacionados à vacina CoronaVac. “Calcinha apertada” é como alguns dos apoiadores do presidente chamam o governador, em referência às suas vestimentas.

No vídeo, o médico afirma ter realizado um teste de titulação de anticorpos para verificar se estava imune ao SARS-CoV-2, vírus causador da covid-19. Ele mostra o resultado de seu exame e diz que teve “10% de resultado, quando deveria ter dado acima de 20 ou 50%”. Ele afirma, ainda, que essa é a prova de que ele não tem anticorpos contra o novo coronavírus, mesmo tendo sido vacinado. Depois, exige a aplicação de uma nova dose de imunizante.

Sorologia e proteção vacinal

O exame realizado pelo médico é um tipo de teste sorológico, que identifica a quantidade de anticorpos contra o vírus que o organismo tem em circulação.

Larissa Brussa, doutora em genética e biologia molecular e divulgadora científica da Rede Análise Covid-19, explicou ao AFP Checamos que o teste sorológico “seria como um teste para detecção [de anticorpos]. Já a “titulação de anticorpos”, à qual se refere o autor do vídeo, pode ser inclusa no resultado oferecido pelo teste sorológico e identifica a quantidade de anticorpos existentes, explicou a pesquisadora.

Esses testes, no entanto, não são recomendados para indicar se uma pessoa está imune ou não ao vírus, pois os anticorpos neutralizantes encontrados nesses testes não são os únicos que compõem o sistema imunológico. “A imunidade conta com vários outros agentes, como a imunidade celular, através das células de defesa. [...] A imunidade é um mecanismo muito complexo”, destaca a pesquisadora.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desaconselha o uso de tais testes sorológicos para atestar a proteção vacinal desde março de 2021, quando publicou uma nota técnica sobre o assunto.

Nela, a Anvisa destaca que “não existe até o momento definição da quantidade mínima de anticorpos neutralizantes necessária para conferir proteção imunológica contra a infecção pelo SARS-Cov-2”.

Assim, a afirmação do médico de que em seu exame era preciso ter acima de 20% ou 50% de anticorpos neutralizantes para ser considerado imune também é enganosa, pois não há evidências científicas que fundamentem esses dados.

Enfermeira segura amostra de sangue tirada para teste de detecção da covid-19, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em 15 de abril de 2020. ( AFP / Florian Plaucheur)

Em um comunicado emitido em junho de 2021, a Anvisa informou que os produtos atualmente registrados no Brasil permitem somente identificar se uma pessoa já se infectou pelo SARS-CoV-2. “Os testes disponíveis não foram avaliados para verificar o nível de proteção [natural ou vacinal] contra o novo coronavírus”.

A Agência de Medicamentos e Alimentos (FDA) dos Estados Unidos também desaconselha o uso dos testes sorológicos para avaliar se alguém está protegido contra o vírus, “especialmente após a pessoa ter recebido a vacina contra a COVID-19”, e recomenda que sejam usados apenas com a finalidade de identificar se já ocorreu uma infecção pelo novo coronavírus.

Brussa ainda indicou ao Checamos que não há testes no mercado que permitam identificar se uma pessoa está, de fato, imune ao SARS-CoV-2, ou que avaliem o nível geral da imunidade.

Repercussão do vídeo

Um dia após a publicação do vídeo, em 13 de julho, a Secretaria de Saúde de Divinópolis (MG) ⎯ cidade do médico autor do vídeo ⎯ publicou uma nota de esclarecimento, em resposta aos “crescentes questionamentos sobre a realização de exames para avaliar a eficácia de vacinas e das solicitações de doses adicionais de imunobiológicos”.

Na nota, a Prefeitura desaconselhou avaliar a imunidade contra o novo coronavírus a partir de testes que dosam anticorpos neutralizantes.

Cita, também, um documento no qual a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) lembra que a resposta imune desenvolvida por meio da vacinação não depende apenas de anticorpos neutralizantes, pois há a imunidade inata, que também atua na proteção contra infecções. A SBIm conclui:

O Instituto Butantan, que produz a CoronaVac em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, publicou em sua conta no Twitter que o vídeo é uma “Fake News, um desserviço à saúde”. “Testes sorológicos não servem para avaliar proteção, contra a Covid-19, como já alertou a Anvisa”, finalizou.

Procurado pelo AFP Checamos, o instituto reiterou as informações divulgadas na nota da SBIm e indicou uma publicação do Governo de São Paulo no Facebook, na qual verifica as informações divulgadas pelo médico de Divinópolis e desaconselha o uso de testes de anticorpos para medir a proteção vacinal.

A CoronaVac é eficaz?

O Butantan também afirmou à AFP que a vacina CoronaVac é eficaz, o que foi comprovado “pelos testes clínicos realizados com 12.500 voluntários e que embasaram a aprovação de uso emergencial pela Anvisa e, mais recentemente, pela própria Organização Mundial da Saúde.

Uma profissional de saúde segura frasco da vacina CoronaVac, contra a covid-19, em campanha de imunização, na cidade de São Paulo, em 30 de março de 2021 ( AFP / Miguel Schincariol)

Um artigo publicado no último mês de junho por cientistas do Butantan mostrou que a eficácia da CoronaVac para casos sintomáticos atingiu 50,7%. Na análise, os pesquisadores apontam que o imunizante pode chegar a uma eficácia global ⎯ proteção contra casos leves, moderados ou graves ⎯ de 62,3%.

A publicação também constata a eficácia da vacina contra as variantes P.1 e P.2, surgidas no Brasil, chamadas pela OMS como Gamma e Zeta, respectivamente.

O Instituto Butantan reforçou ao Checamos “que a vacinação é uma estratégia de saúde coletiva e não somente individual”.

A divulgadora científica e doutora em biologia celular Rafaela Ribeiro disse à AFP que, por ser uma estratégia de saúde coletiva, a vacinação deve ter a adesão do maior número de pessoas possível, mesmo que cada indivíduo possa ter uma resposta imunológica diferente.

“O importante é que se muitos se vacinarem, vamos formar um escudo de transmissão, no qual alguns geram uma resposta diferente do outro com maior ou menor intensidade, que diminui a circulação do vírus e ainda, o mais importante, impede o desenvolvimento da doença”, explicou a pesquisadora.

Um exemplo do que Ribeiro apontou é o Projeto S, desenvolvido pelo Instituto Butantan em Serrana (SP). Para o estudo, toda a população adulta da cidade foi imunizada com duas doses da CoronaVac, levando os casos sintomáticos da covid-19 a diminuirem em 80%. As internações caíram 86% e as mortes, 95%.

Autoria da publicação

O médico Delano Santiago, que aparece no vídeo viralizado, é registrado no Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) e atende em uma clínica particular em Divinópolis.

Após a repercussão de sua postagem, o médico publicou outro vídeo, em que reconhece que o teste realizado para identificar os anticorpos neutralizantes não é capaz de comprovar sozinho que uma pessoa não está imune ao vírus.

O AFP Checamos entrou em contato por telefone e e-mail com Laboratório Central, onde o médico afirmou ter realizado o exame, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Um conteúdo semelhante também foi checado pela Agência Lupa.

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